
O cantor e vocalista da icônica banda pernambucana Nação Zumbi, Jorge Du Peixe, desembarcou no Carnaval do Largo do Pelourinho, neste sábado (14), em meio ao ano de homenagens às três décadas do lançamento do disco Afrociberdelia, feito em parceria com o saudoso Chico Science.
O antigo líder da Nação, que, junto com a banda, foi um dos grandes responsáveis pelo surgimento do movimento musical manguebeat em Pernambuco, nos anos 90, e que nos deixou precocemente em 1997, gravou somente dois álbuns. O primeiro, o incontornável Da Lama ao Caos, de 1994, e o segundo, o clássico moderno Afrociberdelia, de 1996.
Para Jorge, que estreou o show em homenagem à efeméride em São Paulo, em janeiro, urge a necessidade de trazer a apresentação a Salvador.
“A gente acabou de fazer em São Paulo, no Teatro Municipal, com a Orquestra Experimental de Repertório, uma jovem orquestra, sob a regência do maestro Wagner Polistchuk. Os arranjos foram feitos por um pernambucano, Matheus Alves, que trabalha diretamente com Kleber Mendonça Filho, que está concorrendo ao Oscar, por sinal, este ano”, contou.
O show realizado pela banda no Centro Histórico de Salvador neste sábado ainda não foi a homenagem oficial ao disco, mas, por sua vez, o público baiano pôde conferir algumas palhinhas.
“Estamos trazendo mais uma vez aqui um show de carreira. A gente espera poder trazer esse show para a Bahia também, em breve, com ou sem a orquestra. Passamos por aqui com o show de ‘Da Lama ao Caos – 30 anos’, há dois anos, e a ideia é trazer o quanto antes para cá o show de ‘Afrociberdelia’”, acrescentou.
Questionado sobre o que se mantém essencial artisticamente para a banda após três décadas, olhando pela ótica do próprio disco referido, disse que o maior mote da Nação Zumbi é não se repetir.
“Então a gente está nesse corredor sonoro, a cada disco trazendo um frescor, trazendo algo diferente para apresentar”, respondeu.

Intercâmbio cultural
A trajetória da banda ultrapassou Pernambuco e passou a dialogar com diversos movimentos musicais pelo país.
Em Salvador, por exemplo, grupos como o BaianaSystem reconhecem essa influência na construção de uma identidade sonora própria. A relação com a Bahia e com o Nordeste como um todo permanece forte ao longo dos anos.
Nesse intercâmbio, a música baiana também devolve referências importantes ao grupo, seja na troca estética, nas influências rítmicas ou na inspiração criativa que atravessa gerações.
“A Tropicália foi um grito, um dos primeiros, pós ou quase próximo da bossa nova. A gente é pós-Tropicália. A Tropicália tem uma importância muito grande. Você vê baianos se juntando aos Mutantes, você vê Tom Zé saindo de Irará e conquistando o mundo também”, relembra Jorge.
“Cara, os clássicos. Para mim, eu sou um pesquisador da música brasileira dos anos 70. Então eu escuto até hoje tudo isso. Escutar um disco de Bethânia, escutar um disco de Caetano, ouvir os primeiros discos de Tom Zé é uma aula. Os arranjos, as letras… É impossível não trazer algo daquele sentido hoje em dia”, expressou.
Para o vocalista e toda a banda, todas essas referências foram absorvidas desde cedo.
“Não tem como negar esse tipo de coisa. Afinal de contas, há quantos anos essa troca cultural entre Pernambuco e Bahia existe? Há muito tempo. Há muito tempo”, concluiu Jorge Du Peixe.

