
Há cinco anos, o Brasil se despedia de uma das vozes mais marcantes e poderosas da música brasileira. Marília Mendonça morreu em 5 de novembro de 2021, aos 26 anos, em um trágico acidente de avião. Naquela data, para muitos amantes da música, não apenas do sertanejo, o ano parecia ter acabado antes da hora.
Em Salvador, cidade atravessada pelo axé, pelo samba-reggae e pelo pagodão, a goiana de Cristianópolis havia deixado sua marca dois anos antes. Em 9 de abril de 2019, Marília reuniu uma multidão no Pelourinho para uma das gravações do projeto “Todos os Cantos”.
Em frente à Fundação Casa de Jorge Amado, no coração do Centro Histórico, a cantora subiu ao palco para cantar de graça, para o povo. Antes disso, fez questão de participar da própria divulgação: percorreu pontos de Salvador distribuindo panfletos com informações sobre a apresentação surpresa.
De calça jeans, camiseta e boné, Marília passou pela Avenida Sete, pelo Farol da Barra e por outros pontos da cidade. Por onde caminhava, era reconhecida, abraçada e tietada por fãs.

Naquela noite, a baiana por algumas horas recebeu no palco Léo Santana e a Banda Didá, grupo feminino de percussão de samba-reggae. Foi desse encontro que nasceu a gravação de “Apaixonadinha”, posteriormente lançada dentro do projeto.
Cinco anos após a partida da cantora, Carla Souza, de 24 anos, percussionista e integrante da direção da Banda Didá, relembrou com exclusividade ao bahia.ba como descobriu que dividiria o palco com Marília. Neta de Neguinho do Samba, criador do samba-reggae e fundador da Didá, Carla cresceu dentro do grupo e hoje também atua como arte-educadora de Dança Afro no Projeto Sódomo Didá e integra a formação da Banda Didá Show.
Convite guardado até a última hora
Segundo Carla, as percussionistas não sabiam para qual apresentação estavam sendo chamadas. A surpresa veio quando já estavam reunidas na sede da banda.
“Estávamos em casa quando recebemos uma mensagem chamando a gente para tocar em uma apresentação normal. Não disseram onde seria, o que era, nem nada. Quando chegamos à sede, que já estava toda arrumada, a diretora chamou a gente em uma sala e contou com quem iríamos gravar”, relembrou.
A preparação precisou ser rápida. As integrantes receberam a música e as orientações para a apresentação faltando menos de uma hora para a gravação.
“Ela mostrou a música, as variações que a gente precisava pegar, tudo em menos de uma hora para o show. Então veio toda aquela euforia, aquela alegria, aquele sentimento de felicidade por fazer parte daquele momento, com uma cantora que estava no auge da fama e também com um cantor famoso. Para a gente foi muito importante”, contou Carla.
O pouco tempo para ensaiar aumentou a tensão entre as percussionistas, mas não diminuiu a confiança do grupo. “A gente ficou muito nervosa, claro, porque faltava menos de uma hora para o evento. Mas também tinha a certeza de que iria, mais uma vez, realizar o nosso trabalho bem feito”, afirmou.

Carla conta que as integrantes não tiveram a oportunidade de conversar individualmente com Marília Mendonça ou Léo Santana naquela noite em Salvador, mas conseguiram registrar o encontro em uma fotografia coletiva.
Tambor, ancestralidade e memória
Para Carla, que carrega também o legado do avô Neguinho do Samba, participar daquela gravação foi além de dividir o palco com dois artistas de projeção nacional. O encontro representou mais uma oportunidade de colocar em evidência a história da Didá, a percussão feminina e o samba-reggae criado na Bahia.
“Todas as vezes que temos a oportunidade de mostrar o nosso trabalho, de contar um pouco da nossa história através da música, do tambor e da ancestralidade, é um momento de oportunidade, de resistência e de afirmação de tudo que a gente vem fazendo durante toda a nossa trajetória”, afirmou.
A Banda Didá se aproxima dos 33 anos de história e, segundo Carla, carrega o pioneirismo de ter sido a primeira banda feminina de percussão de samba-reggae do mundo.
“Quando a gente tem a oportunidade de estar ao lado de pessoas que estão no auge da fama, é uma sensação de reconhecimento, de que sabem quem somos e conhecem a nossa história. A Didá é a primeira banda feminina de percussão de samba-reggae do mundo. Todas as outras que vieram depois também têm a nossa história como inspiração”, disse.
Para Carla, ocupar aquele palco também tinha um significado que ultrapassava a própria gravação. Era a continuidade de um movimento construído a partir dos tambores e da presença de mulheres em um espaço historicamente marcado pela percussão masculina.
“Poder existir diante dessa sociedade é muito importante para a gente”, resumiu.
Cinco anos depois da despedida de Marília, aquela noite de abril continua sendo lembrada por quem participou dela.
“Até hoje acredito que é um marco na nossa história. Quando vamos para alguns lugares ministrar aulas, a gente fala que participou da gravação de Marília Mendonça com Léo Santana. Isso é importante para o nosso currículo e para a nossa história”, contou Carla.
Em Salvador, Marília deixou mais do que um clipe gravado no Pelourinho. Ficou a imagem de uma artista que, mesmo no auge da carreira, saiu às ruas com panfletos nas mãos, encontrou o público sem grandes cerimônias e fez da música um ponto de encontro entre o sertanejo, o pagodão e os tambores do samba-reggae.
Naquela noite, o Salvador foi também um pouco de Marília Mendonça.
