Circuito de Fogo retorna ao Quilombo Quingoma para encerrar temporada

    Projeto de Fábio Osório revisita comunidade que acompanhou sua criação e celebra trajetória marcada por ancestralidade

    Foto: Divulgação/ Assessoria

     

    O projeto artístico-cultural Circuito de Fogo — Das Ruas aos Quilombos, idealizado pelo artista Fábio Osório Monteiro, retorna à comunidade que foi seu ponto de partida, o Quilombo Quingoma, em Lauro de Freitas, para encerrar a temporada a partir da próxima quarta-feira (10).

    Serão realizadas oficinas, rodas de conversa e trocas culturais entre o grupo visitante e as expressões locais, além da apresentação da performance Bola de Fogo, assinada pelo próprio Fábio, que mistura dança, gastronomia e ancestralidade. As atividades seguem até o sábado (13).

    Em entrevista ao bahia.ba, Fábio afirma que a experiência de percorrer o Brasil visitando comunidades quilombolas marcou profundamente todos os envolvidos no projeto.

    “A Bola de Fogo muda, porque todos nós que passamos por cada uma das comunidades quilombolas visitadas tivemos a oportunidade de mudar profundamente. Essa transformação não tem como não chegar na obra. A performance, de alguma forma, ganhou camadas profundas de humanidade e reforça o quanto a ancestralidade se materializa no agora”, expressou o idealizador.

    “Devidamente trajado”, ele monta seu tabuleiro de baiana, bate a massa do acarajé e frita os bolinhos, oferecendo, junto à comida, suas histórias, sua dança e seus afetos. Enquanto cozinha, compartilha com a plateia uma narrativa rica que mescla mitos e itãs de origem africana com episódios de sua própria vida. Para ele, o Circuito de Fogo vai além da dança e da gastronomia, unindo arte e ancestralidade em diferentes territórios do Brasil.

    Foto: Divulgação/ Assessoria

     

    Impacto cultural

    Com passagens internacionais por Avignon e Aurillac, na França, o ano de 2025 se tornou especial para o projeto, iniciado em 2017.

    “Foram muitas apresentações em dois movimentos diferentes: Circuito de Fogo — das ruas aos quilombos e também Circuito de Fogo — ganhando mundos, quando fizemos temporadas da performance nas cidades de Avignon e Aurillac. Nesse sentido, as duas circulações trouxeram uma nova dinâmica de tempo ao trabalho, tornando mais fluida a relação entre mim e Cíntia Santos (que performa Bola de Fogo em Libras) e também mais direta nossa relação com o público”, completou.

    Após sete anos sem performar na Bahia, o desejo de voltar ao local onde tudo começou já existia há muito tempo. Criada em 2017, Bola de Fogo nasceu como uma performance encenada em largos e praças por um homem negro, gay, nordestino, candomblecista e artista, vestido como uma baiana de acarajé, figura reconhecida como Patrimônio Imaterial do Brasil. Durante a apresentação, artista e público interagem e compartilham o acarajé preparado ao vivo.

    “Ter essa oportunidade de voltar a apresentar aqui e com a apresentação acontecendo no Quilombo Quingoma traz a concretude da sensação de voltar para casa. O Quingoma, que é a comunidade quilombola que nos acompanhou em todo o projeto desde sua elaboração, passou a ser a casa de toda a equipe durante as viagens. Então a performance volta para uma casa da qual, de alguma forma, ela sempre parte”, declarou.

    Depois de atravessar comunidades quilombolas em diferentes regiões do país e realizar temporadas internacionais, Fábio diz ter compreendido ainda mais as singularidades desses territórios.

    “O que ficou mais evidente para mim é que, mesmo dentro de um recorte específico, elas podem ser muito diversas entre si, seja na economia, nos meios de subsistência, no fato de serem rurais ou urbanas. Contudo, a partir da vivência com o Quilombo Quingoma, entendemos que um quilombo se dá em acolhimento e partilha. Esse princípio, que atravessa toda comunidade quilombola, é mais forte do que todas as diferenças”, declarou.

    Foto: Divulgação/ Assessoria

     

    Conexões ancestrais

    Ao comentar a relação entre dança, gastronomia e ancestralidade dentro da performance, ele aponta três elementos essenciais para a preservação e evolução cultural do povo preto ao longo do tempo.

    “Nem a dança é só movimento, nem a gastronomia é só alimento. Vemos nas comunidades quilombolas a dança e a gastronomia como manifestações da ancestralidade no tempo presente. Essa perspectiva também é muito cara à Bola de Fogo: o Tempo dança e o alimento carrega a história de um povo para dentro do corpo”, explicou.

    Para o idealizador, o impacto deixado pelo projeto vai para além do cenário da dança, mas para a arte contemporânea brasileira em geral.

    “Para mim, fica muito evidente que este país e seu povo são infinitamente maiores e mais diversos do que o país possível nos grandes eixos. É urgente o movimento de olhar para si, e não há outra forma de fazer isso sem antes entender um pouco mais sobre qual Brasil, ou Brasis, estamos refletindo”, concluiu Fábio.

    O “Circuito de Fogo – Das Ruas aos Quilombos” é realizado pela ULTIMA Plataforma e Zóio de Jabuticaba, com direção geral e performance de Fábio, direção de produção de Gabriel Pedreira, mediação quilombola feita pela liderança Rejane Rodrigues (Quilombo Quingoma).

    “Circuito de Fogo – Das Ruas aos Quilombos” integra a programação do Circuito Funarte de Dança Klauss Vianna 2023, parte do Programa Funarte de Difusão Nacional, promovido pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), vinculada ao Ministério da Cultura (MinC).