Publicado em 12/08/2026 às 12h00.

‘O Fim da Rua’ é uma aventura jurássica com alma oitentista

Novo filme entrega jornada familiar tensa e cartunesca, repleta de dinossauros

João Lucas Dantas
Pôster oficial de ‘O Fim da Rua’

 

O Fim da Rua (The End of Oak Street) é o novo filme escrito e dirigido por David Robert Mitchell, do excelente A Corrente do Mal, que retorna ao cinema hollywoodiano de grande escala com sua nova empreitada.

O longa coloca os protagonistas Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) e Ewan McGregor (Star Wars: A Ameaça Fantasma) na difícil missão de enfrentar dinossauros em um ambiente suburbano norte-americano.

A história mirabolante

A aventura, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (13), acompanha a família Platt, que vive nos subúrbios dos Estados Unidos no início da década de 1980.

Após um misterioso evento cósmico atingir a região, toda a vizinhança é inexplicavelmente transportada para um ambiente desconhecido — que se revela um mundo pré-histórico habitado por dinossauros.

O longa é uma tentativa de resgatar o espírito das grandes aventuras que marcaram as décadas de 1980 e 1990, como Os Goonies, E.T. – O Extraterrestre, Jurassic Park e até a versão original de Jumanji, em certo modo, sem contar semelhanças à dinâmica de Sinais, de M. Night Shyamalan. Se chega à altura desses citados, aí está a grande questão.

Veja o trailer:

Ambientação oitentista

A ambientação no início da década de 1980 também é um dos grandes acertos do filme. Os elementos de cenários, figurinos e, principalmente, a trilha sonora são cuidadosamente pensados para recriar o espírito daquela época, reforçando ainda mais a comparação com os grandes filmes de aventura dirigidos por nomes como Steven Spielberg.

O longa não apenas utiliza referências visuais e narrativas daquele período, mas parece compreender a identidade estética dessas produções, transformando o bairro suburbano em um espaço familiar que, diante do evento extraordinário, ganha contornos de um verdadeiro território de terror e aventura.

Sem dúvidas, é um filme despretensioso, cujo grande objetivo é divertir os espectadores, com um conceito para lá de exótico e um diretor competente que cumpre o desafio.

Talvez não vá funcionar para quem busca explicações minuciosas a respeito dos detalhes científicos, já que os acontecimentos vão se dando sem muitas justificativas.

Foto: Warner Bros./ Divulgação

Imersão pré-histórica

Assim como a família, os espectadores são transportados para uma pequena porção daquele mundo pré-histórico e, a partir desse conceito, vemos exatamente o que se busca em um filme de humanos contra dinossauros: muita correria, gritaria, o máximo de sangue que sua baixa classificação indicativa baixa permite, tensão e, para completar, um drama familiar eficiente.

O roteiro do próprio David Robert Mitchell encontra algumas facilidades no meio do caminho para solucionar os problemas dos protagonistas, o que acaba sendo o ponto mais fraco do filme.

Mesmo que o longa ganhe muita adrenalina com as aparições dos animais pré-históricos, tropeça ao tentar encontrar mecanismos mirabolantes pouco convincentes para resolver a viagem temporal.

Mas é inegável que o filme resgata esse espírito de histórias pulp, meio Viagem ao Centro da Terra ou O Elo Perdido. É uma grande aventura, cartunesca, com momentos repletos de tensão e com um elenco muito competente.

Foto: Warner Bros./ Divulgação

Dupla matadora

Anne Hathaway e Ewan McGregor estão ótimos como um casal em crise que precisa se unir em meio ao desespero, ao lado dos seus filhos, interpretados pelos também competentes Christian Convery (Sweet Tooth) e Maisy Stella (Meu Eu do Futuro).

Mas aqui a matriarca de Hathway se destaca. É o grande ponto focal ao longo das 1h40 minutos de duração e ela entrega uma personagem memorável, digna de grandes heroínas de ação.

O núcleo familiar é o coração e a alma do filme, já que acompanhamos o espaço delimitado de um único bairro, onde a maioria dos coadjuvantes acaba virando comida das espécies carnívoras, de formas bem criativas.

A dinâmica entre os personagens funciona justamente porque o filme não parte de uma família perfeita. Existe uma crise anterior ao surgimento dos dinossauros, e a situação extrema obriga os personagens a enfrentarem seus próprios problemas enquanto tentam sobreviver.

Foto: Warner Bros./ Divulgação

Efeitos visuais competentes

Em um filme como este, o trabalho de efeitos visuais se torna um grande ponto de atenção, e cumprem bem o papel. Fica o destaque para a opção por uma abordagem mais cientificamente acurada dos dinossauros, em que muitos deles aparecem com uma camada de penas, como vem sendo apontado há alguns anos pela paleontologia.

A computação gráfica é bem produzida e satisfatória, que colabora com a imersão da plateia nesta história fantasiosa.

As criaturas funcionam tanto como ameaça quanto como espetáculo, e o longa sabe aproveitar a presença dos dinossauros para criar sequências de ação que, mesmo sem reinventar o gênero, entregam aquilo que o público veio buscar.

A trilha sonora fica por conta do compositor Michael Giacchino, que também está em cartaz com as músicas do novo Homem-Aranha, e que, aqui, faz mais um bom trabalho ao costurar os momentos de tensão e empolgar nas partes mais cheias de ação.

É justamente na união entre música, fotografia, direção de arte e figurino que o filme consegue reforçar sua identidade oitentista sem parecer apenas uma coleção de referências, pelo contrário, demonstrando ares de originalidade.

Uma história com consequências reais

O diretor também consegue fazer um bom trabalho ao subverter as expectativas do público, ao entregar momentos inusitados e mostrar que nem mesmo os protagonistas estão a salvo nesse mundo selvagem.

Porém, as consequências perdem um pouco o peso ao entregar um final que não dialoga completamente com o caminho que a história vinha tomando.

Mitchell também acerta nas dinâmicas familiares que emocionam em alguns momentos de união singela, e que ganham contornos mais fortes ao utilizar bem a figura do cachorro Starbuck, que rouba a cena.

Mas também é justamente aí que o filme evidencia sua maior fragilidade, com algumas decisões que são emocionalmente importantes para o desenvolvimento dos personagens, mas o roteiro nem sempre dedica tempo suficiente para contruir as resuloções mirabolantes da maneira mais convincente.

Mitchell também se reúne com o diretor de fotografia Mike Gioulakis, que já havia assinado A Corrente do Mal, e que faz um ótimo trabalho em um filme colorido, bem iluminado e com decisões de posicionamento dos personagens e enquadramentos bastante interessantes para um blockbuster, demonstrando bons toques autorais.

Foto: Warner Bros./ Divulgação

Conclusão

O Fim da Rua pode não alcançar a força dos clássicos que busca inspiração, mas continua sendo uma tentativa muito bem sucedida, funcionando como uma grande surpresa para o mês de agosto, período que vem na esteira de lançamentos poderosos, como o supracitado Homem-Aranha: Um Novo Dia e A Odisseia.

David Robert Mitchell entende que não precisa reinventar o cinema de aventura para entregar uma experiência muito sólida.

O filme funciona melhor justamente quando abraça sua natureza pulp, cartunesca e despretensiosa, ao apresentar uma família suburbana dos anos 1980, em crise, tentando sobreviver a dinossauros enquanto o mundo ao seu redor desmorona.

Se o roteiro pode tropeçar quando tenta encontrar soluções mais elaboradas para os problemas que cria, a direção, o elenco, os efeitos visuais e a cuidadosa reconstrução de uma estética oitentista sustentam a experiência.

Mitchell parece mais interessado em recuperar uma sensação do que em reproduzir exatamente os filmes que servem de referência, e é nesse ponto que o longa encontra sua personalidade.

Em uma Hollywood cada vez mais preocupada em transformar qualquer ideia em franquia, universo compartilhado ou propriedade intelectual interminável, há algo genuinamente simpático em um filme que simplesmente apresenta uma ideia absurda e decide se divertir com ela.

E, nesse sentido, O Fim da Rua entrega exatamente aquilo que promete. Uma aventura familiar, leve, tensa, divertida e autoral, justificando a sua originalidade.

João Lucas Dantas
Jornalista com experiência na área cultural, com passagem pelo Caderno 2+ do jornal A Tarde, Viva Comunicação Interativa, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Salvador e portal Bahia Econômica. Atualmente, é repórter de Cultura no bahia.ba. Contato: jlucas9915@gmail.com

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