Exposição ‘Tom Zé 80’ estreia na Caixa; leia trecho inédito do catálogo

    A mostra reúne obras gráficas, digitais e interativas que reavivam a trajetória do artista de Irará, que completou 80 anos em outubro do ano passado

    Foto: Divulgação

    A exposição “Tom Zé 80 anos” entra em cartaz na Caixa Cultural Salvador entre os dias 8 de junho e 6 de agosto – uma celebração da vida e obra do tropicalista. Inédita, a mostra reúne obras gráficas, digitais e interativas. Músicas, fotos, textos e depoimentos são traduzidos em instalações concebidas especialmente para a exposição que, assim como o homenageado, utilizam-se da multiplicidade de meios e linguagens na concepção artística.

    O curador e diretor de arte da exposição, André Vallias, falou ao bahia.ba: “É uma mostra poético-didática. Vamos expor os instrumentos criados por Tom Zé; disponibilizar sua discografia comentada em tablets, excertos de entrevistas em vídeo, com uma linha do tempo ilustrada. Um trio de artistas-tecnólogos da UFRB criou uma instalação interativa especialmente para a mostra: ‘Estudando o Sampler’. E eu fiz várias releituras em forma de poemas visuais de canções do Tom Zé”.

    Também poeta, Vallias concebeu a exposição “Gil 70”, que passou por Salvador em 2013. Sobre os instrumentos criados por Tom Zé, os “instromzémentros”, para a confecção dos quais o artista vendeu uma casa em São Sebastião e que por muito tempo seguiram quase incógnitos, o curador foi questionado se, dado o reconhecimento que hoje tais criações gozam, o crime da invenção compensa: “No caso dele compensou!”.

    “Neusa, minha esposa costuma me dizer que, quando vou para qualquer lugar do mundo, eu estou em Irará, então, o fato de essa exposição começar na Bahia é muito significativo para mim e muito acertado, por conta desses laços fortes. Tenho muitas amizades profundas aí na Bahia que espero rever nesse grande encontro que será essa exposição”, comemora Tom Zé, ao falar sobre a homenagem.

    Idealizada pela cantora, produtora cultural e amiga pessoal do homenageado, Bete Calligaris, “Tom Zé 80 anos”, que poderá ser visitada gratuitamente, de terças a domingos, das 9h às 18h, traz ainda um texto de Antônio Risério, escrito especialmente para o catálogo. Publicamos abaixo um trecho, em primeira mão:

    “Poucas pessoas parecem notar, de mistura com sangue lusitano e algumas características mulatas (logo, de extração negroafricana), a ascendência ameríndia de Tom Zé. Penso que sua linguagem experimental (na música e na poesia), bem como sua temática urbana (e mesmo sideral, de ‘São Paulo, Mon Amour’ a ‘2001’), contribuem para isso. São temas e estilemas que parecem pertencer a um mundo distante demais de qualquer coisa que lembre mato, índio e aldeia. Mas basta reparar direito e lá está gravado o traço indígena. Trata-se, na verdade, de marca comum aos seus conterrâneos. Ainda hoje, as pessoas de Irará, mulatas e caboclas em sua grande maioria, trazem no rosto a prega asiática que denuncia a ascendência indígena. Descendem, em maior ou menor grau, dos paiaiás que habitavam a região – índios que aparecem, de resto, até na poesia de Gregório de Mattos: “Há cousa como ver um paiaiá/ Mui prezado de ser Caramuru,/ Descendente de sangue de tatu,/ Cujo torpe idioma é cobé pá”. Tom Zé descende, portanto, dos tapuias de Irará, não dos tupis do litoral”.

    “Risério sacou que Tom Zé é também Tom Jê. Ele, Tom, ficou muito impressionado porque nunca tinha se tocado nisso: só falava da herança moçárabe. Tom Zé é moçárabe-ameríndio, mamelúsico-cafuzo”, comenta André Vallias.

    Serviço:
    O QUÊ: Tom Zé 80 anos
    ONDE: Caixa Cultural Salvador (Carlos Gomes)
    QUANDO: de 8 de junho a 6 de agosto, das 9h às 18h
    QUANTO: Grátis!