A cantora baiana Candice Fiais estreia nesta sexta-feira (22) o espetáculo inédito “Mulheres do Blues”, na Varanda do SESI Rio Vermelho, em Salvador. Com início às 21h30, o show revisita a trajetória de mulheres que ajudaram a construir o gênero, mas que, segundo a artista, acabaram perdendo espaço no imaginário popular sobre a história do blues.
Em entrevista ao bahia.ba, Candice contou que a ideia nasceu de uma inquietação que a acompanha desde 2011, quando começou a montar seus primeiros repertórios solo de blues. Na época, enquanto nomes masculinos como B.B. King, Muddy Waters e Buddy Guy apareciam com facilidade nas pesquisas e nos próprios shows do gênero, encontrar referências femininas exigia um esforço maior.
“Nos shows de blues que eu assistia, também sentia isso muito forte. Ninguém fazia covers ou versões das músicas das mulheres bluseiras, e a maioria dos artistas de blues aparentemente ou mal conhecia ou sequer prestava atenção nessas artistas”, afirmou.
Depois de 15 anos inserida na cena, a cantora decidiu transformar o incômodo em um espetáculo dedicado exclusivamente às mulheres. A proposta ganhou forma ao lado da produtora Manuela Carvalho, da ONO Produções, e da banda que acompanha Candice.
Mulheres apagadas da história do blues
O repertório percorre diferentes períodos e vertentes do blues e reúne artistas como Bessie Smith, Sister Rosetta Tharpe, Memphis Minnie, Big Mama Thornton, Koko Taylor, Etta James, Bonnie Raitt e Janis Joplin. A seleção, segundo Candice, também levou em consideração letras que abordam temas como violência, relações interpessoais, papel social das mulheres e empoderamento.
Algumas artistas, no entanto, precisaram ficar de fora. Candice cita Ma Rainey, Billie Holiday e Nina Simone entre as ausências que mais pesaram na seleção. Mesmo com o recorte, o espetáculo chega a aproximadamente duas horas de duração.
Para a baiana, recuperar essas trajetórias significa também questionar a maneira como a própria história do gênero passou a ser contada. Candice lembra que mulheres protagonizaram a primeira grande era fonográfica do blues, na década de 1920, antes que figuras masculinas se consolidassem como as principais referências populares do gênero.
“As mulheres simplesmente tiveram a sua relevância apagada dentro do blues, virando notas de rodapé nessa história que elas protagonizaram e construíram”, avaliou.
A artista cita Bessie Smith e outras chamadas “blues queens”, que lotavam apresentações e vendiam milhares de discos no início do século passado, e Memphis Minnie, que já se destacava como guitarrista e compositora enquanto alguns dos homens posteriormente consagrados pelo gênero ainda eram muito jovens.
“Com esse projeto eu chamo todos para uma reflexão sobre o porquê das referências femininas terem praticamente desaparecido deste universo e buscar reverter essa dinâmica”, explicou.
Sexismo também aparece nos bastidores
A discussão proposta no palco encontra paralelo na própria trajetória de Candice. Com mais de duas décadas de carreira e cerca de 15 anos dedicados ao blues, a cantora afirma que ainda enfrenta situações em que sua autoridade profissional é colocada em dúvida por ser mulher.
Segundo ela, isso aparece principalmente em questões técnicas, como passagens de som, escolha de equipamentos e decisões relacionadas à estrutura das apresentações.
“Acontece muitas vezes do responsável técnico se dirigir a algum outro membro [masculino] da minha banda e ignorar a minha presença ali. Então você precisa passar pelo desgaste de se impor, de lembrar àquelas pessoas que você é a líder do projeto”, relatou.
Candice avalia que mulheres precisam demonstrar conhecimento e reafirmar autoridade de uma maneira que não costuma ser exigida dos homens. “A gente sendo mulher acaba precisando provar nossa expertise e impor a nossa autoridade de uma forma que um homem sequer precisa gastar energia com isso.”
Fazer blues em Salvador
Se a questão de gênero representa um desafio, construir uma carreira dedicada ao blues em Salvador acrescenta outro. Embora reconheça uma cena crescente na capital baiana, Candice aponta a falta de espaços e oportunidades para artistas do gênero.
“É bem difícil! A começar pelos espaços para tocar, que são pouquíssimos”, afirmou. Para ela, artistas e bandas locais precisam disputar atenção com gêneros de maior apelo comercial e frequentemente criar as próprias oportunidades.
“A cena de bandas e artistas de blues em Salvador é crescente e rica, mas nós precisamos criar do zero os nossos espaços, construir ‘no braço’ e com recursos próprios praticamente todas as oportunidades para tocarmos.”
A trajetória da cantora, no entanto, já ultrapassou as fronteiras brasileiras. Em 2025, Candice realizou sua primeira miniturnê internacional, com apresentações em Luxemburgo e Pétange. A experiência, segundo ela, foi transformadora.
“Me senti ampliando o alcance do meu trabalho, rompendo fronteiras e amadurecendo enormemente como artista”, contou.
Próximos projetos
Após a estreia, Candice pretende levar “Mulheres do Blues” a novos públicos e espaços. Paralelamente, a artista já prepara o próximo passo da carreira autoral.
Ainda em 2026, ela pretende lançar um novo single acompanhado de material audiovisual, que, segundo a cantora, já está praticamente finalizado. Um novo álbum também está nos planos, possivelmente para 2027.
Antes disso, a prioridade será fazer circular o espetáculo que nasceu de uma inquietação cultivada por mais de uma década.
“Eu quero dar a minha contribuição para reverter o processo de apagamento das mulheres na história do blues e trazer elas novamente pro centro dos palcos, fazer justiça ao legado delas”, resumiu.
O show “Mulheres do Blues” acontece nesta sexta-feira (21), às 21h30, na Varanda do SESI Rio Vermelho. Os ingressos estão à venda no Partik e custam R$ 50, na modalidade individual, e R$ 80, na modalidade casadinha.

