Nova espécie de cacto é descoberta na caatinga baiana

    Após 100 anos sem a descoberta de novas espécies do gênero Quiabentia, a Pelo de Serra foi encontrada entre os municípios de Jussara, Central e Itaguaçu

    Quiabentia pelodeserra foi descoberta por professor da Univasf (Foto: José Alves Siqueira/Univasf)

    Uma nova espécie de cacto foi descoberta na caatinga baiana após mais de um século sem novos registros desse gênero de plantas. A espécie foi encontrada pelo botânico José Alves Siqueira, professor do Colegiado de Ciências Biológicas da UNIVASF (Universidade Federal do Vale do São Francisco).

    Segundo informações da universidade, essa é a terceira espécie do gênero Quiabentia a ser encontrada durante o longo período sem novos registros. Planta foi encontrada em um afloramento de calcário, numa área de caatinga na divisa entre os municípios de Jussara, Central e Itaguaçu, no centro-norte do estado da Bahia.

    A descoberta ocorreu em 2025, durante o pós-doutorado de Siqueira. O professor realizou expedições e fotografou plantas em diversas paisagens da Caatinga para a elaboração do livro “Guia das Plantas da Caatinga” que será publicado em breve, em parceria com o professor Vinicius Castro Souza, da Esalq/USP. O docente afirmou que nunca havia visto a espécie nos livros ou nas pesquisas feitas no sertão.

    “Tem gente que passa, vê, mas não percebe”, afirmou. O acesso ao local onde a espécie foi encontrada era difícil, devido à presença de rochas muito pontiagudas. “Nenhum pesquisador havia coletado plantas ali. Eu fui a primeira pessoa a percorrer esse sítio rupestre, como botânico”, contou Siqueira.

    A nova espécie foi registrada com a colaboração dos pesquisadores Daniela Zappi e Nigel Taylor, botânicos com reconhecimento internacional por estudos sobre a família Cactaceae, os cactos, e batizada de Quiabentia pelodaserra. O resultado desse trabalho gerou o artigo “An extraordinary third species of Quiabentia Britton & Rose (Cactaceae-Opuntioideae-Cylindropuntieae), from the Caatinga of Northeastern Brazil“, publicado na revista científica Bradleya, periódico anual da British Cactus and Succulent Society (BCSS).

    Flor do Pelo de Serra e pesquisadores José Alves Siqueira, Daniela Zappi e Nigel Taylor (Foto: José Alves Siqueira/UNIVASF)

    Moradores da região chamam planta de Pelo de Serra

    De acordo Siqueira, a espécie foi batizada com o nome que os moradores da região usam para se referir à planta: Pelo de Serra. Nome se deve aos espinhos finos que se prendem às roupas e à pele. Dessa forma, os pesquisadores preservam a expressão já utilizada pela comunidade e contribuem para a valorização do conhecimento local, explica a universidade.

    Apesar da descoberta recente, a Pelo de Serra já está classificada na categoria Criticamente em Perigo, que indica risco extremamente elevado de extinção na natureza. Até o momento, a planta foi descoberta em apenas uma localidade, com área de distribuição estimada em 72 km².

    O habitat sofre pressão da expansão agrícola e urbana, da mineração de calcário, da abertura de estradas e do sobrepastoreio por ovinos. A população identificada está separada por cerca de 300 quilômetros da ocorrência mais próxima da espécie Quiabentia zehntneri.

    Pelo de Serra tem características diferentes das outras espécies do gênero

    O cacto descoberto na Bahia possui caules finos, pequenas folhas, flores brancas e longas e seiva com odor acre. As flores da espécie se abrem ao anoitecer e possuem uma grande câmara de nectar.

    Segundo Siqueira, a Pelo de Serra tem características distintas das outras espécies do gênero Quiabentia – azehntneri, descrita em 1919, e Quiabentia verticillata, descrita em 1923.

    Ambas têm flores róseas, diurnas e são polinizadas por abelhas e beija-flores, no entanto, a nova espécie se diferencia principalmente na flor, fruto e semente.

    Os pesquisadores acreditam que a polinização da Pelo de Serra pode ser feita por meio de morcegos, devido às características das flores e ao comportamento floral. No entanto, ainda não há registros diretos de visitas dos mamíferos voadores. Se a hipótese for confirmada, a associação poderá representar o primeiro registro conhecido de polinização por morcegos em cactos do grupo dos opuntioides.

    Atualmente, Siqueira mantém duas amostras da Q. pelodaserra em cultivo no CRAD (Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas das Caatingas), da Univasf, no Campus Ciências Agrárias (CCA), em Petrolina (PE). O cultivo é uma estratégia que consiste na conservação fora do habitat natural das espécies, para futura reintrodução da natureza.

    Pesquisador defende continuidade da investigação

    José Alves Siqueira defendeu que, para dar continuidade à pesquisa, é essencial identificar os polinizadores da Pelo de Serra e desenvolver mecanismos para sua conservação “O grande desafio agora é como conservar esse tesouro da Caatinga”, afirma. Segundo Siqueira, será necessário estabelecer estratégias de conservação em parceria com o poder público e com o envolvimento das comunidades locais.

    O docente destaca também que a descoberta, feita durante  de que se tratava de uma nova espécie e a sua descrição só foram possíveis graças à colaboração entre pesquisadores. “A ciência é feita de forma coletiva”, afirma Siqueira. Para ele, o avanço da ciência depende da construção de redes de colaboração e da troca de conhecimentos entre cientistas.