New York Times aponta temor de interferência de Trump no Brasil

    ELEIÇÕES 2026: Jornal americano relata medidas adotadas pelo Brasil diante da possibilidade de influência dos EUA na disputa entre Lula e Flávio

    Foto: Reprodução/X/@MidiaNINJA

    A eleição presidencial brasileira entrou no radar da política externa dos Estados Unidos e, segundo reportagem publicada pelo The New York Times, existe uma preocupação crescente no Brasil com uma possível interferência do governo de Donald Trump no processo eleitoral.

    Em reportagem publicada em 28 de setembro e atualizada no dia 30, os jornalistas Ana Ionova e Adam B. Ellick descrevem as medidas que autoridades brasileiras vêm adotando para tentar proteger o processo eleitoral de possíveis ações externas.

    O texto aponta que a principal dúvida neste momento é qual será o próximo movimento de Trump em relação à eleição brasileira, especialmente diante da disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

    Por que Trump entrou no debate eleitoral brasileiro?

    De acordo com o jornal americano, Trump construiu uma atuação política mais próxima de candidatos de direita na América Latina desde que voltou à Presidência dos Estados Unidos.

    O NYT afirma que o presidente americano declarou recentemente que ajudou a eleger políticos na América do Sul. Segundo a reportagem, o Brasil seria o principal teste dessa estratégia por representar uma das maiores democracias e economias da região.

    Trump, no entanto, não declarou publicamente apoio a Flávio Bolsonaro. O jornal relata que integrantes do governo americano teriam adotado medidas que, na avaliação de autoridades brasileiras ouvidas pela reportagem, poderiam beneficiar o candidato de direita.

    A campanha de Flávio Bolsonaro e o Departamento de Estado dos Estados Unidos não responderam, segundo o NYT, aos pedidos de manifestação feitos pela reportagem.

    Relação com Jair Bolsonaro

    O histórico entre Trump e o ex-presidente Jair Bolsonaro também aparece como um dos fatores de preocupação citados pelo jornal.

    A reportagem relembra que o governo Trump adotou sanções e ameaças tarifárias contra o Brasil em meio à situação envolvendo Jair Bolsonaro, condenado pela Justiça brasileira por tentativa de golpe de Estado.

    O NYT afirma que autoridades brasileiras temem que novas medidas de pressão dos Estados Unidos possam ser utilizadas para desgastar a imagem de Lula ou favorecer politicamente seu adversário.

    O jornal também menciona a possibilidade de campanhas digitais estrangeiras influenciarem o ambiente eleitoral brasileiro.

    Redes sociais e desinformação

    Outro ponto destacado pela reportagem é a circulação de conteúdos pagos nas redes sociais que favoreceriam a percepção de crescimento eleitoral de Flávio Bolsonaro.

    Segundo o NYT, publicações compartilhadas por perfis de destaque da direita americana amplificaram dados da Polymarket, plataforma de mercado de previsões que tem entre seus investidores uma empresa ligada a Donald Trump Jr.

    A reportagem ressalta que os números da plataforma divergiam das pesquisas eleitorais citadas no período, que indicavam uma disputa sem um candidato claramente isolado na liderança.

    O caso é apresentado pelo jornal como parte de uma preocupação maior das autoridades brasileiras com eventuais campanhas de influência estrangeira nas redes sociais.

    Brasil reforça proteção contra interferência

    Diante desse cenário, órgãos brasileiros passaram a intensificar medidas para proteger o processo eleitoral.

    Segundo o NYT, as agências de inteligência brasileiras colocaram o combate à manipulação estrangeira por meio das redes sociais entre suas prioridades.

    O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também adotou novas regras relacionadas à desinformação e passou a exigir medidas das plataformas digitais para enfrentar conteúdos enganosos, inclusive aqueles produzidos ou manipulados por inteligência artificial.

    O tribunal ainda ampliou iniciativas de auditoria das urnas eletrônicas e promoveu ações destinadas a apresentar o sistema eleitoral brasileiro a partidos, especialistas, diplomatas e observadores internacionais.

    Confiança nas urnas volta ao centro do debate

    A reportagem também aborda os ataques à segurança das urnas eletrônicas brasileiras.

    O NYT afirma que especialistas internacionais consideram o sistema eleitoral brasileiro seguro, mas cita uma pesquisa segundo a qual 34% dos brasileiros demonstravam desconfiança nas urnas eletrônicas, percentual superior ao registrado em 2022.

    Para tentar ampliar a confiança no processo, o TSE convidou partidos e especialistas em segurança para testar os equipamentos e ampliou procedimentos de auditoria.

    O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, afirmou, segundo o jornal, que a Corte busca abrir o sistema eleitoral para observadores estrangeiros e apresentar mecanismos capazes de responder às críticas.

    Apoio internacional é buscado pelo Brasil

    Outro movimento descrito pelo New York Times é a tentativa brasileira de ampliar o acompanhamento internacional das eleições.

    Segundo a reportagem, representantes diplomáticos da União Europeia, Canadá, Japão, Austrália e outros países mantiveram conversas sobre possíveis respostas a situações de interferência externa.

    O jornal também relata que missões internacionais deverão acompanhar a votação e que o Centro Carter, organização independente de monitoramento eleitoral com sede nos Estados Unidos, decidiu enviar observadores ao Brasil.

    A intenção, de acordo com a reportagem, é ampliar a presença internacional durante o processo e reforçar a credibilidade do resultado eleitoral.

    Minerais estratégicos também aparecem no debate

    A reportagem relaciona a disputa eleitoral brasileira aos interesses estratégicos dos Estados Unidos na América Latina.

    O Brasil possui reservas de minerais considerados importantes para setores como tecnologia, energia e indústria. Segundo o NYT, aliados de Flávio Bolsonaro defendem uma aproximação maior com Washington nessa área.

    O jornal cita ainda documentos atribuídos a um aliado do candidato que mencionariam a possibilidade de oferecer aos Estados Unidos acesso a minerais estratégicos em troca de apoio.

    O autor do documento, conforme relatado pelo NYT, reconheceu ter produzido o material, mas negou que ele tenha sido elaborado a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro ou encaminhado a autoridades americanas.

    O que Lula diz sobre Trump?

    Lula também passou a tratar publicamente da possibilidade de influência americana.

    Segundo a reportagem, o presidente afirmou que os Estados Unidos não deveriam tentar interferir nas eleições brasileiras e defendeu a soberania nacional.

    Durante discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, Lula criticou interferências estrangeiras em assuntos internos do Brasil e afirmou que o país não deveria ser tratado como área de influência de outra nação.

    O presidente também publicou material de campanha no qual acusou o governo Trump de favorecer seu adversário e de ter interesses nos recursos naturais brasileiros. O NYT ressalta que Lula fez essas acusações sem apresentar provas, segundo a própria reportagem.

    O que pode acontecer após a eleição?

    O New York Times também levanta a possibilidade de uma nova disputa sobre a legitimidade do resultado caso Flávio Bolsonaro não vença a eleição.

    A reportagem lembra que, após a eleição de 2022, Jair Bolsonaro questionou o resultado sem apresentar evidências de fraude, e seus apoiadores posteriormente invadiram prédios dos Três Poderes, em Brasília, em janeiro de 2023.

    Nesse contexto, o jornal aponta a preocupação de autoridades brasileiras com a eventual repetição de acusações contra o sistema eleitoral e com a possibilidade de essas narrativas encontrarem apoio internacional.

    Ao mesmo tempo, a reportagem destaca que não está claro se uma eventual atuação do governo Trump teria impacto sobre o resultado eleitoral brasileiro.

    O NYT também menciona a possibilidade de uma reação contrária entre eleitores brasileiros caso percebam uma tentativa de interferência estrangeira.

    Eleição brasileira vira teste da relação com os EUA

    A conclusão apresentada pelo jornal é que a eleição brasileira passou a representar um teste não apenas para os candidatos, mas também para a relação entre Brasil e Estados Unidos.

    De um lado, Washington busca ampliar sua influência política e econômica na América Latina. Do outro, autoridades brasileiras afirmam que o processo eleitoral deve permanecer sob controle das instituições nacionais.

    O ministro Kassio Nunes Marques, segundo o NYT, resumiu a posição do Tribunal Superior Eleitoral ao afirmar que o resultado das urnas deverá refletir a vontade dos eleitores, independentemente de qual candidato seja beneficiado.

    A eleição, portanto, é apresentada pelo jornal americano como um episódio em que democracia, influência internacional, redes sociais, segurança eleitoral e interesses econômicos estratégicos se cruzam.