Jornalista com experiência em cidades, política, entretenimento e comunicação digital. Atuou no iG, além de passagem pela Approach Comunicação, com foco em conteúdo de negócios, tecnologia e investimentos. Foi coordenador de comunicação na SECIS/Prefeitura de Salvador e assessor parlamentar, liderando equipes e estratégias de conteúdo. Atualmente, é repórter no portal Bahia.ba e Portal Esfera.
Publicado em 06/08/2026 às 19h41.
Ana Mametto vê música como literatura e celebra raízes na Flipelô
Cantora fala sobre ancestralidade, novos projetos e o espetáculo que leva ao Pelourinho
Marcos Flávio Nascimento

Para Ana Mametto, o palco da Flipelô será mais do que um espaço para um show. No sábado (9), às 19h, quando apresentar o espetáculo “Saudação” na 10ª Festa Literária Internacional do Pelourinho, a cantora acredita que estará promovendo um encontro entre música, memória e literatura.
Em entrevista ao bahia.ba, a artista afirmou que a apresentação ganha um significado ainda mais profundo por integrar um festival dedicado aos livros e às narrativas.
“Levar esse espetáculo para a Flipelô, uma feira literária, é transformar a música em literatura oral. É contar histórias em forma de canção, compartilhar memórias, afetos e saberes que ecoam na nossa cultura e ajudam a compreender quem somos”, afirma.
No repertório, Ana revisita nomes fundamentais da música brasileira, como Os Tincoãs, Dorival Caymmi, Baden Powell, Vinicius de Moraes e Clara Nunes, costurando um espetáculo que reverencia a ancestralidade afro-brasileira e a construção da identidade cultural do país.
A cantora explica que “Saudação” nasceu de um momento de introspecção vivido durante a pandemia, quando redescobriu artistas e obras que marcaram sua formação.
Um reencontro que virou espetáculo
Segundo Ana Mametto, o projeto surgiu a partir de uma pesquisa pessoal que, inicialmente, seria apenas uma websérie sobre grandes nomes da música brasileira. O trabalho, no entanto, ganhou novos contornos após um incentivo do diretor musical Yacoce Simões.
“Foi então que Yacoce Simões me fez uma sugestão que mudou o rumo desse projeto: transformar aquela pesquisa também em um álbum e, depois, em um espetáculo. Assim nasceu Saudação”, conta.
Para ela, o show ultrapassa a dimensão musical. “Cada canção carrega uma história, uma memória e um ensinamento. Cantar essas obras é reverenciar quem veio antes de nós, reconhecer que somos fruto de muitas vozes que continuam ecoando através da música”, diz.
A artista também destaca que o desafio nunca foi reproduzir as interpretações dos ícones homenageados, mas dialogar com elas sem abrir mão da própria identidade.
“Eu não tento cantar como eles. O meu compromisso é interpretar essas canções a partir da mulher, da artista e da compositora que eu me tornei. Minha voz, minha vivência e minha ancestralidade atravessam cada interpretação”, afirma.
Cultura afro-brasileira ganha novos olhares
Com uma carreira marcada pela valorização das matrizes afro-brasileiras, Ana acredita que o público está mais disposto a conhecer essas referências do que quando iniciou sua trajetória artística.
“Percebo um público cada vez mais aberto e interessado em conhecer suas raízes e compreender a potência da cultura afro-brasileira”, afirma.
Embora reconheça que ainda existam desafios relacionados ao racismo e à intolerância religiosa, ela acredita no papel transformador da arte.
“Quando uma canção toca alguém, ela também desperta o respeito, a curiosidade e o reconhecimento da riqueza da nossa diversidade”, diz.
Ao refletir sobre o momento vivido pela música baiana, Ana rejeita a ideia de enquadrar sua obra em uma tendência específica. “A tradição e a contemporaneidade caminham juntas na minha trajetória, porque a ancestralidade não é passado, ela é presente e futuro”, declara.
Europa, livro e série estão entre os próximos passos
Além da apresentação na Flipelô, Ana Mametto prepara uma agenda intensa para os próximos meses. Em setembro, ela embarca para uma turnê pela Europa levando o espetáculo “Saudação” e também sua gira literária, inspirada no livro “Pombagira: A Entidade Silenciada”.
Na volta ao Brasil, iniciará as gravações de uma série audiovisual e, em novembro, participa do espetáculo “Orixás em Voz”, ao lado do mestre Bule Bule, durante as ações do Novembro Negro.
Paralelamente, a cantora grava um novo EP com músicas inéditas compostas em parceria com Yacoce Simões.
Mesmo após tantos anos de carreira, Ana garante que continua sentindo o mesmo frio na barriga antes de subir ao palco. “Cada palco é um novo palco, cada público é um novo encontro. Não importa quantos anos de carreira eu tenha, a emoção de subir ao palco continua a mesma”, afirma.
E é justamente esse encontro que ela espera proporcionar ao público da Flipelô.
“Espero que essa pessoa volte para casa tocada pelo afeto. Que leve consigo mais amor, respeito e um olhar mais generoso para aquilo que, muitas vezes, ainda lhe é desconhecido. Se o público sair do espetáculo com o coração mais aberto e com vontade de conhecer um pouco mais da nossa história e da riqueza da cultura afro-brasileira, sentirei que Saudação cumpriu a sua missão”, conclui.
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