As vitórias políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ditam o ritmo das mudanças globais e a erosão da moderação. Sabemos que os EUA não trabalham com presidentes de esquerda, mas a guinada rumo a um foco tão acentuado na extrema-direita também não era o roteiro esperado.
Nos mais recentes períodos de relativa estabilidade, nunca tivemos tantas lideranças de extrema-direita surgindo no mundo. E a política global raramente perdoa desvios estruturais.
Junto com Trump, um pacote de práticas controversas retornou ao centro do debate internacional: o ceticismo em relação à vacina e à ciência, o que pavimentou o retorno de doenças já erradicadas. Trump também resgatou um expansionismo alheio aos consensos do século XXI, marcado por pressões geopolíticas, alinhamentos militares em conflitos no Oriente Médio e na Ucrânia, além da imposição de taxas comerciais a países estratégicos para a economia norte-americana.
Vale lembrar a atuação de Trump em relação à Groenlândia. Por meio de intensa pressão diplomática e econômica, o Reino da Dinamarca acabou cedendo aos EUA o controle permanente da defesa e da segurança da ilha, uma medida tratada por Washington como estritamente favorável aos seus interesses.
Isso não significa, por outro lado, que a política tradicional e focada no centro esteja isenta de falhas; contudo, o crescimento da extrema-direita aposta em soluções simplistas e distantes do diálogo institucional.

Extrema-direita cresce no mundo
Analisando outras democracias de peso, o paralelo se sustenta. Na América do Sul, o trumpismo encontrou terreno fértil na Colômbia com a ascensão do outsider Abelardo de la Espriella à presidência, derrotando o herdeiro político do combativo mandato do esquerdista Gustavo Petro, Iván Cepeda.
Dinâmica semelhante ocorreu na Argentina. Esgotadas as alternativas entre o tradicionalismo de direita de Maurício Macri e os limites econômicos do peronismo de Alberto Fernández, restou ao eleitorado optar pela via mais radical e anti-sistema representada por Javier Milei. Seus métodos falam por si.
O Brasil sob Jair Bolsonaro enfrentou um período trágico durante a pandemia. Foram mais de 700 mil mortos em um contexto de franco negacionismo, atraso na compra de vacinas e descrédito institucional da ciência.
O país debatia a eficácia de medicamentos ineficazes enquanto cidadãos perdiam a vida e o chefe do Executivo debochava da gravidade da crise sanitária. Mas o histórico recente demonstra que cenários de ruptura podem assumir proporções ainda mais drásticas.
A política não aceita desaforo
Um exemplo contundente da fragilidade institucional no mundo pode ser observado na Ucrânia. Até maio de 2019, as fronteiras com a potência russa de Vladimir Putin enfrentavam impasses, mas ainda encontravam válvulas de escape na diplomacia. Hoje, a realidade geopolítica transformou profundamente a soberania e a integridade ucraniana.
A eleição do ex-comediante Volodymyr Zelensky catalisou a escalada de tensões no Leste Europeu. E, em mais uma coincidência dos novos tempos, o artista conquistou o eleitorado à margem da imprensa tradicional, ancorando sua estratégia fortemente nas redes sociais.

Trazendo o debate de volta ao Brasil, as eleições de 2026 foram marcadas por intensos questionamentos sobre a atuação das plataformas digitais e das big techs, operando livremente no país. O Partido dos Trabalhadores, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), chegou a protocolar denúncias no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apontando suposto favorecimento à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).
Embora as empresas neguem interferência sistêmica, o fato é que o candidato bolsonarista passou a acenar com alinhamentos estratégicos profundos com os Estados Unidos para a exploração de recursos essenciais para a economia das próximas décadas.

