A procura por tratamento contra problemas relacionados às apostas cresceu mais de 600% no Sistema Único de Saúde (SUS), em meio ao avanço das bets e dos jogos online no Brasil. A expansão dos casos levou o Ministério da Saúde a ampliar as estratégias de identificação e acompanhamento de pessoas com comportamento de jogo problemático.
O cenário ganha destaque após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinar uma Medida Provisória que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas esportivas e jogos online no país, tanto em ambientes físicos quanto virtuais.
A preocupação das autoridades de saúde não está restrita às perdas financeiras provocadas pelo jogo. O comportamento compulsivo pode estar associado a ansiedade, depressão, alterações de sono e humor, perda de controle, isolamento e conflitos familiares, além de prejuízos nas relações pessoais e profissionais e maior consumo de álcool e outras drogas.
Segundo os dados apresentados pelo Ministério da Saúde, mais de 1,5 milhão de brasileiros enfrentam problemas relacionados às apostas. Como parte da estratégia para identificar pessoas em situação de risco, a pasta disponibilizou uma ferramenta de autoavaliação no Meu SUS Digital.
“Há dados que expressam o tamanho do problema, mas certamente não conseguem traduzir todo o sofrimento que aparece quando ouvimos os relatos de pacientes, profissionais de saúde e familiares. Estamos falando de algo que vai muito além de uma atividade econômica: entra nas casas das pessoas, nas escolas e nos celulares, e afeta não apenas quem desenvolve um comportamento compulsivo, mas também os familiares que estão ao seu redor”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Suicídio e vulnerabilidade preocupam
Outro indicador apresentado pelas autoridades envolve a relação entre transtorno do jogo e suicídio. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) citados pelo Ministério da Saúde, a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo. As dificuldades financeiras aparecem como o principal fator associado ao suicídio entre apostadores.
A vulnerabilidade socioeconômica também aumenta a exposição ao problema. O risco de desenvolver dependência seria três vezes maior nesse grupo, enquanto jogadores que utilizam plataformas online apresentam risco 150% superior.
A dimensão do mercado ajuda a explicar a preocupação. Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam realizado algum tipo de aposta nos 12 meses anteriores ao levantamento utilizado pela pasta. Desse total, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.
Os reflexos também chegaram à rede pública de saúde. Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados ao jogo patológico e a problemas com apostas aumentaram aproximadamente 140%. A projeção apresentada aponta para um crescimento adicional de 104% até 2028.
Impacto bilionário e exposição entre jovens
Um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social relacionado aos jogos no Brasil. Desse montante, R$ 30,6 bilhões, aproximadamente 79% do total, estariam ligados à saúde, considerando fatores como suicídios, tratamentos médicos e perda de qualidade de vida associada à depressão.
A exposição às apostas também alcança crianças e adolescentes. Uma pesquisa realizada com estudantes de escolas públicas e privadas apontou que 20,4% dos entrevistados já fizeram apostas online, com relatos de primeiro contato a partir dos 11 anos. Entre meninos do terceiro ano do Ensino Médio, o percentual chega a 49,7%.
Os efeitos não ficam restritos a quem aposta. Entre as mulheres que apostam ou já apostaram, 65% afirmaram não ter procurado ajuda por vergonha. Mesmo entre aquelas que não participam de jogos, 12% relataram sofrer consequências provocadas pelas apostas realizadas por familiares.

