Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde. Atuou como assessor de imprensa na Viva Comunicação Interativa, produzindo conteúdo para Luiz Caldas e Ilê Aiyê, e também na Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador. Repórter no portal Bahia Econômica. Atualmente, repórter de Cultura no portal bahia.ba.
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Publicado em 15/12/2025 às 15h00.
No devastador ‘Hamnet’, a maior tragédia é a vida do próprio Shakespeare
Novo filme de Chloé Zhao transforma o luto em um retrato íntimo e doloroso sobre a criação de Hamlet
João Lucas Dantas

Foto: Focus Features
“Será mais nobre em nosso espírito sofrer pedras e setas com que a fortuna, enfurecida, nos alveja, ou insurgir-nos contra um mar de provocações e, em luta, pôr-lhes fim?”. A célebre frase de William Shakespeare ganha novos contornos ao conhecermos as motivações de sua criação na tragédia biográfica conduzida por Chloé Zhao (Eternos), em Hamnet – A Vida Antes de Hamlet.
O filme, que estreia nos cinemas brasileiros em 15 de janeiro de 2026, narra a história do casal Agnes e William Shakespeare, vividos de forma brilhante por Jessie Buckley (A Filha Perdida) e Paul Mescal (Aftersun), enquanto lidam com a perda de seu único filho, Hamnet.
Mescal, um ator oriundo do próprio teatro shakespeariano inglês, vem se destacando cada vez mais com grandes papéis nos cinemas, e aqui parece estar muito à vontade, colocando em cena tudo o que treinou para ser como ator.

Foto: Focus Features
A tragédia da vida real
O cinema, às vezes, nos leva a lugares muito difíceis. Podemos entrar em uma sala e ver protagonistas fugindo de assassinos, perdendo entes queridos ou enfrentando batalhas que a lógica jamais explicaria, despertando as mais diversas reações, das mais alegres às emoções mais sensíveis. É o caso de Hamnet.
Dizem que todas as histórias contadas pós-Shakespeare são, de alguma forma, Shakespeare. Não é fácil discordar. Hamlet, Romeu e Julieta, Rei Lear e tantas outras peças icônicas moldaram grande parte do imaginário popular mundial e estabeleceram tropos que seguem sendo utilizados até hoje, mesmo que indiretamente.
Durante duas horas, somos transportados para o interior da Inglaterra do século XVI. Embora o ponto de partida seja a criação de Hamlet, a verdadeira protagonista é Agnes, vivida por Jessie Buckley, uma mãe de três filhos, desesperada para mantê-los a salvo em meio à Peste Negra e à ausência constante de Shakespeare, que deixa o lar para trabalhar em Londres.
A interpretação de Buckley é arrasadora e, ao mesmo tempo, profundamente apaixonante. Já apresentada como a “esquisita” da vila, logo entendemos o encantamento que exerce sobre o futuro marido e dramaturgo. Quando o tom muda para uma tragédia verdadeiramente shakespeariana, a atriz entrega um alcance emocional impressionante, tornando impossível que o espectador saia ileso da experiência.

Foto: Focus Features
A sensibilidade de Chloé Zhao
É um filme devastador. A direção de elenco, as escolhas estéticas e as rimas visuais promovidas por Chloé Zhao indicam que este é, possivelmente, seu trabalho mais maduro. Após já ter demonstrado seu talento em Nomadland (vencedor do Oscar de 2021), a cineasta aqui eleva ainda mais o nível.
Os atores mirins que interpretam os filhos do casal são um achado raro. Mesmo tão jovens, entregam performances convincentes e profundamente emocionantes.
Em diversos momentos, quando o longa parece flertar com o risco de se tornar piegas, ele se reencontra, através do melodrama, para despertar emoções genuinamente humanas ligadas à maternidade, à paternidade e ao amor entre irmãos, algo genuinamente bonito de se ver.
Grande mérito do roteiro, assinado pela própria Zhao e baseado no livro homônimo de Maggie O’Farrell, que também coescreve o filme, é fazer com que o público se importe com seu núcleo principal desde o início. São personagens carismáticos, afetuosos, com falhas compreensíveis.
A ausência frequente do Shakespeare interpretado pelo sempre ótimo Paul Mescal é sentida, mas amplamente sustentada pela força de sua parceira de cena. Em determinadas passagens, especialmente na metade do filme, é praticamente impossível não ouvir fungadas e soluços da plateia em uma sala de cinema.
A trilha sonora calma sempre dita o tom certo, sem abusar dos sentidos interpretativos dos espectadores, encabeçado pelo maestro Max Richter, que acerta ao transformar a música como parte essencial da crescente emocional do filme.
Já a direção de fotografia de Lukasz Zal, cria algumas imagens muito bem montadas, que rimam perfeitamente com a poesia do longa e do próprio dramaturgo.

Foto: Focus Features
A ferida que não cicatrizou
É antinatural que um pai ou uma mãe tenha de enterrar o próprio filho. Para Shakespeare, essa foi uma ferida que jamais parece ter cicatrizado. Uma tragédia pessoal tão profunda que apenas o teatro poderia servir de válvula de escape, permitindo-lhe sentir a presença do filho mais uma vez.
Trata-se de uma jornada emocional intensa, que perde um pouco de ritmo após alguns acontecimentos centrais, mas se recupera ao final, para evidenciar o poder transformador da arte e a forma singular com que um gênio lidou com o luto, dando origem a uma das maiores obras da história da dramaturgia.
Não é um filme fácil, nem voltado para todos os públicos. É preciso preparo emocional — e alguns lencinhos. Ainda assim, Hamnet já desponta na temporada de premiações como um forte candidato ao Oscar 2026, chegando com seis indicações ao Globo de Ouro, nas principais categorias de drama.
Embora seja impossível prever o futuro, soa inconcebível ignorar Chloé Zhao por sua direção sensível e precisa, responsável por uma ambientação impecável, do sotaque inglês carregado de maneirismos da época aos cenários sujos e lamacentos da Inglaterra do século XVI.
Da mesma forma, deixar Jessie Buckley fora da disputa por melhor atriz seria um grande deslize. Ela domina cada cena com uma performance arrebatadora.
Hamnet é um filme do qual é impossível sair incólume. Uma montanha-russa emocional que nos mantém atentos e toca em feridas profundas. É cinema, é teatro, é uma tragédia shakespeariana sobre o próprio Shakespeare. E Hamlet, mais uma vez reinterpretado, ganha aqui um significado totalmente novo.
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