
A jornalista paraguaia Mina Feliciángeli surpreendeu os espectadores ao anunciar, ao vivo, a saída do grupo de comunicação onde trabalhava em meio à crise envolvendo o Ueno Bank. Aos 67 anos, a comunicadora afirmou que não poderia continuar no veículo enquanto questionava publicamente a atuação do proprietário da empresa, que também controla a instituição financeira.
A despedida aconteceu na terça-feira (3), durante o programa “Mina en la Tribu”, transmitido pela rádio La Tribu 650 AM e pelo canal Unicanal. As emissoras fazem parte da V-Media, conglomerado pertencente ao Grupo Vázquez, ligado ao empresário Miguel Vázquez, também proprietário do Ueno Bank.
“Eu não sei fingir demência, gente. E isso que foi feito é uma barbaridade. Então, eu não posso continuar aqui”, afirmou.
Mina explicou que considerava incompatível permanecer no grupo enquanto fazia críticas à condução da crise bancária.
“Por uma questão de educação, eu não posso ficar aqui e falar mal do dono do lugar onde eu trabalho. E, na verdade, há muita responsabilidade, sem dúvida alguma, do dono deste veículo, que é também, ao mesmo tempo, dono do Ueno Bank”, declarou.
GENTE? Jornalista do Paraguai pede DEMISSÃO AO VIVO após descobrir que o dono da emissora está ligado ao escândalo financeiro que abalou o país:
“Não posso ficar aqui e falar mal do dono do lugar onde trabalho… há muita responsabilidade do dono deste veículo [de comunicação], que é ao mesmo tempo dono do Ueno Bank […] 3 MILHÕES de paraguaios somos vítimas dessa grande FRAUDE!”
— UpdateCharts (@updatecharts) November 6, 2026
Quem é Mina Feliciángeli
Mina é um dos nomes mais conhecidos do jornalismo político do Paraguai. A comunicadora acumula cerca de quatro décadas de atuação em rádio e televisão e já entrevistou presidentes paraguaios e outras figuras políticas internacionais ao longo da carreira. Ela também teve atuação política e militância por direitos humanos durante a ditadura de Alfredo Stroessner.
Em agosto deste ano, a jornalista havia retornado ao Unicanal com o programa “Mina en la Tribu”, exibido diariamente em parceria com a rádio La Tribu. Ao anunciar a saída, Mina também revelou que estava entre os clientes afetados pela crise do banco e pediu que as autoridades priorizassem a devolução dos recursos aos correntistas.
Jornalista se demite ao vivo em meio à crise do Ueno Bank
O Banco Central do Paraguai iniciou, em 3 de novembro, o procedimento de resolução do Ueno Bank depois de constatar que o índice de solvência da instituição havia caído para menos de 50% do mínimo exigido pelas regras do sistema financeiro.
A medida suspendeu operações da instituição e deixou milhões de clientes temporariamente sem acesso pleno aos recursos depositados. O Ueno tinha cerca de 3 milhões de clientes em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes.
Segundo o Banco Central, os depósitos contam com proteção do Fundo de Garantia de Depósitos até o equivalente a 228,3 milhões de guaranis por cliente. O órgão iniciou nesta quinta-feira (5) a primeira etapa de pagamentos para correntistas enquadrados nas regras estabelecidas.
O caso extrapolou o sistema financeiro e mergulhou o Paraguai em uma crise política. O Ueno Bank administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, e o presidente Santiago Peña vinha sendo acusado por parlamentares de conflitos de interesse e falhas na fiscalização da instituição. Peña negava irregularidades.
Na quinta-feira (5), o presidente anunciou a renúncia ao cargo em meio à pressão política provocada pelo colapso do banco e à abertura de um processo de impeachment no Congresso.
Foi no início dessa crise, antes mesmo da renúncia presidencial, que Mina decidiu deixar o programa.
“Eu vim para me despedir de vocês e de toda a audiência que nos segue com tanto carinho”, disse a jornalista antes de anunciar a decisão ao vivo.
