Doença que matou Netinho pode voltar após tratamento? Médicos explicam

    Especialistas detalham como o linfoma não Hodgkin age e por que alguns casos apresentam recidiva

    Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

    A morte de Netinho, aos 60 anos, nesta terça-feira (13), chamou atenção também para a doença enfrentada pelo cantor nos últimos meses. O artista tratava um linfoma não Hodgkin, tipo de câncer que atinge o sistema linfático e pode apresentar comportamentos bastante diferentes de um paciente para outro.

    No caso do baiano, a doença havia sido diagnosticada anteriormente e voltou após o tratamento. A recidiva acabou despertando dúvidas entre fãs sobre como um câncer pode reaparecer mesmo depois de uma resposta inicial positiva.

    Ao bahia.ba, o oncologista Dr. Iran Costa, do Florence Hospital de Transição, explicou que o linfoma não Hodgkin, na verdade, não corresponde a uma única doença.

    “O linfoma não Hodgkin é um grupo de cânceres que se desenvolvem no sistema linfático, responsável por parte importante da defesa do organismo”, explicou.

    Segundo o médico, o problema começa quando determinados glóbulos brancos, os linfócitos, passam a se multiplicar de maneira descontrolada. Essas células podem se concentrar nos gânglios linfáticos e atingir outros órgãos.

    “Existem vários subtipos de linfomas não Hodgkin, com comportamentos bastante diferentes. Alguns crescem lentamente, enquanto outros apresentam evolução rápida e exigem tratamento imediato”, acrescentou.

    Por que o linfoma pode voltar depois do tratamento?

    Dr. Iran explica que mesmo quando o tratamento provoca uma resposta completa, pequenas quantidades de células malignas podem permanecer no organismo sem serem detectadas pelos exames.

    “Com o passar do tempo, essas células podem voltar a se multiplicar”, afirmou.

    Esse retorno da doença é chamado de recidiva. No entanto, o oncologista ressalta que isso não significa automaticamente que o paciente perdeu todas as possibilidades de tratamento ou de cura. “A gravidade depende de vários fatores, principalmente do tipo de linfoma, do tempo transcorrido desde o primeiro tratamento e das condições clínicas do paciente”, disse.

    O hematologista Dr. Tiago Barros, do Grupo Fleury, também destaca que os linfomas não Hodgkin podem apresentar comportamentos bastante distintos.

    Segundo ele, existem dezenas de subtipos, que podem surgir a partir de células B ou T e apresentar evolução indolente ou agressiva.

    “De uma forma geral, os linfomas agressivos têm uma rápida instalação e uma chance de cura razoável. Já os linfomas indolentes tendem a ter um curso mais lento e progressivo, com remissões e recaídas mais frequentes”, explicou.

    Ínguas, suor noturno e perda de peso podem ser sinais

    Um dos sintomas mais conhecidos é o aparecimento de ínguas persistentes, principalmente no pescoço, axilas ou virilha. Esses caroços nada mais são do que os linfonodos, pequenos nódulos que funcionam como defensores do organismo e costumam inchar temporariamente durante um resfriado ou infecção comum. O problema é quando eles não somem após duas ou três semanas.

    Dr. Iran explica que, nesses casos suspeitos, esses gânglios geralmente não provocam dor, parecem mais endurecidos e não se movem facilmente ao toque. Além disso, febre sem causa aparente, suor noturno intenso, perda de peso involuntária, cansaço e coceira persistente também podem aparecer, reforçando a necessidade de uma avaliação médica para entender o que está acontecendo

    Tiago Barros acrescenta que anemia, alterações nas plaquetas e aumento do baço ou fígado também podem estar relacionados à doença em determinados casos. Os especialistas fazem uma ressalva importante: esses sintomas também podem ocorrer em condições benignas. Por isso, apenas uma avaliação médica e exames específicos podem determinar a causa.

    O diagnóstico definitivo do linfoma costuma envolver uma biópsia, responsável por identificar qual subtipo está presente.

    Linfoma não Hodgkin tem cura?

    Apesar de a doença ter provocado a morte de Netinho, os especialistas reforçam que o diagnóstico não representa necessariamente um prognóstico ruim. “Linfoma não Hodgkin não representa uma doença única e muitos pacientes podem ser curados”, explicou Iran Costa.

    Hoje, o tratamento pode envolver quimioterapia, imunoterapia, anticorpos monoclonais, transplante de células-tronco e terapias mais recentes, como as células CAR-T.

    Tiago Barros reforça que o estado geral do paciente também interfere na resposta ao tratamento. “Um paciente saudável, que faça atividade física, não tenha comorbidades descontroladas e seja jovem tolera muito melhor a terapia proposta”, explicou.

    Nos casos mais avançados, o linfoma pode provocar complicações em diferentes órgãos. Segundo os médicos, quadros graves podem evoluir para infecções, sangramentos, anemia e, em uma parcela dos pacientes, disfunção de múltiplos órgãos.

    Ainda assim, para Tiago, a principal mensagem é evitar generalizações.

    “Não há um único tipo de linfoma não Hodgkin, logo nem todos vão ter o mesmo comportamento, a mesma agressividade e a mesma taxa de cura”, resumiu.