Aos 20 anos, Cacá Magalhães já acumula experiências que poderiam preencher uma carreira bem mais longa. A cantora baiana começou ainda criança, chegou à televisão norte-americana aos 12 anos, lançou um álbum autoral e, em 2024, foi indicada ao Latin Grammy como Melhor Artista Revelação. Agora, no entanto, é justamente a liberdade para não corresponder às expectativas que começa a ditar seus próximos passos.
Em entrevista exclusiva ao bahia.ba, Cacá contou que a indicação à principal premiação da música latina representou mais do que visibilidade. Para a artista, o reconhecimento ajudou a romper com a imagem infantil que ainda acompanhava sua trajetória e funcionou como incentivo em um período de incertezas na carreira.
“Deixei de ser vista como uma artista mirim, de uma maneira mais infantilizada, e passei a ser reconhecida como uma artista que sabe melhor o que está fazendo e que tem uma identidade própria. Eu também atravessava um momento difícil na minha carreira, então o reconhecimento do Latin Grammy foi, acima de tudo, um grande incentivo para continuar seguindo o caminho da minha verdade artística e da autenticidade”, afirmou.
Essa busca passa agora por uma mudança importante nos bastidores. Cacá iniciou uma fase como artista independente, decisão que, segundo ela, permitiu assumir maior controle sobre a sonoridade e a própria imagem. O primeiro retrato dessa etapa é “Fanatismo”, releitura da canção consagrada na voz de Fagner, lançada após ser gravada ao vivo durante um ensaio aberto em São Paulo.
Da infância em Salvador para uma nova identidade
Apesar de marcar um novo momento, “Fanatismo” também olha para trás. A música faz parte das memórias de infância da cantora com os pais e foi escolhida para abrir a fase independente justamente depois que Cacá percebeu, ao cantá-la ao vivo, que a interpretação reunia elementos que pretende levar para os próximos trabalhos.
“Versões sempre fizeram parte dos meus shows. Gosto muito de dar a minha interpretação às músicas e criar arranjos diferentes, levando para o rock e o soul canções que originalmente pertencem a outros universos. ‘Fanatismo’ é, para mim, uma das canções mais bonitas da música brasileira. Quando preparei essa versão para o ensaio aberto e a cantei ao vivo, senti que havia muito de mim ali”, explicou.
Na releitura, a cantora mantém a melancolia da composição, mas leva a faixa para um território mais próximo do rock e do blues, com piano no início e uma bateria mais presente ao longo do arranjo. Segundo Cacá, a proposta não é disputar espaço com a gravação de Fagner.

“A gravação de Fagner tem um lugar que ninguém tira, é uma interpretação icônica. A minha parte justamente dessa admiração, mas segue por outro caminho”, disse.
O movimento também aproxima Cacá das próprias origens. Natural de Salvador, ela começou a cantar ainda criança e, aos 10 anos, passou a integrar a Banda Terráquea, experiência que a colocou em contato direto com o blues. Depois, vieram a participação no programa norte-americano “Little Big Shots”, aos 12 anos, e o álbum “Só Sinto”, lançado em 2023.
“Sem dúvida, é uma aproximação maior de quem eu sempre fui e também do meu início na música, quando cantava blues com a Banda Terráquea, em Salvador. Ao mesmo tempo, existe uma ruptura grande em relação ao meu último trabalho. Acho que essa mudança mostra meu amadurecimento, minha independência e o caminho artístico que quero seguir daqui para a frente”, destacou.
Pressão depois do Latin Grammy
O reconhecimento precoce, no entanto, também trouxe cobranças. Para Cacá, viver experiências tão grandes ainda jovem acelerou o amadurecimento, mas criou a sensação de que cada novo passo precisa superar o anterior.
“As pessoas esperam muito de mim e, às vezes, projetam em mim as próprias expectativas. Ao mesmo tempo, acho que lidar com essa pressão contribuiu para o meu amadurecimento e me deu mais coragem para seguir a minha própria personalidade”, contou ao bahia.ba.
É justamente essa personalidade que a cantora pretende tornar mais reconhecível daqui em diante. Questionada sobre o que gostaria que o público identificasse como “a cara da Cacá Magalhães” antes mesmo de saber qual música está tocando, ela não citou premiações ou gêneros musicais.
“Quero que o público reconheça principalmente o meu timbre e os meus arranjos melancólicos. A melancolia é uma marca muito presente na minha vida, nas minhas canções e nas minhas referências. De alguma forma, ela sempre aparece nos arranjos. ‘Fanatismo’ mostra bastante isso, assim como os próximos lançamentos também vão mostrar.”

