Terreiros de candomblé do sul e do sudoeste publicaram notas repudiando o sequestro do menino Noah, de 11 meses, após associação do crime à religião de matriz africana. O caso ganhou notoriedade estadual após o bebê ter sido raptado no município de Ponto do Astério, em Firmino Alves. Dois suspeitos foram presos noite de quarta-feira (14), em Ibicuí. A criança foi encontrada na manhã do mesmo dia em uma barraca de praia na zona sul de Ilhéus.
Manifestações ocorrem após algumas pessoas associarem a religião ao crime cometido contra Noah por um dos suspeitos ser pai de santo – informação confirmada por fontes do bahia.ba. Além disso o pai da criança relatou a suspeita de que a vítima seria usada para um ritual do que ele chamou de “magia negra”.

As casas manifestaram solidariedade à família do bebê de 11 meses e disseram ser contra o uso das religiões de matriz africana para práticas criminosas.
“Não admitimos que a fé, os símbolos ou as tradições das religiões de matriz africana sejam utilizadas para justificar, encobrir ou associar a nossa religiosidade a práticas criminosas. A responsabilidade por um crime é de quem comete, e nenhuma crença pode servir de justificativa para a violência ou para violação dos direitos de uma criança”, publicou o Terreiro Yá Ori, Ilhéus, cidade onde a criança foi encontrada.
Ver esse post no Instagram
O Nzó Nkissi Nganga Kavungo Ya Ori Filho, também em Ilhéus, escreveu: “Nossa posição é clara: não toleramos a violência, não defendemos criminosos e não admitimos que a religião seja usada para justificar crimes”
Ver esse post no Instagram
Já o Ilé Alákétu Àṣẹ Ọdẹ Omí Lódò, de Brumado, defendeu: “Reafirmamos que o Candomblé é uma religião de fé, respeito, acolhimento e compromissos com a vida. Não compactuamos com qualquer prática criminosa ou conduta que contrarie esses princípios”.
Ver esse post no Instagram
Casa de quimbanda do suspeito de sequestrar Noah foi queimada em Vitória da Conquista
Em um vídeo nas redes sociais, uma mulher chamada Sabrina Lavinsky, que se identificou como irmã de Noah, comentou sobre a repercussão dos comentários envolvendo o candomblé ao rapto do bebê e disse não ter responsabilidade sobre as pessoas se equivocarem e associarem a religião a crimes.
Além disso, ela falou que uma das casas religiosas do suspeito de sequestrar a criança – que se identifica como Tat’eto Riá Nkosi Lunjí Mavambo – foi queimada em Vitória da Conquista após ela revelar nos stories a localização e criticar uma postagem acerca de um ônibus do templo que estaria saindo da cidade um dia antes do sequestro.
“O que que eu tenho a ver com isso? Foi dos stories que eu postei do cara, do terreiro do cara? Aí vocês me falem uma coisa: É normal um cara desse postar um stories um dia antes de de sequestrar meu irmão? É normal um cara desse postar que ia sair uma van de Vitória da Conquista, tendo sequestrado meu irmão? É normal isso? Eu pedi, como irmã, para investigar se tem se existe outras crianças nisso? Aí eu tô atacando a religião. Eu tô atacando a religião de vocês. Mil desculpa, gente, mas eu não entendo isso. Em que momento eu ataquei a religião de vocês? Para vocês estarem falando que eu sou culpada de ter botado fogo na casa de não sei quem, de terreiro de não sei quem. Gente, a proporção foi enorme. Enorme. As pessoas estão revoltadas. Eu já falei, gente, ataquem a pessoa que fez, mas não ataquem a religião de ninguém”, disse no vídeo.
Ver esse post no Instagram
Em entrevista ao bahia.ba, uma fonte que preferiu manter o anonimato confirmou a informação de que a casa que sofreu o incêndio em Vitória da Conquista era do suspeito. Segundo ela, o homem tem dois terreiros: um de candomblé e outro de quimbanda luciferiana; o que teria sido queimado foi o segundo.
Em nota, a Polícia Civil informou: “A 1ª Delegacia Territorial (1ª DT/Vitória da Conquista) expediu as guias periciais e apura as circunstâncias de um incêndio ocorrido em uma residência, na noite da quinta-feira (15), no bairro Centro, em Vitória da Conquista. Diligências e oitivas são realizadas pela unidade policial para o esclarecimento dos fatos.”
Praticante de religião de matriz africana relata receio após repercussão do caso
A pessoa entrevistada pela equipe de reportagem também falou que a situação gerou medo entre os praticantes de religiões de matriz africana do sul e do sudoeste da Bahia. Ela relatou que está circulando muita desinformação nas redes sociais e que algumas delas inflamam o racismo religioso já existente. A preocupação aumenta diante do momento eleitoral polarizado vivido nacionalmente.

