
Foi show de bola. Noventa minutos em que a dobradinha artista-público funcionou de forma perfeita: do palco, ele armava as jogadas; na plateia, fãs de todas as idades, etnias e classes sociais ajeitavam redondinho no peito (e na garganta) e era só correr pro abraço. Diante de um Zé Ramalho maduro e completo – 66 anos de vida e 40 de carreira – os fãs se entregaram à emoção. Que vida de gado, nada, seu Zé. Nesta sexta-feira (12), na Concha Acústica do Teatro Castro Alves e nos prédios do entorno, o povo estava mesmo era muito feliz.
O show começa com “O que é, o que é?”, de Gonzaguinha. Seria um recado? Talvez. Algo como: apesar dos percalços do passado (perdas familiares, luta contra as drogas, doenças graves, períodos de insucesso) a vida nestes 40 anos de estrada “é bonita, é bonita, é bonita!”… Vai saber!
De volta ao repertório autoral, um desfile de megassucessos. Avôhai, Chão de giz, Sinônimos, Vida de gado, A terceira lâmina, Entre a serpente e a estrela, Eternas Ondas, Banquete de signos… Na eletrizante Frevo Mulher, uma explosão de alegria. Da obra de Raul Seixas, que no dia 21 deste mês completa 27 anos de morto, foram pinçadas Gita e Medo da Chuva, em releitura especial.

‘Fora Temer’ – O tempo voou. Noventa minutos que se passaram num estalar de dedos. A empatia com o público foi total. Entre afagos ao calor da plateia, ele falou da emoção por estar em Salvador, jogou um lenço de souvenir para os fãs e não perdeu o tom.
Acostumado a lidar com plateias politizadas, o poeta paraibano não desafinou, sequer, quando um grupo ensaiou um coro de “Fora Temer”. Não endossou, nem reprimiu. Fez ouvidos de mercador e continuou fazendo o que estava ali para fazer: cantar e encantar. Tudo sob a competente assistência da Banda Z – Chico Guedes no contrabaixo, Zé Gomes na percussão, Vladmir Oliveira nos teclados, Edu Constant na bateria e Toti Cavalcanti nos sopros.
A apresentação termina por volta das 21h. mas o público quer mais. Isso, depois do bis que encerra a noite com “A vida do viajante”, do mesmo Gonzaguinha, de quem Ramalho já havia escolhido a música de abertura. E por que, dono de um repertório tão vasto, teria o poeta do agreste ido beber na fonte do filho de Gonzagão a inspiração para abrir e fechar a sua própria festa? Mistérios da meia-noite… Só pode.
