Camus adorou Caymmi: ‘As canções mais tristes e mais comoventes’

    O filósofo francês registrou em seu "Diário de Viagem" sua impressão sobre o samba, sobre o Brasil e ainda falou de programas frustrados

    Fotos: Reprodução/ Arquivo pessoal

    O músico Rodrigo Campos foi buscar no livro “O Mito de Sísifo”, do escritor e filósofo francês/argelino Albert Camus, a inspiração para o show “Sambas do Absurdo”, que apresenta ao lado de Juçara Marçal e Gui Amabis. Mas a ligação de Camus, que já tinha inspirado Caetano Veloso no disco “Estrangeiro” (1989), com o samba vai além do que se supõe. Em visita ao Brasil em 1949, ele travou contato com o ritmo. E fez questão de registrar o impacto que o estilo exerceu sobre sua alma, citando inclusive o nome de um grande sambista: o baiano Dorival Caymmi – ou “Kaïmi”, como grafou.

    “Depois do jantar, Kaïmi, um negro que compõe e escreve todos os sambas que o país canta, vem cantar com o seu violão. São as canções mais tristes e mais comoventes. O mar e o amor, a saudade da Bahia. Pouco a pouco, todos cantam e vê-se um negro, um deputado, um professor da Faculdade e um tabelião cantarem esses sambas em coro, com uma graça muito natural. Totalmente seduzido”, escreveu Albert Camus no livro “Diário de Viagem”, em que narra sua passagem pela América do Norte, em 1946, e pela América do Sul, em 49, quando ficou cerca de dois meses no Brasil.

    Deu tempo até de se decepcionar com a visita à gafieira Elite, no Rio de Janeiro, onde foi levado pelo ator e escritor Abdias do Nascimento, pioneiro do movimento negro no Brasil. “Noitada decepcionante. (…) Danço um samba mole, bato os flancos para despertar em mim apetites, e me dou conta, de repente, de que me entedio. Táxi. E volto para casa”, anotou o filósofo, revelando que chegou a ensaiar alguns passos, mas não gostou do programa.

    Abdias, por sua vez, também escreveu sobre a experiência, sob o seu ponto de vista, é claro. “Além desse memorável encontro, tive a oportunidade de compartilhar com Camus o seu profundo interesse pela cultura brasileira de origem africana. Visitamos, no então vilarejo de Duque de Caxias, os terreiros de candomblé, onde eu tivera o privilégio de conhecer uma grande liderança religiosa, Joãosinho da Gomeia – figura forte e afirmativa, com aquela doçura dos iluminados. Ainda dividi com Camus uma noitada na gafieira Elite, no centro do Rio. Ele aplaudiu os bailados afrobrasileiros de Mercedes Batista, ensaiou dançar o samba, ouviu a Orquestra Afro-Brasileira de Abigail Moura e assistiu à Fausta apresentando o frevo pernambucano”, disse, em artigo publicado na Folha de S. Paulo.

    Já a julgar pelo depoimento, no livro de Albert Camus, correspondente ao dia 7 de agosto, fica clara a admiração e compreensão do francês da potência do samba para significar a essência da nação: “País em que as estações se confundem umas com as outras; onde a vegetação inextrincável torna-se disforme; onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perdeu seus limites. (…) é o país da indiferença e da exaltação. Não adianta o arranha-céu, ele ainda não conseguiu vencer o espírito da floresta, a imensidão, a melancolia. São os sambas, os verdadeiros, que exprimem melhor o que quero dizer”.