Festival de animação celebra potência nordestina e homenageia ex-animadora da Disney

    Homenageada do Animaí 2025, Rosana Urbes, e as diretoras baianas Letícia Simões e Luma Flôres compartilham ao bahia.ba seus processos criativos

    Foto: Silas Fernandes/ Assessoria

    O VII Animaí – Festival Baiano de Animação e Games desembarca na Ilha de Itaparica (BA) para dar início à sua extensa programação nesta quarta-feira (8), no Colégio Estadual de Tempo Integral Ernesto Carneiro Ribeiro.

    No município, segue até a sexta-feira (10), mas o público baiano não precisa se preocupar em perder nenhum momento. Dos dias 21 a 25 de outubro, o festival chega a Salvador, no Cine Glauber Rocha e no Espaço Cultural Boca de Brasa Subúrbio 360°, simultaneamente.

    As Mostras Competitivas de Animação e Games registraram recorde de inscrições, com 183 obras de animação e 124 jogos digitais, evidenciando a confiança da comunidade criativa na iniciativa. A curadoria do festival anunciou os filmes selecionados para as categorias Longa-metragem de Animação, Série de Animação e Curta-metragem de Animação, reforçando o compromisso do Animaí com a valorização da animação nacional.

    Neste ano, o Animaí homenageia a diretora e ex-animadora da Disney Studios, Rosana Urbes, e exibe, na sessão de encerramento, seu mais recente trabalho, Safo, filme premiado no prestigiado Festival de Annecy, na França. Para celebrar mais uma edição do já tradicional encontro, o bahia.ba conversou com a homenageada, e com as diretoras baianas Letícia Simões, que exibirá o longa-metragem Glória e Liberdade, e Luma Flôres, autora do curta-metragem Como Nasce um Rio.

    Põster do filme Safo

     

    Safo e homenagem a Rosana Urbes

    O filme Safo, de Rosana Urbes, é inspirado na história da poeta de mesmo nome, que viveu na Ilha de Lesbos, na Grécia Antiga, por volta de 600 a.C. Ela foi uma das figuras mais importantes da literatura grega, sendo famosa por seus poemas líricos, que expressavam sentimentos pessoais, como amor, desejo, amizade e a experiência feminina.

    Infelizmente, a maior parte de sua obra se perdeu ao longo dos séculos. Isso aconteceu porque os textos antigos eram escritos em pergaminhos ou papiros, materiais frágeis que se deterioram com o tempo, e também porque muitos não foram copiados pelos escribas, sendo considerados menos importantes que outras obras clássicas.

    Hoje, restam cerca de 200 fragmentos de seus poemas, em sua maioria muito curtos. Muitos desses foram encontrados recentemente em escavações no Egito, principalmente em desertos, onde as condições de ar seco ajudaram a preservar pedaços de papiro que teriam se perdido em outros lugares. Diante dessa inspiração, a cineasta realizou o seu curta de 12 minutos, baseado nesses achados.

    “A inspiração vem mais do conteúdo lírico desses fragmentos do que da construção estética em si. A narrativa, na verdade, é um filme que aborda muito o processo de realização do próprio projeto. A pesquisa e a investigação serviram para encontrar uma estética que dialogasse tanto com o lirismo quanto com a própria história do desaparecimento histórico da poesia”, detalha a cineasta, em entrevista exclusiva ao bahia.ba.

    “Eles falam da natureza, do amor, da beleza da existência e da natureza. E daí veio a ideia de usar elementos naturais no cenário do filme, usando plantas que eu recolhi nas calçadas, no parque, ao lado da minha casa. Passei também a cozinhar tintas de plantas para pintar as personagens, que são basicamente releituras diversas de Safo e também das suas inspirações — como os murais das mulheres de Creta, que ela cita nos fragmentos”, explica Urbes.

    Passagem na Disney

    Tendo sido assistente de animação nos filmes Pocahontas (1995), Mulan (1998), A Nova Onda do Imperador (2000) e Lilo & Stitch (2002), a diretora diz que sua passagem nos estúdio Disney foi um período de “muito aprendizado”.

    “Principalmente sobre logística de produção, processos, etapas e sobre como acontece o envolvimento entre animação, storyboard, estudos e desenhos de conceito, e como tudo isso é organizado. Também aprendi como essas etapas vão se misturando até o final do filme”, relembra Rosana.

    “Eu aplico essa mesma lógica de produção no meu trabalho autoral. Acredito que essa experiência me influenciou principalmente na busca pela excelência — algo muito presente nos estúdios — e na forma como a produção se estrutura”, acrescenta.

    Em um processo delicado, a animadora conta que foram utilizadas diversas camadas entre personagens e cenários, construídos em uma mesa multiplana feita de vidro, com seis níveis. “Fizemos uma pesquisa para distribuir os elementos e animar cada um separadamente. Assim, acabou se tornando um processo com uma complexidade de profundidade de campo para animação, que foi sendo construída e descoberta aos poucos”, esclarece.

    O processo de pesquisa e produção do filme se estendeu do final de 2018 até o lançamento neste ano, totalizando cerca de seis anos. Contando com um trabalho de animação analógica, animando materiais no papel e no vidro, além do stop motion, técnica em que objetos ou personagens são fotografados quadro a quadro, criando a ilusão de movimento quando as imagens são reproduzidas em sequência.

    “O que me fascina nesse processo todo é o diálogo com a materialidade, com o mundo de verdade se transformando magicamente em um universo vivo pela animação. Eu sinto que isso é, de certa forma, uma defesa da vida real, das interações com o mundo natural, com o mundo concreto, das relações com pessoas de verdade. Então, o filme tem realmente esse posicionamento, que eu considero até político”, afirma Rosana.

    “Enquanto toda a indústria vai se digitalizando, o que é ok, porque são outras formas de fazer filmes, eu acabei seguindo o caminho oposto. Fui cozinhar minhas próprias tintas com plantas, com beterraba, com flores, com folhas que encontro na calçada. É todo um universo que se abre, voltado para o mundo real”, acrescenta, em referência às tendências no cinema mundial de digitalizar o processo de animação.

    “Com Safo, eu senti que propus justamente isso: sair da tela e interagir criativamente com o mundo natural”, expressa.

    Rosana Urbes trabalhando em Safo
    Foto: Divulgação

     

    Desafios da animação analógica

    Questionada sobre o uso de inteligência artificial dentro do processo criativo do cinema, especialmente das animações, que têm se tornado comuns nos dias de hoje, a cineasta ressalta sua admiração pelo processo natural da criatividade.

    “Eu acredito que nós somos seres movidos a histórias. Fazer cinema, para mim, está profundamente relacionado ao desenvolvimento de habilidades humanas, e a animação é uma forma de arte muito voltada para isso. Eu não acredito que a IA possa realmente substituir esse aspecto, porque é uma mistura de coisas que já foram criadas, e ela é desprovida de história. Não há alguém por trás que se entrega a um processo criativo. Existe um vazio nisso, um distanciamento do que o cinema realmente é”, critica.

    “Em produções mais comerciais ou descartáveis, talvez a IA realmente ocupe esse espaço de substituir pessoas por um tempo. Pode haver, sim, automatizações em partes do processo de animação, que acabarão substituindo algumas funções, mas, no geral, a arte vai permanecer — porque o que nos interessa, como espécie, são as histórias humanas”, especula a animadora.

    Escolhida como homenageada do ano no Animaí, a cineasta se diz “muito honrada” com a decisão. “É um festival que vem se consolidando de forma muito importante. Para mim, é sempre muito especial apresentar meu trabalho aos meus pares, pessoas que compreendem o envolvimento quase monástico que temos com a arte da animação, e isso torna esse reconhecimento ainda mais especial”, celebrou.

    Pôster de Glória & Liberdade

     

    A Glória e Liberdade de Letícia Simões

    A diretora baiana Letícia Simões apresentará o seu longa-metragem Glória & Liberdade durante o festival. A animação de 75 minutos, feita inteiramente por uma equipe nordestina, conta a história de Azul, uma jovem documentarista, que vive em um Brasil alternativo de 2031, em uma realidade onde estão sendo comemorados 200 anos das Revoltas Regenciais, as revoluções ocorridas após a partida de D. Pedro I para Portugal, que culminou na independência das províncias e criação de novos países.

    Nessa odisséia, a personagem se encontra com chefes de estado, agricultores, líderes campesinos, pajés, hackers e, por fim, com sua própria família. Ao fim dessa jornada, a documentarista terá de confrontar o que aprendeu sobre história, revolução e liberdade, com uma insurreição muito concreta acontecendo na sua própria casa.

    Em conversa com o bahia.ba, a diretora e roteirista explica que sempre foi fascinada com esse período da história do Brasil e que a vontade de transformar esse embrião em animação nasceu após o contexto das eleições presidenciais de 2018. “Eu pensava o que é que nos mantém enquanto país, enquanto sociedade? Ainda mais neste período, quando houve mesmo aquela ruptura entre Nordeste e Sudeste, por exemplo”, explica Letícia.

    “Abandonei um roteiro de um possível documentário tradicional e comecei a construir um novo. As Revoltas Regenciais ocorreram, e elas consequenciaram outra pergunta. Eu acho que o cinema é maravilhoso por isso, ainda mais a animação, porque você pode bolar qualquer coisa, e quanto maior a capacidade imaginativa, mais interessante fica. E não tem limites. Foi um encontro muito bacana entre essa realidade do Brasil e a linguagem da animação”, acrescenta.

    Baiana assim como a cineasta, a protagonista Azul reflete a jornada de auto-descoberta diante desse Brasil dividido, muito pertinente, também, ao momento político atual em que vivemos. “Acabou sendo natural o processo de começar pelo menos como um espelhamento da minha pessoa. Sou da Bahia, sou documentarista, e depois fui me desgarrando de mim. Então, a gente deu uma família para essa personagem, um contexto político, e ela é muito mais uma observadora”, pontua a diretora.

    No filme, cada nação recebe um traço e um estilo próprio de animação, realizado de maneiras diferentes, dando características a cada local. “Tem realmente, no estilo da animação, traços locais e da identidade que se revelam através da cultura. E aí houve uma pesquisa muito grande sobre artes visuais, sobre música, sobre cosmogonia”, esclarece.

    “A gente foi pensando o que poderíamos trazer de mais bacana em estilos e traços de animação: 2D, depois a colagem, tipos de ilustração que representariam cada um desses lugares. Então, quando você vai para a República de Pernambuco, tem toda essa distopia de um país extremamente rico, mas desigual, que aposta tudo em ser super high-tech, tecnológico. A gente já tem um lastro de filmes, mas também de HQs, que exploram essas realidades alternativas”, acrescenta Letícia.

    Cena do filme Glória e Liberdade

     

    Ao desembarcar nessa Bahia alternativa, a animadora diz que queria que fosse um lugar “fervilhando por uma revolução popular”, que a levou a buscar ainda mais essas inspirações em outras mídias artísticas, como os quadrinhos mencionados acima.

    “A gente buscou em HQs, mangás, tudo o que já existe, o que foi pensado sobre isso, o que já foi escrito sobre esses movimentos revolucionários populares. Então, a gente quis muito que a trilha sonora seguisse a mesma lógica, correspondendo muito aos locais, ainda que todo esse tema tenha sido adaptado para as realidades de cada lugar”, pontuou.

    O filme levou cinco anos para ser realizado, do roteiro, passando pela animação, até o lançamento definitivo, que também enfrentou os desafios de se fazer cinema no Brasil.

    “É um projeto de animação de baixíssimo orçamento. As pessoas fizeram porque realmente acreditaram. Existe muito do coração e da visão de mundo de cada pessoa que trabalhou no Glória. E isso é muito difícil de reproduzir”, esclarece Letícia.

    Questionada a respeito da sua participação no Animaí de 2025, afirma que é uma “felicidade gigante”. “Pensar uma animação nordestina, eu, como baiana, exibindo um longa em um festival de animação é incrível. E dentro desse filme trabalharam pessoas da Bahia, do Ceará, de Pernambuco. Então eu acho que é um espaço de celebração para a gente conseguir mostrar que não só sabemos contar nossas histórias, mas também sabemos fazer”, concluiu a diretora.

    Imagem do filme Como Nasce um Rio

     

    Luma Flôres mostra Como Nasce Um Rio

    Ayla acorda em uma paisagem montanhosa, cercada apenas por vegetações e um rio. Movida pela curiosidade e desejo de conhecer o lugar, a protagonista embarca em uma jornada de descobertas e mergulhos que a faz descobrir mais sobre si mesma. O curta-metragem da também baiana Luma Flôres traz, de maneira poética e onírica, o processo de autodescoberta sexual e aceitação dos seus desejos em Como Nasce um Rio.

    “O filme surge do desejo de celebrar o amor entre duas mulheres, retratando o processo de autodescoberta sexual de Ayla, uma mulher atravessada por forças da natureza, de outro corpo e do seu próprio desejo. Eu sempre senti falta de representações lésbicas e bissexuais que retratassem esse momento de descoberta de uma forma mais metafórica. Então, o universo do filme, concebido como uma extensão poética dos desejos das personagens, permite que o afeto e a descoberta mútua possam ser vividas livremente”, contextualizou Luma ao bahia.ba.

    Ao longo de oito minutos, a diretora aborda, em uma atmosfera sensorial, a história da protagonista, em que a imagem e o som conduzem a narrativa, sem necessidade de diálogos. “Trabalhamos muito com texturas, movimentos sutis e metáforas que conectam corpo e natureza”, disse.

    No total, o projeto levou cerca de um ano para ser produzido, entre pré-produção e finalização. Já o processo de desenvolvimento e escrita do roteiro, até a captação de recursos, levou quase 3 anos.

    Imagem do filme Como Nasce um Rio

     

    Perguntada sobre a importância de se abordar a autodescoberta sexual e aceitação, através deste formato, a diretora diz que é um meio muito “potente” para tratar este tipo de temática. “Ela permite representar o invisível e o imaginário de um jeito que o cinema live-action muitas vezes encontra limitações. Sinto que as representações LGBTQ+ na animação ainda são limitadas, então há também um desejo de trazer narrativas mais diversas e representativas neste campo”, expressa Luma.

    Para a animadora, o maior desafio foi equilibrar a limitação do orçamento com o desejo estético do filme. “Trabalhar com animação não é barato, e principalmente quando se trata de produções independentes, é quase sempre um exercício de adaptação, entender o que é possível realizar sem comprometer a essência da obra”, pontuou.

    O filme totalmente produzido na Bahia será exibido no Animaí deste ano, e a cineasta celebra como um espaço “muito importante”. “Nosso filme foi feito aqui, com uma equipe majoritariamente baiana, então é muito especial vê-lo dialogando com esse público”, celebra.

    “Rodar o mundo com o filme também tem sido uma experiência linda. Até o momento foram 60 festivais selecionados, sendo 35 internacionais. Então, perceber que essa narrativa é capaz de se conectar com pessoas de lugares tão diferentes é bem gratificante, além de projetar a animação brasileira no cenário global”, conclui Luma.