Publicado em 18/03/2026 às 17h06.

OPINIÃO: ‘Pôquer’ político redesenha cenário e acende disputa eleitoral na Bahia

A eleição de 2026 na Bahia tende a ser menos sobre ruptura e mais sobre rearranjo de forças

Neison Cerqueira
Montagem feita pelo bahia.ba. (Foto: Reprodução/Redes sociais | Matheus Souza/Divulgação

 

política baiana entrou definitivamente em modo pré-eleitoral – e, como de costume, os movimentos mais relevantes não acontecem nos palanques, mas nos bastidores. A filiação do senador Ângelo Coronel e de seus filhos – Ângelo Coronel Filho (deputado estadual) e Diego Coronel (deputado federal) – ao Republicanos, com alinhamento ao grupo de ACM Neto (União Brasil), é um desses movimentos que redesenham o tabuleiro antes mesmo da campanha começar.

Não se trata apenas de uma troca partidária. É, sobretudo, uma mudança de campo político com efeitos diretos na correlação de forças para 2026. A novidade, inclusive, foi celebrada por correligionários do pré-candidato ao Governo da Bahia.

prefeito de Salvador, Bruno Reis, destacou que a chegada do senador e de outros aliados fortalece a chapa da oposição. “Isso torna nossa chapa mais robusta, forte e competitiva, e o anúncio oficial será feito nos próximos dias”, disse o gestor em entrevista nesta terça-feira (17).

O vereador Claudio Tinoco também repercutiu o movimento, que deve se estender com a filiação do deputado federal Léo Prates, ex-PDT, ao Republicanos.

Um reforço estratégico para a oposição

A saída de Coronel da base governista não ocorreu por divergência ideológica, mas por exclusão prática: ele ficou fora da chapa majoritária liderada pelo grupo do PT. A formação de uma composição “puro-sangue”, com Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e Rui Costa, fechou as portas para aliados externos.

Nessa configuração, a migração para a oposição foi menos uma escolha e mais uma consequência. Para ACM Neto, o ganho é evidente, já que Coronel não é apenas um nome competitivo ao Senado.

O político carrega capilaridade no interior e estrutura política consolidada. O desembarque no Republicanos, partido já alinhado à oposição no estado, amplia a musculatura eleitoral e ajuda a preencher uma lacuna histórica do grupo: a dificuldade de avançar fora dos grandes centros urbanos.

Mais do que isso, o movimento sinaliza algo maior: a oposição começa a deixar de ser um bloco restrito ao União Brasil e passa a se tornar uma frente mais ampla.

A base de Jerônimo Rodrigues: abalo ou cálculo frio?

À primeira vista, a saída de um senador da base pode parecer um enfraquecimento. Mas, no caso do grupo governista, a reação tende a ser mais pragmática do que dramática.

Isso porque o núcleo duro do poder na Bahia – PT e aliados históricos – permanece intacto. Caberá ao partido concentrar forças em uma chapa forte, com nomes já testados eleitoralmente e com alto grau de fidelidade política.

Nos bastidores, há uma leitura de que Coronel já vinha desalinhado e que sua permanência poderia gerar mais ruído do que estabilidade. Ou seja, sua saída, embora relevante, também “organiza a casa”.

Além disso, o grupo governista ainda aposta no peso da máquina estadual, na popularidade acumulada de seus principais líderes e na forte presença territorial construída ao longo de décadas. Portanto, o cenário não é de fragilidade imediata – mas de alerta.

A oposição está mais competitiva do que esteve em 2022. Essa evidência pôde ser identificada na pesquisa eleitoral divulgada no último dia 12 de março pelo instituto Real Time Big Data. A gestão de Jerônimo é reprovada por 50% dos entrevistados, enquanto 47% aprovam seu governo.

O fator bolsonarista e o encontro com Flávio Bolsonaro

Outro ponto que chama atenção é a recente aproximação de ACM Neto com o campo bolsonarista, simbolizada pelo diálogo com Flávio Bolsonaro (PL). O momento foi registrado e divulgado recentemente pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.

Apesar de até o momento não ter tido um acordo formal declarado, esse movimento político expõe que encontros desse tipo dificilmente são protocolares. Fato é que o encontro e a aproximação indicam convergência de interesses – ainda que não consolidem, por si só, uma aliança fechada.

Na prática, o que está em jogo é a tentativa de unificar ou, ao menos, evitar a fragmentação da direita na Bahia. A presença de João Roma, ligado diretamente ao bolsonarismo, já coloca esse campo dentro da equação oposicionista.

Se ACM Neto conseguir harmonizar essas forças, pode ampliar significativamente seu eleitorado. Por outro lado, o risco é afastar eleitores moderados — um equilíbrio delicado que será decisivo.

O novo desenho da disputa

O que se desenha na Bahia não é apenas mais uma eleição polarizada. É uma disputa com novos ingredientes:

  • Uma base governista coesa, porém mais fechada;
  • Uma oposição em processo de ampliação e recomposição;
  • E um campo conservador tentando se organizar sem se dividir.

A entrada de Coronel nesse jogo adiciona imprevisibilidade – e competitividade. A disputa eleitoral pelo Palácio de Ondina pode ser lida como uma mesa de pôquer – não um jogo de cartas, mas de leitura, risco e estratégia.

Nesse cenário, a eleição de 2026 não será vencida apenas por quem começa com a melhor mão, mas por quem souber jogar melhor cada rodada.

Em um ambiente de rearranjo – e não de ruptura -, leva vantagem quem amplia sua maioria ao longo do jogo, calcula riscos com precisão e sabe a hora certa de apostar alto… ou blefar.

Neison Cerqueira
Jornalista, com atuação na área de política e apaixonado por futebol. Foi coordenador de conteúdo do site Radar da Bahia, repórter do portal Primeiro Segundo e colunista em ambos os veículos. Atuou como repórter na Superintendência de Comunicação da Prefeitura Municipal de Lauro de Freitas e, atualmente, cobre política no portal bahia.ba.

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