A vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, afirmou que o transporte público deve ser tratado como uma ferramenta de acesso a direitos e serviços essenciais, principalmente para a população em situação de vulnerabilidade. Em entrevista ao .ba ao vivo, do bahia.ba, ela destacou o perfil dos usuários do sistema e as políticas adotadas pelo município para reduzir barreiras de mobilidade.
“Eu tenho estudado, eu me importo de verdade. Então eu posso te dizer que 65% dos usuários do transporte são mulheres. 92% são mulheres negras”, afirmou nesta quinta-feira (24).
Segundo Ana Paula, os dados reforçam a necessidade de políticas de mobilidade que considerem também questões raciais e de gênero. “A gente está, inclusive, fazendo um trabalho com a Secretaria de Reparação e Mobilidade de um transporte antirracista. Estamos colocando mulheres para dirigir.”
Subsídio e custo do transporte
A vice-prefeita também falou sobre o impacto financeiro da gratuidade e dos subsídios no sistema de transporte. “Salvador já tem os subsídios de transporte, especialmente após a pandemia. Só que quanto mais eu dou a gratuidade, mais alguém vai pagar essa conta”, afirmou.
Segundo Ana Paula, a Prefeitura tem defendido a participação de outras esferas de governo no financiamento do transporte público. “O prefeito Bruno é vice-presidente da Frente Nacional dos Prefeitos e a gente fez um movimento nacional para pedir um subsídio federal que não chegou”, disse.
Ela também afirmou que o município tem buscado apoio do governo estadual para reduzir custos que impactam o sistema.
“Temos feito apelos ao governo estadual para diminuir o ICMS, porque o nosso diesel é o mais caro do país, especialmente pós-guerra. Então a gente entende que esse trabalho tem que ser coletivo, tem que ser das três instâncias”, declarou.
Transporte como porta de acesso
Para Ana Paula, a Prefeitura precisa analisar o transporte de acordo com as necessidades específicas de cada política pública. “Quando a gente chama o programa Mãe Salvador, mães para o pré-natal, nós damos o passe”, explicou.
A vice-prefeita também citou ações voltadas aos trabalhadores ambulantes durante o Carnaval. “Quando a gente está fazendo o trabalho com os ambulantes, a gente não só cuida dos filhos dos ambulantes, que já é importantíssimo, mas a gente tem, desde esse Carnaval, dado o transporte para que os ambulantes possam ir para casa e voltar, para não ficarem dormindo na rua”, afirmou.
Segundo ela, a lógica é identificar situações em que a mobilidade impede o acesso a serviços públicos. “Toda vez que a gente identifica o transporte como uma barreira ao acesso ao serviço público, a gente tem feito um trabalho de fazer essa aquisição e fazer essa entrega”, disse.
Políticas descentralizadas
Ana Paula também destacou a descentralização dos serviços municipais como estratégia para reduzir a necessidade de deslocamento da população. “A gente está descentralizando as políticas administrativas. Então tem a Prefeitura-Bairro”, afirmou.
Segundo ela, a Prefeitura tem levado diferentes serviços e programas para regiões mais afastadas do centro, incluindo iniciativas de empregabilidade e empreendedorismo.
“A gente está levando não só a empregabilidade do microempreendedor, com programas de incentivo ao afroempreendedorismo, mas também está levando o Polo Logístico para Valéria, levando o Polo Cinematográfico para o Subúrbio, levando os centros de operações também”, explicou.
Para a vice-prefeita, a descentralização busca garantir que a população tenha acesso a serviços e oportunidades mais próximos de casa. “A gente está descentralizando para que as pessoas possam dignamente ter no seu bairro condição de sobreviver e sustentar a sua família.”
Emprego para reduzir dependência de benefícios
Ana Paula afirmou que as políticas sociais precisam estar associadas à geração de renda e emprego.
“Eu preciso ter um ambiente de negócio mais acessível, menos burocrático, que gere emprego e, a partir do emprego, as pessoas tenham alegria, orgulho, autonomia para escolher onde comprar um pão, para escolher o que vai comprar para os filhos e não precisar viver apenas de uma transferência de renda”, afirmou.
Segundo ela, o programa VidaNova, que inicialmente atende cerca de 15 mil pessoas, deverá ser ampliado. “Começam com 15 mil pessoas, mas isso vai ser ampliado”, disse.
A vice-prefeita ressaltou ainda que as políticas precisam ser planejadas para ter continuidade. “Eu não posso fazer uma política em que as pessoas vão ficar felizes e não seja sustentável. Precisa ser sustentável.”
Cultura também como geração de renda
Ana Paula também relacionou cultura, turismo e geração de renda. Ela lembrou que criou o programa Viver Salvador quando ocupava a Secretaria de Cultura e Turismo.
“Viver Salvador é um programa que eu tive a oportunidade de criar, quando eu era secretária de Cultura e Turismo, para, inicialmente, levar as pessoas para o centro e depois para os bairros, com cultura e arte”, contou.
Segundo ela, a proposta foi ampliada a partir da percepção de que a cultura também pode gerar oportunidades econômicas. “A gente percebeu que cultura e arte já são a nossa identidade. A gente precisa também aprender a fazer economia criativa e monetizar, sustentar as famílias.”
Políticas sociais exigem acompanhamento
A vice-prefeita também citou experiências anteriores da Prefeitura com pessoas em situação de rua para explicar a necessidade de acompanhamento contínuo. “Esse processo é demorado, porque ele é complexo, ele é feito com maturidade institucional”, afirmou.
Ana Paula lembrou o programa de moradia assistida, desenvolvido para pessoas em situação de rua que enfrentavam problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas.
“Não adiantava colocar só no hotel social ou no auxílio-aluguel. Então a gente levou as psicólogas sociais para acompanhar as famílias, alugamos as casas, mobiliamos as casas e temos tido resultados lindíssimos”, relatou.
Segundo ela, algumas dessas pessoas passaram posteriormente a trabalhar na própria estrutura municipal. “Hoje trabalham com a gente, não só nas secretarias, mas até, por exemplo, no transporte.”
‘Preciso ter desenvolvimento econômico e social’
Ao falar sobre os desafios de Salvador, Ana Paula defendeu uma combinação entre políticas sociais, geração de emprego, turismo e desenvolvimento econômico. “Eu tenho que ter desenvolvimento econômico, eu tenho que ter desenvolvimento social, eu tenho que ter o turismo, eu tenho que ter renda”, afirmou.
Para a vice-prefeita, o crescimento econômico da cidade deve estar associado à melhoria das condições de vida da população. “Salvador precisa ter condição de ser mais ativa economicamente para que, socialmente, cuide ainda mais das pessoas”, concluiu.

