Publicado em 02/08/2019 às 12h20.

Professora que não assumiu reitoria da UFRB questiona decisão do MEC: ‘Misoginia?’

Georgina Gonçalves dos Santos afirmou ainda que ela e toda a comunidade da universidade apoiam o novo reitor, Fábio Josué Santos

Milena Teixeira
Foto: Reprodução
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Primeiro nome da lista tríplice para a assumir a reitoria da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a professora Georgina Gonçalves dos Santos questionou a decisão do presidente Jair Bolsonaro, que indicou o seu então colega, Fábio Josué Santos, para o cargo.

Santos foi o terceiro nome dado para o Ministério da Educação em março e sua indicação foi confirmada em edição extra do Diário Oficial da União (DOU) da quinta-feira (1º).

“Entretanto, pela gravidade da decisão adotada pelo MEC não podemos minimizar o que ocorreu. A pergunta é: por que não foi respeitado o desejo da comunidade da UFRB? Por que o governo brasileiro interferiu na normalidade institucional nomeando o terceiro indicado? Não podemos ser ligeiros ou precipitados nessa análise mas sim, investirmos todo nosso esforço de compreensão para entender o que aconteceu. Racismo? Homofobia? Misoginia? Nenhuma ingenuidade nos será perdoada”, afirmou Georgina, em carta aberta à instituição, na quinta.

Ao bahia.ba, a docente afirmou que ela e toda a comunidade da UFRB apoiam o novo reitor .

“Estamos reunidos em torno do professor Fábio. Estamos à disposição e disponível em torno do professor. Como professora, o que eu posso dizer que a gente continua na defesa de uma educação superior de qualidade”, declarou a docente.

Entenda o caso

Georgina foi a mais votada para comandar a UFRB entre 2019 e 2023 –tanto na consulta acadêmica feita aos alunos, quanto na votação do Conselho Universitário para a lista tríplice. No entanto, o presidente Jair Bolsonaro escolheu o terceiro lugar da lista, professor Fábio.

O Decreto nº 1.916, de 23 de maio de 1996, prevê que o presidente pode nomear qualquer um dos três nomes apresentados, sem apresentar justificativa para o nome escolhido.

Na terça, o Conselho Universitário da UFRB enviou uma “moção de preocupação” ao Ministério da Educação, pedindo a composição da reitoria para que os cargos não ficassem vazios. No documento, o conselho disse apoiar a nomeação de Georgina Gonçalves dos Santos como nova reitora.

Veja a carta aberta de Georgina na íntegra

Na segunda-feira, dia 29 de julho, o ex-Reitor de nossa universidade, Prof. Sílvio Soglia e nosso Procurador da República, estiveram em Brasília numa última tentativa de obter do MEC uma definição sobre o processo sucessório de nossa instituição. O resultado desse encontro, entretanto, não foi frutífero. Depois de obter, inúmeras vezes, da justiça, pareceres de que nada havia de ilegal no investimento da lista tríplice enviada há cem dias ao ministério, fomos informados hoje, pelo portal G1.globo.com, que se antecipou ao Diário Oficial da União, que minha nomeação não foi confirmada. Apesar do Conselho Universitário da UFRB ter sido desrespeitado em sua decisão soberana, na minha opinião, devemos nos reunir em torno do nome do Prof. Fábio Josué dos Santos, atual diretor do Centro de Formação de Professores, campus de Amargosa, que, por fazer parte da referida lista, está unificado com o que defendo para a condução dos destinos de nossa universidade.

Entretanto, pela gravidade da decisão adotada pelo MEC não podemos minimizar o que ocorreu. A pergunta é: por que não foi respeitado o desejo da comunidade da UFRB? Por que o governo brasileiro interferiu na normalidade institucional nomeando o terceiro indicado? Não podemos ser ligeiros ou precipitados nessa análise mas sim, investirmos todo nosso esforço de compreensão para entender o que aconteceu. Racismo? Homofobia? Misoginia? Nenhuma ingenuidade nos será perdoada.

Desde o incêndio da biblioteca de Alexandria, passando pelas agruras da Inquisição, sabemos como instituições e pessoas ligadas à produção livre de conhecimento e portadoras da novidade estão posicionados na mira da violência política e do conservadorismo. A universidade brasileira que, apenas se equilibrava vivendo uma onda de incentivos e animada por novas ideias, não seria a exceção histórica. Entretanto, há uma peculiaridade, no contexto atual, que nos toca de perto: a UFRB é a maior universidade com contingente de professores, servidores e estudantes negros do país e que acolhe uma maioria de jovens oriundos das classe D e E, sendo resultado da política de expansão e interiorização do ensino superior dos anos 2000. Já estamos sofrendo o regime de “pão e água” mesmo antes da destituição da primeira presidenta do Brasil. O que veio em seguida apenas confirmou uma política de desinvestimento no ensino superior e, na educação em geral. Não podemos esquecer do abandono das metas do PNE e, do ponto de vista ideológico, o debate sobre o projeto Escola sem Partido que empobrece e macula os princípios fundamentais da educação cidadã preconizada pelos grandes nomes da educação brasileira como Anísio Teixeira e Paulo Freire.

De posse dessa notícia que, abre um perigoso precedente na vida democrática, não apenas das universidades públicas, mas das instituições de modo geral, e que fere de morte nossa autonomia construída com muito esforço, ao longo da curta história do ensino superior brasileiro, é que me dirijo aos diferentes segmentos de nossa sociedade, para agradecer a confiança depositada em mim, para dar continuidade ao projeto acadêmico, pedagógico, científico, cultural e político da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

Inicialmente, dirijo-me aos colegas que compartilharam comigo essa gestão que se encerra. Ao Prof. Sílvio Soglia e a toda sua equipe só posso agradecer o labor diário e a consistência nas ações em prol dessa universidade cuja vocação sempre foi a de incluir e trabalhar para o desenvolvimento dessa região historicamente legada ao abandono e à exclusão. Com eles, muito aprendi e, se me senti segura para enfrentar as tarefas relacionadas à gestão pública, devo lhes atribuir todos os créditos. Ainda mais nesses tempos de contingenciamento financeiro que ameaçam a consecução de todas as missões das universidades públicas.

Ao Conselho Universitário da UFRB agradeço a firmeza, a solidez e a unidade, qualidades sem as quais não teríamos ido muito longe. Ao longo desses anos em que, como Diretora do CAHL e Vice-Reitora dele participei, esse órgão, coração da vida acadêmica, fez prova de lisura e competência, regulamentando políticas e tomando as medidas necessárias em torno da defesa do projeto da nossa universidade. O debate, a crítica, a divergência jamais foram entraves ao pleno desenvolvimento da instituição, ao contrário, foram a base para a tomada de importantes decisões que importavam à nossa comunidade, como é previsto em ambientes onde reina a democracia.

Agradeço, igualmente, o empenho dos territórios do Recôncavo, do Vale do Jequiriçá e do Portal do Sertão que receberam com entusiasmo essa universidade na esperança de dias melhores para nossas futuras gerações. Sem seu apoio, o nosso caminho teria sido ainda muito mais áspero.

Por fim, volto-me para meus colegas servidores técnicos e docentes. Desde sua criação, a UFRB atraiu uma gama de competências que, sem dúvida, fizeram e fazem de nós uma instituição respeitada, do alto dos seus poucos anos de existência. Muitos se foram, convidados por instituições confirmadas, tentar seus destinos talvez por ainda não acreditarem na força transformadora de uma jovem instituição. Mas soubemos absorver essas perdas e continuar apostando no futuro. Muita qualidade foi reunida em nossa instituição e é sobre ela que se apoia nosso otimismo. Agradeço por toda solidariedade nesses anos de convívio.

E, é para os nossos estudantes que me dirijo finalmente, porque são eles o motivo maior de nossa existência. Formar as novas gerações que irão participar do cotidiano das pessoas comuns e das mudanças grandes e pequenas que entendemos necessárias para que o bem estar, a alegria e a vida sejam celebradas.

Volto a ser uma professora/pesquisadora do meu Centro, com muito orgulho porque, foi para essa função que fui aprovada em concurso por meus pares.

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