Publicado em 30/07/2026 às 14h30.

Brasil e Angola se unem em HQ para retratar Luiz Gama

Obra terá lançamentos em Salvador e Luanda e distribuição gratuita em escolas

João Lucas Dantas
Capa do projeto

 

Através de um encontro transatlântico entre autores, Brasil e Angola se unem para contar a história de uma das figuras mais importantes da história brasileira. O baiano Luiz Gama ganha uma história em quadrinhos, com lançamentos programados no Brasil e em Angola.

A novela gráfica Luiz Gama, Artífice da Liberdade é voltada ao público infantojuvenil, terá distribuição gratuita em escolas e reúne roteiro de Tenille Bezerra, Ondjaki e Bruno Rodrigues de Lima, com ilustrações de Athos Sampaio.

O livro terá duas sessões de lançamento em Salvador. A primeira acontece neste sábado (1º), às 16h, na Biblioteca Pública dos Barris. A segunda será realizada no dia 8 de agosto, às 18h, durante a Flipelô.

Na sequência, a obra será apresentada internacionalmente, com lançamento marcado para o dia 16 de agosto, em Luanda, Angola. Mais informações sobre a publicação estão disponíveis no site da Editora Talismã.

Luiz Gama para novas gerações

Para a coautora da obra e fundadora da Editora Talismã, Tenille Bezerra, a proposta é apresentar a história de Luiz Gama às novas gerações.

“Na realidade, é um projeto para todas as idades, mas o formato dos quadrinhos foi escolhido justamente para dialogar com esse público, que, no nosso entendimento, precisa conhecer o exemplo de vida que foi Luiz Gama”, contextualiza, em entrevista ao bahia.ba.

“A partir disso, continuei pensando também no alcance da distribuição desse livro fora do Brasil, especialmente em Angola, pelas aproximações óbvias entre a cultura brasileira e a cultura angolana, marcadas pela diáspora africana. Foi então que convidei o Ondjaki para fazer parte do projeto. Também convidei Bruno Rodrigues Lima, historiador e pesquisador responsável pela publicação das obras completas de Luiz Gama”, acrescenta.

Tenille Bezerra
Foto: Divulgação

Projeto gráfico

Com 60 páginas e tiragem de 700 exemplares destinados à distribuição gratuita, a publicação propõe apresentar às novas gerações a trajetória de Luiz Gama — advogado, jornalista, poeta e intelectual negro que libertou judicialmente centenas de pessoas escravizadas no Brasil do século XIX.

O projeto prevê ainda a criação de um site com conteúdos pedagógicos, entrevistas, materiais de pesquisa e trechos do audiobook da obra, ampliando o acesso para pessoas com deficiência visual e baixa visão.

Questionada sobre o desafio de adaptar a trajetória de Luiz Gama para os quadrinhos, Tenille afirma que a maior dificuldade foi decidir quais aspectos da vida do abolicionista ficariam de fora da narrativa.

“A história da vida de Luiz Gama é extraordinária. Ele nasceu livre e, ainda criança, aos oito anos de idade, foi vendido pelo próprio pai como escravizado. Viveu nessa condição durante dez anos, até conseguir se alfabetizar de forma autodidata”, explica.

“Depois reuniu provas da ilegalidade da sua venda, apresentou essas provas a um juiz e teve reconhecida a sua liberdade. A partir daí trabalhou em diferentes setores ligados ao Poder Judiciário, estudou os processos, desenvolveu uma enorme capacidade de advogar. Depois disso, dedicou-se aos processos de liberdade de pessoas ilegalmente escravizadas e conseguiu libertar mais de 750 pessoas”, acrescenta.

Ondjaki
Foto: Divulgação

Conexão com Angola

Já para o escritor angolano Ondjaki, uma das decisões mais importantes do processo criativo foi utilizar as próprias palavras de Luiz Gama no roteiro.

“O grande trabalho foi decidir o que ficaria de fora, porque não queríamos um livro pesado, nem demasiado complexo, mas, ao mesmo tempo, queríamos produzir uma obra que dignificasse o percurso de Luiz Gama. Acho que conseguimos”, pontua.

Para Ondjaki, a obra também representa uma oportunidade de aproximar Brasil e Angola por meio da memória de Luiz Gama e apresentar sua trajetória às novas gerações.

“Ele foi um personagem fundamental da história brasileira e um precursor da Defensoria Pública, sempre preocupado com questões coletivas. A ideia é fomentar a leitura, mas também estimular a descoberta e o estudo de personagens como esse, que foram intencionalmente apagados da nossa história”, destaca.

“Agora queremos, intencionalmente, fazer o contrário: trazer essa memória de volta. Isso é muito importante para o Brasil”, completa.

Tenille também celebra a parceria com Angola e destaca a importância desse intercâmbio para ampliar o conhecimento sobre a história compartilhada entre os dois países.

“Existe todo um universo cultural, social e histórico que nos aproxima da África e que ainda é visto de maneira muito simplificada. Fazer com que Luiz Gama chegue também ao público angolano faz parte do desejo de aproximar verdadeiramente esses territórios por meio de figuras históricas que ajudam a construir uma outra narrativa sobre o Brasil”, afirma.

Ao comentar a atualidade do legado de Luiz Gama, Ondjaki diz que compreender sua trajetória é fundamental.

“Acho que o mais urgente é perceber que Luiz Gama estava sempre em busca de justiça, especialmente para os mais desfavorecidos. Ele defendia uma justiça que tratasse o cidadão com respeito”, explica.

“Quando pensamos no mundo de hoje, na desigualdade e na falta de distribuição mais justa das riquezas, percebemos como as ideias dele continuam extremamente atuais. Esse é um dos aspectos mais impressionantes de Luiz Gama: suas palavras e suas ações permanecem vivas e pertinentes”, conclui.

Retrato de Luiz Gama

Quem foi Luiz Gama

Nascido em Salvador, em 1831, Luiz Gama foi vendido ilegalmente como escravizado pelo próprio pai aos 9 anos de idade.

Filho da africana livre Luiza Mahin e de um fidalgo português, aprendeu a ler de forma autodidata já na juventude e conquistou judicialmente a própria liberdade.

Sem formação universitária, tornou-se um dos mais importantes advogados abolicionistas do país, utilizando o conhecimento jurídico para libertar cerca de 750 pessoas escravizadas.

Também atuou como jornalista, poeta, professor e intelectual negro em um Brasil profundamente marcado pela escravidão.

Sobre os autores

Tenille Bezerra: Poeta, cineasta, pesquisadora e produtora cultural. Fundadora da Talismã Arte e Cultura, desenvolve projetos voltados à valorização dos patrimônios culturais afro-indígenas.

Ondjaki: Escritor angolano e um dos principais nomes da literatura contemporânea em língua portuguesa. Vencedor dos prêmios Jabuti e José Saramago, tem obras traduzidas para diversos idiomas.

Bruno Rodrigues de Lima: Advogado, historiador do Direito e pesquisador da obra de Luiz Gama. É autor do livro Luiz Gama contra o Império e doutor em História do Direito pela Universidade de Frankfurt.

Athos Sampaio: Ilustrador, roteirista, concept designer e desenvolvedor de jogos. Atua em projetos para estúdios de computação gráfica e games no Brasil e no exterior e é o responsável pelas ilustrações da novela gráfica.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

Mais notícias

Este site armazena cookies para coletar informações e melhorar sua experiência de navegação. Settings ou consulte nossa política.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com