“Cinema Novo”, de Eryk Rocha – ganhador do”Olho de Ouro” no Festival de Cannes na categoria melhor documentário –, foi o longa escolhido para abrir a Competitiva Nacional da XII edição do Panorama Internacional Coisa de Cinema na noite desta quinta-feira (10). O sobrenome entrega o que a aparência tenta esconder: o diretor, que está em sua sétima obra, é filho de Glauber Rocha, um dos percussores do movimento que dá nome ao filme. E que, venhamos e convenhamos, dispensa apresentação.
A exibição do documentário no cinema que leva o nome de seu pai lotou a sala, como esperado. Antes da estreia, Claudio Marques, coordenador do festival, relembrou o seu primeiro encontro com Eryk, na sessão de “Rocha que Voa” (2003), em Salvador. “Fui buscar Eryk no aeroporto e ele me passou uma segurança incrível. Chegando na Walter da Silveira, onde o filme seria exibido, ele subiu no palco, pegou no microfone e eu vi que as pernas dele tremiam. A voz embargou, ele gaguejou. A emoção dominou, afinal ele é o elo de Glauber com a Bahia”, contou à plateia.
Nesta noite, a voz não embargou e a perna não tremeu – pelo menos não visivelmente. Seguro de si e levantando a bandeira política do “Fora, Temer”, a quem se referiu como canalha, o filho pródigo trouxe pela primeira vez ao solo baiano o documentário que, assim como o júri de Cannes definiu, é um “filme-manifesto sobre a vigência de um movimento cinematográfico quase esquecido dos anos 1960”.
O documentário de 90 minutos desconstrói o didatismo e funciona como um mosaico muito bem montado de cenas dos filmes do Cinema Novo e depoimentos de seus principais expoentes, como Nelson Pereira do Santos, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Paulo César Saraceni e, claro, Glauber Rocha. Em resumo, não tenta explicar ou justificar: funciona como um panorama – sem trocadilho – do movimento criativo que foi tão relevante e importante para o Brasil e para o cinema mundial quanto o Neorrealismo Italiano ou a Nouvelle Vague francesa.
Com seu início na década de 1960, pré-regime militar, o Cinema Novo focou em produções de baixo custo e mais ligadas à realidade, com atenção ao subdesenvolvimento do país. A revisitação a este cenário, por Eryck Rocha, lançada justamente em um ano onde “forças ocultas” parecem assombrar a nação, levanta a bandeira de que, além da criatividade e inventividade dos realizadores nacionais, pouco mudou. A impressão de estática temporal é a mesma que o disco póstumo de Sabotage, morto em 2003, lançado este ano, deixou. Seja nos anos 1960 ou no fim dos anos 1990, pouco mudou no cenário político e social do Brasil. Já dizia Belchior – que foi sábio e sumiu –, “ainda somos os mesmos”.
Com direito a cenas dos bastidores de “5x Favela”, belíssimos takes de “A Falecida”, estreia de Fernanda Montenegro nas telonas, e trechos inspirados de entrevistas, como quando Ruy Guerra diz que “Nós [os percussores do movimento] não gostamos do filme um do outro porque somos amigos. Nós somos amigos porque gostamos dos filmes um do outro”, “Cinema Novo” é um resgate nostálgico bem executado de uma época de criatividade sem precedentes e um sopro de esperança ao cinema nacional em tempos de um smartphone na mão e uma ideia de post na cabeça.

