
Foto: Warner Bros. Pictures
As telas de cinema voltam a servir como arenas sangrentas com a estreia de Mortal Kombat II, sequência da adaptação da famosa franquia de videogames que ganhou um novo capítulo em 2021, reiniciando a trajetória nos cinemas após as versões da década de 1990.
Com estreia nesta quinta-feira (7), e novamente dirigido por Simon McQuoid, cujo único outro trabalho é o primeiro filme da franquia, a continuação abraça de vez a estética e o modelo de narrativa que imortalizaram Mortal Kombat, mas faz tudo parecer pasteurizado e sem cor, sustentando suas quase duas horas de duração no carisma de seus protagonistas.
Personagens icônicos
Aqui, personagens clássicos estão de volta e novos ganham espaço nos cinemas pela primeira vez. Liu Kang, Sonya Blade, Kano e, agora, com as adições de Shao Kahn, Johnny Cage, Baraka e Kitana. Menções honrosas para as participações de Scorpion e Sub-Zero.
Para quem está familiarizado com o universo criado por Ed Boon em 1992, que já soma mais de três décadas de jogos e diversas versões lançadas, pode ser um deleite ver seus personagens favoritos desferindo as frases de efeito que os consagraram e ganhando vida em lutas sangrentas — ainda que com pouca imaginação nas coreografias ou na construção de momentos realmente marcantes.
O elenco acaba sendo o ponto forte da experiência. Karl Urban, que já estrelou franquias como Senhor dos Anéis, Star Trek, produções da Marvel e a série The Boys, adiciona mais um grande título à carreira com seu carismático Johnny Cage. Uma pena que o roteiro e a direção não façam jus ao seu magnetismo.
Já os colegas de cena oscilam bastante. Para cada nome de peso, como o japonês Hiroyuki Sanada, conhecido por O Último Samurai, que retorna como Scorpion, há desempenhos mais fracos, como o de Jessica McNamee, vista em Megatubarão, que entrega uma Sonya Blade pouco expressiva.

Foto: Warner Bros. Pictures
Roteiro raso
Um filme de Mortal Kombat pode até funcionar como entretenimento, mas é necessário ajustar as expectativas. Convenhamos que não há como esperar muito de um roteiro de uma franquia de jogos que é conhecida, sobretudo, pelas inovações em suas mecânicas de combate.
A história aqui, elaborada pelos roteiros de Jeremy Slater (da série Cavaleiro da Lua), além de John Tobias e Ed Boon (criador dos jogos), é rasa e extremamente maniqueísta.
Os campeões do Reino da Terra (Earthrealm), agora acompanhados pelo ator decadente Johnny Cage, enfrentam-se em batalhas decisivas para impedir o domínio de Shao Kahn, que ameaça a própria existência do planeta.
Ainda que o filme simplifique essa dinâmica, na mitologia da franquia a dominação de reinos se dá por meio da vitória em torneios de Mortal Kombat.
Shao Kahn, interpretado por Martyn Ford, conhecido por Kingsman: O Círculo Dourado, é retratado como um vilão implacável, disposto a eliminar qualquer um que cruze seu caminho. Ao lado de seus aliados, ele se opõe aos guerreiros do Reino da Terra, que lutam para salvar o planeta a qualquer custo.

Foto: Warner Bros. Pictures
Agradar aos fãs é suficiente?
Sem dúvidas, a produção leva em consideração aquilo que os fãs esperam ver nas telonas. As clássicas frases de efeito — muitas delas mantidas em inglês, como “finish him” e “get over here” — marcam presença, assim como o icônico tema “Techno Syndrome”, do grupo The Immortals.
Por um lado, é uma escolha segura. Sabe-se que parte do público sairá satisfeita apenas pelo fator nostálgico. Por outro, isso não é suficiente para sustentar um bom filme.
A direção de fotografia de Stephen F. Windon, que já trabalhou na franquia Velozes & Furiosos, é pouco inspirada, com cenas escuras e uso excessivo de fundo digital, reflexo também de efeitos visuais inconsistentes, que acabam reforçando a falta de criatividade na condução de McQuoid.
Há ainda diversas incoerências no roteiro, especialmente envolvendo Johnny Cage, que, apesar de humano, possui habilidades especiais na mitologia da franquia — algo pouco explorado aqui.
Nos primeiros 40 minutos, os acontecimentos se desenrolam de forma apressada, antecipando os combates enquanto o filme ainda tenta se levar a sério, mesmo com Cage funcionando como alívio cômico.

Foto: Warner Bros. Pictures
Abraçando a loucura
Em determinado momento, especialmente após o encontro com Baraka, o filme parece abandonar a tentativa de ser levado a sério e abraça de vez o tom exagerado característico da franquia. É quando surgem lampejos de criatividade e uma ação mais estilizada, remetendo aos filmes de ação das décadas de 1980 e 1990.
No fim das contas, Mortal Kombat II até encontra algum fôlego quando aceita sua própria natureza exagerada, mas passa boa parte do tempo preso a uma tentativa pouco convincente de ser um blockbuster sério.
Entre acertos pontuais e muitas limitações criativas, o filme acaba funcionando mais como um agrado nostálgico para fãs do que como uma adaptação realmente marcante — reforçando que, assim como nos jogos, o espetáculo importa, mas aqui falta impacto para que o golpe final seja realmente memorável.
Em tempo: se você quer realmente assistir algo digno de Mortal Kombat, procure Os Aventureiros do Bairro Proibido, de 1986, dirigido pelo mestre John Carpenter, que é, inclusive, citado neste filme.

