“A depressão é uma doença muito sutil, ela é como se fosse uma cólica, tem os momentos dela”, é dessa forma que a cantora Sarajane descreve a depressão.
A artista, um dos maiores nomes da Axé Music, confessa que não superou a doença por completo, ‘apenas aprendeu a educa-lá’. Mas garante que seus momentos de crise são mais controlados, comparados ao início da doença, graças ao tratamento adequado.
Em entrevista ao bahia.ba, a cantora conversou sobre a descoberta da depressão ainda quando criança. Segundo Sarajane, apesar de ter consciência da sua infância depressiva, foi apenas quando começou a fazer sucesso que percebeu que estava à frente de uma das doenças que no futuro se tornaria o mal do século.
“Eu achava que eu estava triste e que era algo normal. A gente fica procurando uma justificativa para não reconhecer a doença. Eu sempre fui uma pessoa muito brincalhona, muito alegre, só que eu comecei a perceber que estava alegre demais. E em determinados horários eu começava a chorar, chorar muito, e depois passava. Todos os dias naquele mesmo horário eu tinha esse problema. Depois eu notei que comecei a ter muitos pensamentos negativos, comecei a não ter foco, a ter preguiça. Ou eu acelerava muito ou retardava muito”.
Confira a íntegra da entrevista abaixo.
Problemas do passado foram gatilhos para o desenvolvimento da doença
Infelizmente é algo que vem de problemas de quando você era criança, que você lembra e tá ali guardado em seu subconsciente. São nichos que você vai acumulando ao tempo de vida que você tem, então foram muitos problemas, muitas perdas que eu tive, foi a minha separação, lembranças do passado, eu sofri pedofilia, fui uma menina pobre, o próprio sucesso né? Ele vem e depois para, então são várias coisas. Eu era uma criança que tinha depressão, uma adolescente que tentava se matar todo dia.
Depressão afetou carreira da artista, que estourou no país com 17 anos ao som do hit ‘A Roda’
Quando eu comecei a fazer sucesso eu não queria aquilo, porque as pessoas te usam e te julgam. São seus amigos porque você tem condições de pagar um restaurante, que tem uma casa legal. Eu não queria ser Sarajane, era muito novinha e não entendia o que era aquilo. Nessa época foi quando aconteceu um problema na minha vida, eu parei de cantar. Eu chegava na porta do estúdio e dizia: hoje eu não quero gravar, e voltava para casa. E as pessoas falavam: ‘Sara, pelo amor de Deus, hoje tem show’. E eu dizia: não quero. Eu não bebia, eu comecei a tomar cerveja. Comecei a inchar, não queria sair, só queria beber todos os dias.
Tratamento profissional e trabalho social foram motivações de Sarajane para continuar lutando contra a doença
Uma amiga, que era minha produtora, foi a minha luz. Ela fazia parte de algumas ações sociais e uma delas era essa parte de massagens com terapeutas, me ajudou bastante. Depois eu procurei um psiquiatra que me passou um tratamento ortomolecular, e eu fui me tratando e aprendendo a conviver com ela. A meditação me faz muito bem, a oração me faz muito bem, ler bons livros. Mas há 23 anos, o que me salvou foi a ONG que eu criei, o projeto ACasa, trabalhando com crianças. Ali eu podia realizar alguns sonhos que eu não tive quando criança, era como se eu tivesse tratando a minha criança interior. O trabalho social que eu fiz foi fundamental no meu tratamento. Muitas pessoas acham que você esta doando para o outro, quando na verdade você esta doando para você mesmo. É uma autoajuda, porque quando você doa amor, você recebe amor.
Retorno aos palcos foi motivado pelo reconhecimento do poder de fala da artista
Depois de um tempo fazendo esse trabalho eu recuperei a confiança e voltei para os palcos. Ali eu entendi que o artista no palco, ele tem um poder grandioso. Muita gente tá em depressão em casa, tá doente, triste. E o amigo chega lá e fala: ‘Vamos no show de Sarajane, você vai se alegrar, vai ficar feliz’.

Muitas vezes quando a pessoa tá no show e o artista fala uma frase ela se identifica e acha respostas para aquilo que ela tá procurando, e poxa, é muito bacana poder dar essa esperança e essa ajuda às pessoas. Espero continuar levando alegria para muita gente.
Apesar dos tratamentos, a artista afirma que a depressão continua presente
Eu convivo com ela, aprendi a educa-lá. Já tive fases de picos altíssimos, onde a minha vontade era de sair correndo na rua gritando. Tentei cometer suicídio três vezes. Tem gente que não consegue, é difícil demais. É uma dor de morte que a gente sente. A depressão é algo horrível, as crianças e os adolescentes muitas vezes estão no quarto com o celular na mão, não saem de casa, não têm vontade de passear, e os pais não ligam. ‘Ah, meu filho é muito quietinho, ele está bem’. E o adolescente sofre muito com isso, com a questão da autoestima também. O conselho que eu dou para quem ainda não teve coragem de procurar ajuda é que ela possa parar um pouco e perceber que aqueles comportamentos que ela está tendo é algo muito elevado para o comportamento real dela. Não é normal. Ela precisa se observar e procurar ajuda, porque quando alguém está em depressão, ele pode entrar no quarto e fazer uma besteira. Não é frescura.
Procure ajuda
O Centro de Valorização a Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e voluntário 24 horas por dia, para quem está com pensamentos suicidas ou enfrenta outros problemas psicológicos. A organização atende pelo telefone 188, além do chat, e-mail e pessoalmente, em Salvador na Rua do Bângala, 47 – Nazaré.
Atendimento psicológico gratuito em Salvador
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