Como uma criança aprende o que é bonito, aceitável ou desejável? A resposta, para a escritora baiana Cecília Barros, passa pela família, pela escola, pelos brinquedos, pelos livros e por tudo aquilo que é apresentado como referência desde os primeiros anos de vida.
Foi dessa inquietação que nasceu “Ina – Mistura das Cores”, livro infantojuvenil lançado pela artista e educadora durante o Festival Literário e Cultural de Feira de Santana (FLIFS). A obra acompanha uma personagem que descobre diferentes formas de existir e pertencer, enquanto aborda questões como diversidade étnico-racial, padrões de beleza, colorismo e ancestralidade.
Em entrevista ao bahia.ba, Cecília explicou que o ponto de partida foi perceber como determinadas referências podem interferir na construção da identidade ainda na infância.

“A criança está inserida em um mundo que comunica o que é considerado bonito, desejável e aceitável. Isso está presente na família, na escola, na mídia, nos brinquedos, nos desenhos, nos livros e em tantos outros espaços de socialização”, afirmou.
Quando a diferença vira comparação
Para a autora, o problema não está no fato de uma criança perceber que as pessoas são diferentes, mas na maneira como a sociedade ensina a interpretar essas diferenças.
“Quando determinados padrões passam a ocupar um lugar de referência de beleza, a criança pode começar a comparar a própria aparência com aquilo que lhe é apresentado como ideal”, explicou.
Cecília cita como exemplo a presença ainda limitada de bonecas negras e a dificuldade de acesso a alguns desses produtos. Ela também chama atenção para a permanência de um imaginário infantil marcado por princesas de cabelos lisos e loiros.
“Mesmo quando existem representações negras, ainda estamos diante do desafio de ampliar essa presença e torná-la efetivamente acessível”, pontuou.
Apesar dos temas complexos, a autora afirma que não quis transformar o livro em uma aula sobre racismo ou colorismo. O caminho escolhido foi usar literatura, imagens e relações entre personagens para permitir que a própria criança formule perguntas.
“Ela pode perceber que existem diferentes tons de pele, diferentes características, diferentes histórias e diferentes formas de beleza. Pode se reconhecer em uma personagem e também reconhecer o outro”, disse.
“Misturar as próprias cores”
O título também carrega uma metáfora que atravessa toda a proposta da obra. Para Cecília, “misturar as próprias cores” significa reconhecer que ninguém precisa caber em uma única definição.

“É uma metáfora para reconhecer as diferentes dimensões que constituem cada pessoa: sua aparência, sua história, suas relações, suas referências, sua ancestralidade, seu território, suas experiências e a comunidade em que está inserida”, explicou.
A discussão também alcança a escola. “Ina – Mistura das Cores” dialoga com as diretrizes das leis que estabelecem o ensino das histórias e culturas afro-brasileiras e indígenas na educação brasileira.
Na avaliação da autora, um dos desafios ainda está na formação dos próprios profissionais da educação e na maneira como os currículos são construídos.
“Muitas vezes, as decisões curriculares acontecem de forma vertical, sem considerar quem está no cotidiano da sala de aula, sem conhecer os estudantes, as famílias e o território em que a escola está inserida”, afirmou.
Cecília defende uma aproximação maior entre escolas, universidades, comunidades, artistas, escritores e pesquisadores negros e indígenas.
“Não se trata apenas de levar conhecimento para a escola. É preciso também saber escutar, aprender com o território e construir possibilidades de troca”, destacou.
Livro foi produzido de forma independente
Da escrita às ilustrações, revisão e edição, todo o processo de “Ina – Mistura das Cores” foi conduzido de forma independente pela própria autora e levou menos de dois meses.
Cecília conta que não pensou em desistir, algo que relaciona também à própria experiência como pessoa no espectro autista e ao hiperfoco.
“Quando entro nesse estado de concentração, existe uma força muito grande voltada para a realização e a conclusão do trabalho. A possibilidade de desistir praticamente não entra nesse processo”, contou.
O maior desafio apareceu quando chegou o momento de transformar o projeto em um livro físico.
“A impressão foi um momento muito significativo para mim: era a passagem da obra que existia na minha criação para a obra que finalmente poderia existir no mundo como objeto, como livro”, afirmou.
A neurodivergência não é o tema central da história, mas atravessa a forma como Cecília constrói a personagem e observa o cotidiano.
“Não existe uma única maneira de perceber, sentir, aprender, criar ou estar no mundo. A diferença não precisa ser corrigida, apagada ou transformada em inadequação para que alguém possa pertencer”, disse.
Rede busca aproximar crianças dos livros
Para ampliar a circulação da obra, Cecília criou a Rede de Elos Literários, projeto que propõe vivências em escolas com leitura, atividades artísticas e momentos de autorreconhecimento.
A experiência começa antes da possibilidade de compra do livro. Durante os encontros, as crianças participam da leitura, conversam sobre a história, utilizam espelhos como instrumento de reconhecimento e podem produzir autorretratos com tinta, pincel e giz de cera.
Depois, quem tiver interesse pode participar de uma dinâmica para adquirir o exemplar por meio de dez “elos”, cada um correspondente a uma contribuição de R$ 5 feita por familiares, amigos ou pessoas da comunidade.
A autora ressalta, porém, que a compra não é uma condição para participar.
“Para mim, é fundamental que uma criança não seja excluída de uma experiência literária porque sua família não pode comprar um livro ou porque ela não tem uma rede de pessoas que possa mobilizar. A literatura precisa chegar à criança antes de qualquer possibilidade de aquisição”, explicou.
A Rede de Elos Literários ainda está em fase de implementação e busca escolas interessadas em receber a proposta.
A circulação de “Ina – Mistura das Cores” segue durante setembro, com atividades em Feira de Santana e no território Payayá, em Utinga, na Chapada Diamantina.
Ao pensar no que gostaria que uma criança levasse consigo depois da leitura, Cecília resume o espírito da obra em uma pergunta e uma resposta.
“Será que existe um lugar no mundo onde eu possa simplesmente ser quem eu sou?”, imagina.
E responde: “Sim, pode. Você não precisa deixar de ser quem é para caber no olhar de ninguém.”

