Publicado em 21/04/2026 às 10h00.

‘Michael’ emociona com música e nostalgia, mas peca na superficialidade

Cinebiografia impressiona nas recriações e na atuação de Jaafar Jackson, mas evita controvérsias

João Lucas Dantas
Pôster do filme

 

A história do eterno Rei do Pop ganha vida nova na cinebiografia Michael, dirigida por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento), que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (23).

Michael Jackson, interpretado por seu sobrinho Jaafar Jackson, tem sua história reconstruída nesta primeira parte, que vai das origens do Jackson 5 até o período da turnê Bad, no final dos anos 80.

Um dos maiores artistas do mundo, Michael continua forte no imaginário popular ao redor de todo o planeta, mesmo após 17 anos de sua morte, e a adaptação cinematográfica é um retrato dessa febre musical que nunca sai de moda.

Ao mesmo tempo, o filme, que contou com um grande envolvimento da família Jackson, se acovarda ao fugir das polêmicas em torno da excêntrica figura que era o cantor, além de deixar de lado elementos importantes, como a presença de Janet Jackson, irmã que não é sequer mencionada ao longo das 2 horas e 7 minutos.

O Rei do Pop nos cinemas

O longa retrata a vida e o legado do cantor, desde a descoberta de seu espetacular talento como líder do Jackson 5 até o impacto cultural de sua visão artística ímpar.

Para além da música, este drama biográfico traça as ambições criativas de um homem que buscou ativamente se tornar um dos maiores artistas do mundo, destacando os passos dados por Jackson fora dos palcos. Performances icônicas de sua carreira solo, ainda, compõem esse retrato íntimo e nunca antes visto do artista.

Mesmo sendo “chapa branca” em relação às questões mais delicadas envolvendo a vida pessoal do músico, a direção de Fuqua e o roteiro de John Logan aplicam grande energia na recriação dos épicos musicais, como o álbum que deu um grande pontapé na sua carreira solo, Off the Wall, de 1979, e as gravações dos clipes do álbum Thriller, de 1982, o disco mais vendido da história da música.

Com canções e momentos tão cravados na memória popular e na história da música, a versão de Fuqua, protagonizada por Jaafar, nos transporta direto para aqueles períodos, e fica impossível para quem acompanhou Michael em tempo real não se arrepiar.

Jaafar Jackson como Michael Jackson em Michael. Foto: cortesia da Lionsgate.

Um filme dividido

Por outro lado, o filme se divide muito entre dois grandes pilares: a relação extremamente conturbada da família, principalmente de Michael, com o patriarca Joe Jackson, interpretado de forma muito competente pelo sempre excelente Colman Domingo (Euphoria), e as recriações musicais.

Como é de conhecimento público, os abusos de trabalho infantil e a violência foram elementos muito presentes na criação de Michael Jackson, oriundos, principalmente, de seu pai. E, claro, isso dá a maior carga emocional e motivação ao protagonista no longa.

Porém, ao voltar as atenções aos momentos musicais, o filme parece se tornar uma espécie de colagem de videoclipes que pode agradar muito aos fãs mais assíduos do cantor, com recriações verdadeiramente impressionantes, mas perde o fôlego e faz o espectador pensar que já viu tudo aquilo antes. Porque, de fato, já viu.

Jaafar Jackson como Michael Jackson em Michael. Foto: cortesia da Lionsgate.

O visual carregado e a escolha de Jaafar

Um dos elementos visuais que podem chamar a atenção ao longo do filme são as maquiagens pesadas em alguns personagens, especialmente no Joe Jackson de Colman Domingo.

Isso pode causar algum estranhamento inicial nos espectadores, assim como a própria caracterização de Michael, que aqui é favorecida pelo fator genético de se tratar do sobrinho real do cantor, que guarda certa semelhança natural com o tio.

Jaafar Jackson foi escolhido para interpretar Michael Jackson após um processo de testes que durou cerca de dois anos. A produção buscava alguém que tivesse não só semelhança física, mas também capacidade de cantar e dançar como o artista.

O que pesou muito na decisão foi o fato de Jaafar ser sobrinho de Michael (filho de Jermaine) e já ter experiência com música e performance. O diretor Antoine Fuqua destacou que ele tinha uma semelhança “impressionante” e conseguia reproduzir voz, movimentos e presença de palco do tio.

Além disso, a escolha teve apoio da própria família Jackson, incluindo Katherine, e da equipe do filme, que queria dar mais autenticidade ao projeto. Depois de escolhido, Jaafar ainda passou por um preparo intenso para incorporar o papel, que marca sua estreia como ator.

E é uma ótima estreia. De fato, ele reproduz muito bem os trejeitos, a voz e dança perfeitamente os movimentos originais das músicas, transportando o público de volta para as décadas de 1970 e 1980, revivendo aquele fervor e a histeria em torno de Michael Jackson, algo que só deve ter comparação histórica com a Beatlemania.

Foto: Glen Wilson/ Lionsgate

Ritmo intenso

A montagem dá um ritmo intenso ao filme e faz com que as 2 horas passem rápido, apesar de se tornar um pouco frenética demais nos momentos em que poderíamos estar apreciando com mais calma as sequências de dança, especialmente na apresentação da Motown 25, que se torna pouco impactante.

A fotografia de Dion Beebe funciona bem. É um filme colorido, sempre voltando os holofotes ao seu protagonista, mesmo que, em alguns momentos, soe plástico demais.

Foto: Glen Wilson/ Divulgação

Conclusão

No fim das contas, Michael funciona melhor como celebração do mito do que como investigação do homem por trás da lenda. A direção de Antoine Fuqua aposta na grandiosidade e no impacto visual para revisitar momentos icônicos da carreira de Michael Jackson, e encontra em Jaafar Jackson um intérprete capaz de sustentar essa proposta com segurança.

Ainda assim, ao evitar zonas mais complexas da vida do artista, o filme opta por um caminho mais seguro e, por consequência, menos profundo.

Mesmo com essas limitações, o longa deve agradar principalmente aos fãs, que encontrarão ali uma recriação cuidadosa de momentos que marcaram gerações. Para o público geral, fica a sensação de um espetáculo competente, mas que poderia ir além do tributo e se arriscar mais como obra dramática.

Entre acertos técnicos, nostalgia e escolhas conservadoras, o filme se consolida como um retrato eficiente — ainda que incompleto — de um dos maiores ícones da cultura pop. Nos resta saber o que nos aguarda na continuação.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Repórter no portal Bahia Econômica. Atualmente, repórter de Cultura no portal bahia.ba. DRT: 7543/BA

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