Liliana Peixinho é jornalista, ativista social, integrante de diversos grupos de luta e defesa de direitos humanos. Fundadora e coordenadora de mídias livres como: Reaja – Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente, Mídia Orgânica, O Outro no Eu, Catadora de Sonhos, Movimento AMA – Amigos do Meio Ambiente, RAMA -Rede de Articulação e Mobilização em Comunicação.
Publicado em 17/07/2016 às 07h00.
Ruído e surdez
Precisamos reapreender a ouvir de forma que coração, alma e espírito possam estar conectados em amor e respeito
Liliana Peixinho

Não bastasse o ruido entre o que se fala, de um lado, e o que se quer entender, do outro, o volume das falas, dos sons, das emissões sonoras, anda muito acima dos decibéis permitidos em lei. A surdez é causa séria, mas relegada. O faz de conta que ouve e entende é criminoso e alimenta o cinismo, a mentira. As pessoas não conversam, elas disputam espaço, tempo e ângulos para aguçar egos rasos no sentir o outro, em praticar o respeito, em civilizar o diálogo, no ouvir e falar. As consequências desses ruídos na comunicação são guerras de relações: entre marido e mulher, mãe e filho, tios e sobrinhos, netos e avós, colegas de trabalho e chefe, paciente e médico, cliente e fornecedor. O ruído é geral e ensurdecedor da razão.
Em meio a crises de desemprego, desarmonias familiares, relações de faz de conta, fanatismos religiosos e tantos outros ruídos sociais, o ser humano se mostra fragilizado, inseguro, infeliz, doente mesmo, em agonia social. Seja no ambiente de trabalho, nas relações pessoais, sociais, e familiares, os interesses de cada um dão lugar aos interesses coletivos. Como o respeito ao outro é base para a aplicação da ética e as pessoas estão, cada dia mais, preocupadas consigo mesmas, em defender os seus interesses, os conflitos daí decorrentes têm gerado crises sociais inconsoláveis.
Se a comunicação tem papel de agregar, unir, facilitar, difundir informações em nome da preservação da vida, por outro lado, observamos efeitos contrários, com ruídos desagregadores do bem viver. Num dos meios mais massivos, a televisão, por exemplo, é alarmante a quantidade de filmes, programas, notícias que não têm compromisso com a formação da cidadania plena, direcionada à formação do ser humano como sujeito de direitos e deveres, em construção coletiva. E o volume da TV, em casa, impede qualquer conversa. Em setores corporativos, funcionários brigam entre si, competindo, desconsiderando valores que não seja o capital. Na política, parlamentares e seus seguidores se massacram uns aos outros, na guerra de interesses específicos, imediatos, descomprometidos com a construção coletiva.
Ser político virou sinônimo de saber driblar, enganar, enrolar, protelar demandas legais. Entre amigos, colegas de escola, vizinhos, afeto e respeito são raros. Em tempos não muito distantes, brincava-se, conversava-se, contava-se histórias ricas para o aprendizado da vida, construindo-se emoções, relações de harmonia. A realidade atual mostra discórdia, intolerância, discussões, brigas e defesa de interesses próprios. A crise doméstica, com pais separados de forma desarmoniosa, faz surgir pessoas com problemas emocionais/psicológicos descompensados, graves, dissolvendo, ainda mais, laços afetivos importantes.
O faz de conta que ouve e entende é criminoso. Alimenta o cinismo e a mentira
O que fazer? Como recomeçar o resgate do equilíbrio, do respeito ao outro? O desafio está em pauta junto às novas gerações, aos filhos de um mundo carregado de injustiça, sedento de solidariedade e carente de vontade em querer saber, pesquisar. Um mundo sedento em querer entender e fazer, construir, ambientes com histórias de dignidade, bravura e orgulho de sermos gente, que pensa, sente e vê o outro como aliado e não como inimigo. Precisamos reapreender a ouvir de forma que coração, alma e espírito possam estar conectados ao outro, em amor e respeito.
Enquanto reaprendemos a ouvir o outro e para que o discurso se alie à prática, transcrevo abaixo o texto de uma petição pública para o combate à poluição sonora. Confira:
“Por que isto é importante
Salvador é uma das cidades com mais graves índices de poluição sonora do Brasil, onde os cidadãos sofrem tanto em vias públicas como em seus lares as consequências da má gestão ambiental e urbana dos ruídos produzidos no município, de lei inadequada para garantir o conforto e sossego das pessoas que vivem nela, e das deficiências na ordenação das atividades de uso do solo licenciadas pelas próprias instituições de gestão municipal, onde se faz o que se quer do jeito que se quer sem levar em conta o prejuízo aos próximos.
Atualmente passando por um processo de revisão das leis municipais, a cidade tem a expectativa e a promessa de uma melhoria da qualidade de vida, na qualidade ambiental e no conforto para seus moradores.
Entretanto, todas as evidências indicam que, nas condições legais, normativas e administrativas atuais, com o estímulo da integração entre residência e atividades não residenciais sem estratégias e ações que visem preservar e proteger os lares dos cidadãos, e que ordenem o uso do solo e das atividades realizadas no município com base na qualidade e conforto ambiental urbanos, a vida em Salvador se tornará insuportável, e as pessoas reféns, em suas próprias casas, da poluição sonora. A percepção por parte da população é que existe um descaso e uma resistência da administração para tratar desse assunto com a profundidade que ele merece e que a sociedade demanda.
Por essas razões, com o objetivo de começar uma ação efetiva, os cidadãos de Salvador, conforme assinado abaixo, solicitam por parte da administração municipal a realização de três audiências públicas especificamente sobre o assunto Poluição Sonora em Salvador. ”
Liliana Peixinho é jornalista, ativista, autora de “Por um Brasil Limpo”. Fundadora da Rede Ativista de Jornalismo e Ambiente (Reaja), do Movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA) Mídia Orgânica e outras mídias alternativas. Especializada em Jornalismo Científico e Tecnológico. Vencedora do Prêmio Shift – Agentes Transformadores – 2015.
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