O que é powerlifting? Bicampeão explica esporte e crescimento na Bahia

    Lucas Pina falou ao bahia.ba sobre a modalidade, trajetória, títulos e os desafios enfrentados pelos atletas no estado

    Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

    Agachamento, supino e levantamento terra. Os três movimentos formam a base do powerlifting, esporte de força que ainda busca ampliar seu espaço na Bahia. Também conhecido como levantamento de potência, a modalidade coloca à prova a força máxima dos atletas, que têm três tentativas em cada exercício para alcançar a maior carga possível.

    Apesar de ainda ser pouco conhecido pelo grande público, o esporte vem construindo seu espaço no estado. Vitória da Conquista, no sudoeste baiano, tornou-se o principal polo da modalidade e será novamente palco do Campeonato Baiano de Powerlifting, que chega à quinta edição.

    Bicampeão estadual em 2023 e 2024, Lucas Pina acompanha esse crescimento de dentro das plataformas. Aos 22 anos, o atleta conversou com o bahia.ba sobre o funcionamento do esporte, a trajetória até os títulos, a rotina conciliada com a faculdade de Medicina e as dificuldades para desenvolver a modalidade na Bahia.

    Do futebol ao powerlifting

    Antes de trocar os gramados pelas barras e anilhas, Lucas tinha outro objetivo no esporte. O baiano jogava futebol e passou pelas categorias de base de Galícia e Jacuipense, além de disputar competições como o Campeonato Baiano, a Copa 2 de Julho e a Copa Tiradentes.

    A mudança começou durante a pandemia. Sem a rotina de atividades físicas, Lucas conta que passou de 58 kg para cerca de 80 kg e encontrou na musculação uma maneira de voltar a se exercitar. A academia, porém, ainda não havia se transformado em hábito.

    “Eu não conseguia, de fato, ter adesão. Ia duas vezes na semana e falava: ‘Já está bom, né?’. Só que aí teve um amigo meu que me introduziu no esporte, treinando nessa pegada de levantamento de peso, e simplesmente foi um negócio que me impressionou”, contou.

    O interesse deixou de estar somente na mudança estética quando ele passou a encarar o peso levantado como objetivo do treinamento. Foi a porta de entrada para o powerlifting.

    “Eu percebi que levantar peso propriamente dito é muito mais legal do que ficar só se importando com a estética. E aí, sim, engatou. Comecei a treinar totalmente para o powerlifting, fiz dieta e, nisso, consegui descer de 80 kg para uns 63 kg”, explicou.

    Foto: Arquivo Pessoal

    Como funciona o powerlifting?

    O powerlifting é uma modalidade baseada em três exercícios: agachamento, supino e levantamento terra. Em uma competição, o atleta tem três tentativas em cada movimento para conseguir a maior carga válida possível. A melhor marca obtida em cada um deles compõe o total do competidor.

    Mais do que simplesmente colocar peso na barra, os movimentos precisam seguir critérios técnicos para serem validados pelos árbitros. Os atletas também são separados por categorias, entre elas as definidas pelo peso corporal.

    Atualmente com cerca de 72 kg, Lucas se prepara para disputar a categoria até 74 kg no Campeonato Baiano, em Vitória da Conquista. A experiência é diferente daquela vivida nas duas conquistas estaduais que carrega no currículo.

    Em 2023, quando conquistou o primeiro título, o desafio também passava por controlar a ansiedade de disputar seu primeiro Campeonato Baiano.

    “No começo, eu senti muita ansiedade, mas é aí que entra a parte da mentalidade de cada atleta. 2023 foi o meu primeiro campeonato. Antes, eu já tinha dois campeonatos amadores, mas foi o primeiro de verdade. Eu já estava entrando nessa onda de competições”.

    “Lembro de ter ficado muito animado e pensar: ‘Será que vou conseguir levantar?’. Mas a preparação foi muito tranquila, eu bati o peso com a maior facilidade do mundo, cheguei à categoria pesando bem abaixo do máximo e deu tudo certo”, relembrou.

    O peso antes de levantar o peso

    Se a estreia no Baiano teve uma preparação tranquila, o bicampeonato, em 2024, exigiu outro tipo de desafio. Lucas estava acima do limite da categoria em que competiria e precisou reduzir o peso corporal durante os meses anteriores ao torneio.

    “Eu lembro que, na preparação, estava pesando 70 kg e não ia entrar na minha categoria da época. Aí tive que fazer uma dieta de déficit calórico alguns meses antes para perder peso e chegar perto da margem do campeonato. Faltando duas semanas, eu ainda estava com 68 kg e tive que entrar com algumas estratégias nutricionais”, afirmou.

    Segundo o atleta, o processo incluiu alterações na alimentação e manipulação da ingestão de água nos momentos finais antes da pesagem.

    “Fiz uma dieta com alimentos líquidos e a gente começou a fazer a estratégia de desidratação, manipulando água. Eu lembro que primeiro fiz uma hiper-hidratação, bebi oito litros de água no máximo e, na desidratação, cheguei a beber um litro no dia da competição. Assim, cheguei pesando pouco mais de 65 kg, que já é o limite para a categoria”, relatou.

    Entre a Medicina e as barras

    A rotina esportiva divide espaço com outra atividade que exige tempo de Lucas. Além de competir no powerlifting, o bicampeão baiano é estudante de Medicina e precisa encaixar os treinamentos entre aulas e estudos.

    “Conciliar a vida de atleta com a Medicina não é fácil. Muitas vezes, tenho que treinar em horários ruins, depois de passar o dia todo na faculdade. Mas penso na melhor forma de alcançar os pequenos objetivos de cada dia. Com relação aos estudos, fica uma rotina cansativa. Porém, acho que quem de fato quer consegue, de alguma forma, dar um jeito e fazer acontecer”, disse.

    A combinação entre esporte e Medicina, na realidade, surgiu como um desejo ainda na adolescência. Naquela época, quando o futebol ainda fazia parte da rotina, Lucas tinha como referência Sócrates, ídolo do Corinthians e da Seleção Brasileira que também se formou médico.

    “Eu falava para minha mãe, quando era adolescente, que queria ser jogador de futebol e médico. Queria ser igual a Sócrates. Pretendo levar a Medicina para toda a minha vida. E o powerlifting entra meio que agregando isso, porque eu acabei aprendendo muita coisa que concilia os dois. Os meus conhecimentos me ajudam e eu posso obter uma performance melhor nos treinos”, explicou.

    Foto: Arquivo Pessoal

    Por que Vitória da Conquista virou o centro do esporte?

    Enquanto Salvador concentra boa parte das principais competições esportivas realizadas na Bahia, o cenário do powerlifting é diferente. A Associação Baiana de Powerlifting tem sede em Vitória da Conquista, cidade que se consolidou como um dos principais pontos de encontro dos praticantes da modalidade no estado.

    Lucas atribui esse cenário à atuação de um grupo que começou a organizar e disseminar o esporte na região.

    “Muita gente pergunta por que o centro do esporte na Bahia é em Vitória da Conquista e não na capital, em Salvador. Acontece que um pessoal apaixonado pelo esporte fundou a federação e começou a treinar uma galera já nessa modalidade. Eram poucas pessoas. Aí eles começaram a convocar mais gente, chegaram a fazer workshop em Salvador e foi nesse evento que conheci os dirigentes”, contou.

    O crescimento, segundo o atleta, ainda convive com uma realidade financeira difícil. Mesmo com a realização de campeonatos e o surgimento de novos praticantes, organizar uma competição estadual não significa necessariamente retorno financeiro.

    “Quando tem Campeonato Baiano de Powerlifting, normalmente dá prejuízo para os organizadores, porque é algo realmente feito por amor, não é com o intuito de lucrar”, afirmou.

    Falta de incentivo ainda limita modalidade na Bahia

    Para Lucas, a dificuldade enfrentada pelo powerlifting está inserida em um problema maior do esporte brasileiro: a concentração de visibilidade e investimentos no futebol. O atleta cita Estados Unidos e países europeus como exemplos de locais onde enxerga uma relação diferente com outras modalidades.

    “Na minha opinião, qualquer esporte que não seja o futebol não recebe muito incentivo. Eu vejo que o powerlifting é muito difundido lá fora. Nos Estados Unidos, a gente vê na educação física das escolas, é algo muito diferente. Na Europa, o incentivo também é muito maior”, avaliou.

    Na visão do bicampeão baiano, aproximar crianças e adolescentes de diferentes práticas esportivas seria um dos caminhos para mudar esse cenário.

    “Eu acho que o incentivo para o esporte pode vir inserindo na vida dos mais jovens, estimulando a praticar esporte ou alguma modalidade para ser algo familiar, habitual. Nos Estados Unidos, a academia é como se fosse um menino jogando bola na rua. Aqui no Brasil, qualquer coisa que seja diferente atrai um olhar de julgamento ou interesse. No meu caso, eu olhei com interesse. O esporte é algo que sempre acaba agregando na vida das pessoas”, afirmou.

    Lucas percebe, porém, uma mudança na exposição do powerlifting no Brasil. Entre os responsáveis por apresentar a modalidade a um público maior, ele cita o influenciador e atleta Bitelo, que ganhou projeção nas redes sociais com vídeos relacionados à força e ao levantamento de peso.

    “O powerlifting está ganhando uma notoriedade muito grande, principalmente pela figura do Bitelo. Aquele cara é powerlifter de origem humilde, super gente boa e ganhou muitos fãs. Ganhou uma legião de fãs e trouxe uma visibilidade enorme para o esporte. Foi muito positivo. Eu acho legal quando as pessoas olham com um olhar de interesse”, completou.

    Veja a entrevista completa no bahia.ba: