‘A Cidade Onde Envelheço’ é uma homenagem sensível ao presente

    O espaço da capital mineira é explorado de uma maneira quase imperceptível. É intrínseco à vida das protagonistas

    Foto: Divulgação

    A cidade onde envelheço

     

    “A Cidade Onde Envelheço”, de Marília Rocha, exibido neste sábado (12), no festival Panorama Internacional Coisa de Cinema, teve sua estreia durante o International Film Festival of Rotterdam (IFFR), na Holanda, em fevereiro. Nesse meio tempo, conquistou nada mais nada menos que quatro estatuetas no Festival de Brasília – incluindo a de Melhor Filme. Pela primeira vez na Bahia, o público pode entender – e concordar -, com todas as condolências que o longa tem recebido.

    Logo de início, somos apresentados à Teresa, interpretada pela estonteante Elizabete Francisca Santos – com um rosto que mistura Penélope Cruz e Carol Castro -, uma jovem portuguesa que decide deixar o país para morar no Brasil. Em terras tupiniquins, a moça procura Francisca (Francisca Manuel, inspiradíssima), uma amiga também de Portugal que, há quase um ano, mora em Belo Horizonte. Desde o primeiro encontro da dupla, o antagonismo entre duas se faz presente: a primeira, descontraída e espevitada é recebida pela segunda, que fica claramente receosa sobre a adaptação de uma visita em casa e pouco revela sobre sua vida na nova cidade.

    A diretora consegue explorar essa discrepância de maneira muito delicada, como na cena em que Teresa se vê sozinha em casa pela primeira vez, e dança de maneira libertadora. Francisca aparece dançando algumas cenas à frente, de maneira tímida e durona. A motivação para a amizade entre as mulheres fica pouco clara, já que a única coisa que sabemos sobre o passado das duas está contida em apenas uma foto que aparece de relance em um único plano. A verdade é que assim como a maioria dos laços que são criados durante a vida, este não carece de explicação. Apenas acontece – e da maneira mais natural possível. O único ponto em que Francisca e Teresa concordam é na saudade lusitana.

    Naturalidade é a palavra que define com exatidão todo o filme “A Cidade Onde Envelheço”. Não há, em toda a película, um momento sequer onde os diálogos não soem como improviso. Destaque para os que se referem à estranheza das estrangeiras aos hábitos brasileiros de pedir um trago do cigarro alheio ou o desleixo no acabamento dos azulejos dos banheiros. Há estranheza, mas não há chacota ou desrespeito, só constatação: “A mente apavora o que ainda não é mesmo velho”.

    O espaço da capital mineira é explorado de uma maneira quase imperceptível. É intrínseco à vida das protagonistas, como quando Teresa corre pela rua, quando um casal do filme observa o pôr-do-sol em uma parte mais alta de BH ou quando as duas passam a tarde em um parque, conversando sobre a saudade que têm do mar de Portugal.

    Sensível, humano e real, o filme de Marília Rocha é uma homenagem ao presente, cuja premissa simplória consegue falar mais alto do que roteiros mirabolantes e tentativas de filme-arte.