VÍDEO: Matheus Buente une humor e história em novo espetáculo

    O nome do espetáculo surgiu de um trocadilho com o próprio nome do humorista

    Foto: Aline Gama / bahia.ba

    Professor de História e humorista, Matheus Buente leva para os palcos questões sociais, experiências pessoais e reflexões construídas a partir de sua formação acadêmica. Em entrevista ao bahia.ba, ele falou sobre a trajetória entre a sala de aula e a comédia, os limites do humor, o cenário cultural da Bahia e o espetáculo “O Problema é Theu”, que será apresentado em Salvador nos dias 19 e 20 de setembro.

    O nome do espetáculo surgiu de um trocadilho com o próprio nome do humorista. Segundo Buente, a proposta é abordar situações que considera problemáticas e levá-las ao público de maneira bem-humorada.

    “Então são os meus problemas, não necessariamente tem que ser os problemas da plateia. São coisas que me incomodam e que eu acho importante serem discutidas”, afirmou.

    Cria da CBX e magistério

    Criado na Cidade Baixa, em Salvador, Buente destacou que se apresentar na capital baiana permite estabelecer uma relação diferente com o público por causa das referências compartilhadas. Ele citou bairros como Bonfim, Caminho de Areia e Uruguai ao falar sobre sua ligação com a cidade.

    “Eu acho que a comédia, ela tem muito de identificação, né? De você conseguir se enxergar naquelas situações e por isso muitas vezes fica mais engraçado”, disse.

    Antes de transformar o humor em sua principal atividade profissional, Buente trabalhou durante 15 anos como professor, sendo dez deles na educação pública. Ele também passou pelas redes estadual e municipal de ensino. A entrada na comédia, segundo contou, ocorreu inicialmente como um hobby, depois de começar a acompanhar apresentações de stand-up e se aproximar de humoristas que já atuavam em Salvador.

    Com a repercussão de vídeos nas redes sociais e o surgimento de novos trabalhos, a comédia passou a representar uma parcela maior de sua renda. Apesar do afastamento da sala de aula, Buente afirma que continua atuando na área de educação, inclusive por meio de formação de professores, palestras e atividades voltadas à abordagem histórica de temas sociais.

    A experiência como professor também passou a ocupar espaço na construção de seu trabalho artístico. Buente contou que, inicialmente, enxergava as duas atividades de forma separada, mas passou a incorporar elementos da História às apresentações.

    “Se tornou um diferencial do meu trabalho. Que a galera vai rir, vai dar risada sim porque é um show de comédia, mas também vai sair de lá pensando em algumas questões”, afirmou.

    Para o humorista, a comédia pode funcionar como ponto de partida para debates, inclusive sobre temas considerados sensíveis. “Eu sempre defendo, eu acho que eu vou morrer defendendo, que a comédia é um ótimo iniciador de conversas. A comédia não vai propor nunca a solução, mas ela pode começar a conversa, disparar o debate”, declarou.

    Cuidado com os textos humorísticos

    Durante a entrevista, Buente também defendeu cuidados na construção de conteúdos humorísticos para evitar a reprodução de preconceitos e estereótipos. Segundo ele, artistas e produtores de conteúdo precisam refletir sobre aquilo que apresentam ao público.

    “Eu acho que a preocupação tem que ser em não ser criminoso. Não ficar ali perpetuando estereótipos negativos das pessoas”, disse. Em outro momento, acrescentou: “É tão importante quanto você querer correr atrás da sua vitória financeira, da sua emancipação, de ter ali um perfil de rede social engajado, é tomar cuidado com o que você está falando.”

    Buente também relacionou o alcance do humor à responsabilidade de quem produz conteúdo nas redes sociais. Ao abordar manifestações preconceituosas apresentadas como piadas, afirmou que considera necessário que artistas estabeleçam de maneira clara os princípios que orientam a própria comunicação.

    Na avaliação do humorista, discursos que reproduzem racismo, misoginia e homofobia podem ganhar alcance quando apresentados em formatos de entretenimento. Ele defendeu, nesse contexto, que os profissionais busquem formação e reflexão sobre o conteúdo produzido.

    “É importante pedir consciência para o artista, para o artista estudar, para o artista correr atrás de refinar o seu material não só pela audiência, mas pela consciência do que está sendo feito”, afirmou.

    A conversa também abordou as relações pessoais e a forma de reagir a piadas consideradas preconceituosas em ambientes de convivência. Para Buente, uma alternativa é questionar a própria fala e permitir que a pessoa reflita sobre aquilo que disse. Ele também destacou a possibilidade de abordar o assunto de forma reservada quando houver proximidade entre os envolvidos.

    Prêmio Paulo Gustavo

    Outro tema da entrevista foi o Prêmio Paulo Gustavo, recebido por Buente. Segundo o humorista, a indicação foi feita pela deputada Lídice da Mata, integrante da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. Buente afirmou que inicialmente chegou a desconfiar do contato sobre a premiação.

    “Eu não esperava, não esperava mesmo, de verdade, até quando chegou a indicação, eu levei dias para responder porque eu achei que era trote”, contou.

    Segundo Buente, o reconhecimento teve impacto sobre sua trajetória artística e serviu como incentivo para dar continuidade ao trabalho. “Eu nunca tinha ganhado um prêmio. Então foi muito foda, foi muito legal, muito interessante, assim, encantador mesmo e deu coragem, né? Para continuar”, afirmou.

    Mercado baiano

    Ao tratar do mercado cultural da Bahia, o humorista avaliou que artistas locais ainda enfrentam dificuldades para encontrar espaços de apresentação e para manter financeiramente seus trabalhos. Na opinião dele, políticas públicas voltadas à cultura poderiam contemplar uma variedade maior de manifestações artísticas e ampliar as possibilidades de remuneração.

    “Acho que falta uma política cultural que abrace mais diferentes tipos de arte e que viabilize essas artes financeiramente para que seja feito um bom trabalho e esse bom trabalho seja bem remunerado”, declarou.

    Buente também defendeu iniciativas voltadas à formação de público e a existência de espaços menores, com capacidade para receber apresentações a preços mais acessíveis. Segundo ele, custos elevados podem dificultar o acesso de parte da população a espetáculos e outras atividades culturais.

    “Não precisa ser R$ 500, mas também não tem que ser tudo de graça. A gente precisa achar um meio-termo”, afirmou.

    O humorista citou ainda artistas e grupos da Bahia ao falar sobre a produção cultural do estado e sustentou que o problema não está na falta de talentos, mas nas dificuldades para manutenção de espaços e espetáculos. Para Buente, estruturas menores e com programação constante podem permitir que o público conheça artistas que ainda não alcançaram grande projeção.

    “Tem gente que é famosa, não é talentosa, tem gente que é talentosa e não é famosa”, afirmou. Na sequência, defendeu que artistas que ainda não alcançaram notoriedade também tenham condições de viver do próprio trabalho.

    Ao final da entrevista, Buente convidou o público para as apresentações de “O Problema é Theu”, marcadas para os dias 19 e 20 de setembro, em Salvador. O humorista afirmou que o espetáculo reúne a proposta que passou a orientar sua atuação profissional: combinar o entretenimento com questões que possam provocar reflexão no público.

    Veja entrevista completa: