A Comunidade Islâmica da Bahia, com apoio da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e do Governo Federal, pleitearam as tratativas para devolução em Novembro de 2022. A entrega será em uma cerimônia na próxima quarta-feira (11), às 18h, na Reitoria da UFBA, em Salvador.
A quem pertencia este crânio?
A documentos indicam que o crânio pertence a um homem que viveu na Bahia em 1835, durante a Revolta dos Malês, e pesquisadores consideram plausível que os restos mortais pertençam a um rebelde malê, apesar disso, sua origem étnica ainda não está definitivamente estabelecida.
“Ainda não sabemos se são os restos mortais de um malê que lutou na Bahia no século 19. Mas o fato de esse corpo ter sido retirado daqui como artefato e ter parado em um laboratório de uma das maiores universidades do mundo já diz muito sobre essa história”, afirma a historiadora Wlamyra Albuquerque, professora e superintendente de relações internacionais da UFBA.
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O que foi a Revolta dos Malês?
A Revolta dos Malês foi nada menos que a maior rebelião de escravizados urbanos do Brasil, ocorrida em Salvador, em 1835, liderada por africanos muçulmanos que buscavam liberdade e autonomia religiosa.
A Bahia recebia muitos africanos pelo tráfico negreiro, principalmente das etnias nagô (iorubás) e haussá, que tinham histórico de envolvimento em guerras e resistência. A população muçulmana, conhecida como Malês, era alfabetizada em árabe e mantinha práticas religiosas próprias.
Como este crânio chegou até Harvard, do outro lado do continente?
O crânio foi enviado para os Estados Unidos em 1836, um ano depois da Revolta dos Malês. Naquele período, cientistas estavam utilizando para pesquisa e ensino, restos mortais de povos que eram considerados por eles inferiores.
O crânio foi redescoberto em 2022, quando a Universidade de Harvard começou a discutir sua coleção de restos humanos, que inclui ossadas de pessoas negras e indígenas. A primeira menção ao crânio apareceu apenas em junho daquele ano em um relatório interno no qual a universidade examinava sua participação histórica no colonialismo e escravidão.
Qual foi o desfecho?
Em Novembro de 2022, a Comunidade Islâmica da Bahia, a UFBA e o Governo Federal, solicitaram a devolução do crânio do suposto malê e de mais um outro fóssil brasileiro (que será entregue a Universidade Federal do Rio de Janeiro), e após 4 anos de negociações, essas peças da história brasileira vão retornar a sua terra de origem.
O xeque Abdullah Hamid Al-Bakr Ahmed, líder do Centro Cultural Islâmico da Bahia, assinou a primeira carta enviada a Universidade de Harvard reivindicando a devolução dos restos mortais. A Comunidade Islâmica da Bahia defende que os restos mortais sejam sepultados na Bahia, seguindo os preceitos islâmicos.
“Na religião islâmica, o corpo precisa ser enterrado. Mas, como não haverá o corpo inteiro, qualquer parte dele, seja um membro ou a cabeça, precisa ser enterrada no chão. Deus disse: ‘criamos vocês da terra e a ela vocês retornarão'”, afirmou o xeque Ahmed.
O xeque também diz que o retorno do crânio reforça a necessidade de instalação de um espaço para a realização de rituais fúnebres islâmicos, que atualmente não existe em Salvador.
Antes de ser sepultado, o crânio deve ficar por um breve período sob a guarda da UFBA. A ideia é que sejam realizados testes genéticos pelo Instituto de Biologia a partir de um dente molar para tentar identificar a origem geográfica e a ancestralidade do indivíduo.

