O diretor do Centro de Pesquisas e Desenvolvimento para a Segurança das Comunicações da Abin (Agência Brasileira de Inteligência), Juliano Ferreira, vem reforçando suas críticas ao uso de ferramentas de Inteligencia Artificial por servidores públicos. “O esforço é no sentido de sensibilizar os gestores de que o uso do ChatGPT, de uma inteligência artificial, deve ser associado a essa avaliação dos riscos” afirma ele.
Segundo matéria da Folha de São Paulo, o diretor afirma que há um consenso entre gestores sobre os riscos do uso das inteligências artificiais generativas no serviço público. “No que a gente tem que caminhar —e é nossa vulnerabilidade maior— é em relação ao usuário da solução (servidor público). A minha percepção é que isso ainda não está internalizado”, diz.
O governo federal já emitiu recomendações para que os servidores não utilizem backups em nuvens. Em outros casos, há sugestões de que funcionários só enviem documentos sigilosos em redes corporativas. “É uma luta perdida essa de tentar evitar o uso de IA dentro das repartições. Nosso trabalho é dizer: ‘Olha, faça sua avaliação de risco e defina quando utilizar uma solução desse tipo’”, diz Juliano.
Diante da consolidação das IAs generativas, o centro comandado por Juliano na Abin começou a fazer pesquisas este ano para estudar a viabilidade de se criar uma inteligência artificial de Estado.
“Ainda precisamos entender o quanto [o desenvolvimento de uma IA de Estado] vai exigir de capacidade de investimento […] Precisa entender também que a luta não é no sentido de você produzir uma IA do nível do que é oferecido pelo mercado. Seria uma competição desleal”, afirma.
Os projetos, porém, ainda são muito recentes. “É algo difícil de você dimensionar a ordem de grandeza. Se é um investimento de R$ 50 milhões, de R$ 500 milhões, de R$ 1 bilhão”, diz.
A Abin possui um Centro de Pesquisas e Desenvolvimento para a Segurança das Comunicações, que trata dos assuntos cibernéticos. Seus servidores atuam na identificação de novas ameaças no ambiente digital e auxiliam órgãos de governo na prevenção de ataques online. Um dos casos mais recentes em que o centro atuou foi no ataque cibernético ao Siafi, sistema de administração financeira do governo federal.
Na ocasião, invasores conseguiram desviar R$ 15 milhões —cerca de R$ 11 milhões do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e R$ 4 milhões do MGI (Ministério de Gestão e Inovação em Serviços Públicos).
Do valor roubado, a Polícia Federal e o Banco Central conseguiram recuperar cerca de R$ 10 milhões do Tesouro Nacional, e três pessoas foram presas após quatro meses de investigação, que contou com o apoio da Abin e identificou que os invasores utilizaram de credenciais de funcionários do governo furtadas para ter acesso à plataforma gov.br e senhas para alterar o número de contas que receberiam recursos dos órgãos públicos.
Juliano Ferreira reconhece que houve aumento de ataques cibernéticos bem-sucedidos contra sistemas governamentais nos últimos anos. “A capacidade do oponente vem evoluindo de uma maneira quase exponencial”, diz. O esforço tem sido desenvolver novos meios de prevenção contra ataques em cooperação com os demais órgãos de governo.
A inteligência artificial generativa é uma tecnologia capaz de gerar conteúdos novos (textos, imagens, músicas) e que se atualiza e se aperfeiçoa toda vez que é usada. A base de dados desse tipo de IA é alimentada a cada nova geração de conteúdo —e, por isso, o uso de informações sensíveis pode implicar um vazamento de dados.

