Banco Master do Paraguai? Crise do Ueno derrubou presidente do país

    Entenda escândalo financeiro e veja semelhanças com caso do banqueiro Daniel Vorcaro

    Foto: Divulgação/Ueno Bank

    A crise financeira do Ueno Bank, no Paraguai, ganhou um desdobramento político nesta quinta-feira (5), com a renúncia do presidente Santiago Peña. O episódio apresenta semelhanças com o escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro em novembro de 2025 e que levou à prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

    Nos dois países, instituições financeiras que cresceram rapidamente passaram a ser investigadas por operações suspeitas, investimentos de fundos de previdência e possíveis relações irregulares com integrantes do poder público.

    Em um vídeo publicado nas redes sociais, Peña pediu desculpas à população e afirmou que decidiu deixar o cargo pensando na estabilidade do país, na paz social e na necessidade de preservar as instituições democráticas. Com a renúncia, o político evitou ser alvo de um processo de impeachment.

    A saída ocorreu depois que o governista Partido Colorado, liderado pelo ex-presidente Horacio Cartes, anunciou apoio ao processo de impeachment. Peña, um dos expoentes da nova direita na América Latina, era acusado pela oposição de conflito de interesses, uso indevido de recursos públicos e encobrimento de irregularidades relacionadas ao Ueno Bank.

    O que Ueno Bank e Banco Master têm em comum?

    Os dois episódios envolvem bancos digitais que conquistaram espaço nos respectivos mercados em poucos anos, atraíram grandes volumes de recursos e acabaram no centro de questionamentos sobre operações financeiras, investimentos de fundos de previdência e relações com o poder público.

    As duas instituições também foram liquidadas após problemas relacionados à capacidade de honrar compromissos financeiros. As estratégias utilizadas para conquistar clientes, entretanto, eram diferentes.

    O Ueno apostou na abertura digital de contas, em descontos e na devolução de parte do valor das compras. Já o Banco Master atraiu investidores com Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que ofereciam remuneração muito acima da média do mercado.

    Recursos de fundos de previdência

    Outra semelhança entre os casos está no envolvimento de recursos vinculados a sistemas de previdência.

    No Paraguai, o Ueno administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pelo pagamento de aposentadorias, pensões e outros benefícios.

    No Brasil, regimes próprios de previdência de Estados e municípios investiram cerca de R$ 1,8 bilhão em títulos emitidos pelo Banco Master, segundo dados do Ministério da Previdência Social.

    Relações com o poder público no centro das investigações

    Os dois episódios também levantaram questionamentos sobre as conexões entre instituições financeiras e integrantes do poder público.

    No Paraguai, o Banco Central identificou empréstimos considerados excessivos a empresas ligadas ao grupo controlador do Ueno. Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador da instituição financeira, até março de 2025.

    Outro nome envolvido no contexto das relações entre o banco e o poder público é Carlos Carvallo Spalding, que presidiu o Banco Central paraguaio depois de ter comandado o Ueno.

    No Brasil, Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, construiu uma extensa rede de contatos com políticos, integrantes do governo e autoridades do Judiciário. Essas conexões passaram a ser examinadas no contexto das investigações sobre a instituição.

    A tentativa de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB), instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal, também foi barrada pelo Banco Central em 2025, em meio a questionamentos sobre a operação.

    A existência de contatos entre empresários e autoridades, por si só, não significa que os agentes públicos citados tenham cometido irregularidades.

    Prisões de dirigentes do Master e do Ueno

    As crises também tiveram desdobramentos na esfera criminal, com a prisão de dirigentes e pessoas ligadas ao controle das instituições.

    No Brasil, Daniel Vorcaro foi preso preventivamente em novembro de 2025. Após ser solto onze dias depois, voltou a ser detido em março de 2026, no âmbito das investigações sobre suspeitas de fraude financeira.

    No Paraguai, o juiz responsável pelo caso Ueno determinou nesta quinta-feira (5) a prisão preventiva de seis ex-dirigentes e executivos do banco. Entre eles estão Juan Manuel Gustale, ex-presidente da instituição, e Federico Miguel Vázquez Villasanti, fundador do Grupo Vázquez, controlador do banco.

    Outras duas ex-diretoras receberam prisão domiciliar. Os investigados respondem a acusações que incluem abuso de confiança, tentativa de fraude e conduta indevida em situação de crise. As acusações ainda serão examinadas pela Justiça.

    Qual a diferença entre o impacto das duas crises?

    Apesar das semelhanças, existe uma diferença importante na participação de cada instituição em seu respectivo sistema financeiro.

    O Ueno acumulava aproximadamente US$ 3,75 bilhões em ativos e concentrava cerca de 9,1% dos depósitos do sistema bancário paraguaio. O Banco Master, por sua vez, tinha R$ 86,8 bilhões em ativos, mas representava aproximadamente 0,55% das captações do sistema financeiro brasileiro.

    A diferença também aparece na quantidade de clientes e na dimensão dos impactos provocados pelo colapso. O Ueno chegou a quase 3 milhões de clientes em junho de 2026, o equivalente a aproximadamente 60% da população adulta do Paraguai.

    Com a decisão do Banco Central paraguaio de iniciar o processo de resolução da instituição, em 3 de novembro, os depósitos e as operações do banco foram congelados. Os clientes ficaram sem acesso às contas, aos cartões e ao dinheiro mantido na instituição.

    A medida provocou filas em agências e dificuldades para realizar pagamentos de despesas cotidianas, como aluguel, compras e transporte.