Prévia de inflação pior que a esperada reforça projeção de Selic alta por mais tempo

    Variação de serviços subjacentes, como seguros de automóveis, foi maior que esperada, assim como alta das passagens aéreas

    Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

    O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) de julho acima do esperado pelo mercado, embora motivado por itens considerados voláteis, reforça as projeções de que o Banco Central (BC) deverá manter a taxa Selic no atual patamar restritivo de 10,5% por um período prolongado, dizem economistas. Mas ao menos por enquanto os especialistas não acreditam em risco real de o BC ser obrigado a discutir uma alta dos juros, de acordo com informações do portal InfoMoney.

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    Além do indicador cheio de 0,30% em julho ter superado a mediana de 0,23% calculada pelo mercado, Mirella Hirakawa, coordenadora de pesquisa da Buysidebrazil, comenta que a composição também veio pior que a estimada, principalmente quando observadas as medidas de serviços subjacentes e a média dos núcleos.

    Ela cita que, na medida subjacente de serviços, a surpresa de alta foi de 5 pontos-base, com uma variação de 0,58% ante expectativa de 0,35%. A leitura que exclui a alimentação fora do domicílio foi ainda mais surpreendente, com alta estimativa de 0,36% e índice anunciado de 0,70%.

    Ao mesmo tempo, na média dos núcleos, era esperada uma variação de 0,24% e veio 0,34%, com a pressão de itens voláteis, como passagens aéreas (+19,2% ante projeção de +8%).

    “Gasolina também teve surpresa relevante, lembrando que teve reajuste da Petrobras impactando os números e possivelmente com repasse mais rápido do que as nossas projeções”, disse Mirella, que cita ainda os primeiros impactos da bandeira tarifária no patamar amarelo em julho.

    Embora o comportamento dos preços não deva mudar a decisão do Copom na semana que vem, a economista acredita que o BC deva comentar a composição pior da inflação em julho. Ela lembra que, no Relatório Trimestral de Inflação divulgado em junho, a projeção para o IPCA fechado de julho era de 0,12%. “A gente não sabe ainda o IPCA de julho, mas só essa divulgação do IPCA-15 já atribui um viés altista”, ressaltou.

     

    Selic alta por mais tempo

    Tatiana Pinheiro, economista-chefe de Brasil da Galapagos Capital, por sua vez, avalia que a surpresa de alta do IPCA-15 foi devida à deflação em alimentos menor que as pesquisas indicavam e aos serviços, especialmente pelas variações passagens aéreas e dos serviços bancários.

    Ela pondera que a inflação de serviços intensivos em mão-de-obra ficou estável, mas em patamar ainda elevado, de 5,72% anualizados.

    “Como resultado da pior composição da inflação, a média dos núcleos subiu para 0,34% no mês e 4,16% anualizados. Esse número reforça a estratégia de taxa de juros alta por mais tempo do BC. A decisão de política monetária na próxima quarta deve manter a Selic em 10,5%”, pontuou.

    Leonardo Costa, economista do ASA, também comenta que o qualitativo do indicador veio bem pior que o esperado, especialmente em serviços, indicando a dificuldade da desaceleração dos núcleos de inflação.

    O ASA reviu sua estimativa para o IPCA de julho de 0,26% para 0,37% e avisa que a inflação fechada de 2024 e de 2025, hoje estimada em 4%, também está com viés de alta.

    A partir dos dados divulgados hoje, Igor Cadilhac, economista do PicPay, diz que será difícil para o Banco Central adotar na semana que vem um tom moderado, diante da recente piora inflacionária e das incertezas em relação às expectativas futuras.

    No entanto, ele disse que está mantendo sua projeção de 4,3% para o IPCA em 2024. Entre os riscos de alta, ele lista a maior resiliência na inflação de serviços em função de um hiato do produto mais apertado, a desvalorização cambial e desancoragem das expectativas em um contexto de percepção de risco fiscal.