Tela de Volpi é destruída em trama surrealista de falsários

    Um quadro original da fase concretista do pintor, procurado pela Justiça, foi falsificado para poder ser vendido como outro

    Foto: Eva Kaiser Mori / Divulgação

    Uma tela rara do pintor Alfredo Volpi (1896-1988) foi encontrada após quase 30 anos de desaparecida. A má notícia é que ela foi destruída em uma trama pra lá de surrealista: o falsário adulterou a tela original avaliada em milhões. Ou seja, inverteu o processo e falsificou um original! Sem título, trata-se de uma composição geométrica de 70 x 140 cm, da fase concretista do pintor ítalo-brasileiro, assinada no verso.

    O quadro, que estava à venda em uma galeria de São Paulo, por R$ 12 milhões, foi pintado por cima do original. A ideia era passar por um Volpi autêntico (e, inicialmente, era) através da assinatura no verso, mas não entregar a verdadeira identidade da tela – que vinha sendo procurada pelo espólio do artista, já que se trata de uma obra roubada.

    Para proceder o disfarce, os falsários chegaram mesmo a modificar a estrutura do quadro, que era uma pintura retangular com quadrados brancos sobre fundo vermelho e virou uma tela em que os quadrados foram divididos ao meio, formando triângulos azuis e brancos sobre um fundo preto. “Estamos vivendo uma coisa inédita no Brasil, que é um quadro ser destruído para se travestir de inédito”, declarou Pedro Mastrobuono, diretor do Instituto Volpi, à Folha de SP. E completou: “Quem fez isso sabia que se apresentasse o quadro original seria alvo de uma apreensão imediata”.

    O original...
    O original…

     

    ...e o falsificado (fotos: Divulgação).
    …e o falsificado (fotos: Divulgação).

     

    O imbróglio com a obra do artista tem origem familiar. Quando ele morreu, em 1988, sua filha Eugênia Maria Volpi Pinto, ficou como inventariante. Após uma confusão em que foi acusada de não repassar os direitos autorais aos irmãos, Eugênia foi destituída do posto, mas ficou com algumas telas. Estas não podem ser vendidas, por questões legais e, na verdade, são alvo de uma verdadera caçada de busca e apreensão. Ao todo, 47 telas de Volpi são dadas como desaparecidas.

    Para o diretor do Instituto Volpi, o caso já ultrapassou a fronteira do privado para ganhar foro de interesse público. “Deixou de ser uma discussão sobre a quem pertence a obra para configurar um crime contra o nosso patrimônio cultural, o que certamente vai sensibilizar o Ministério da Cultura”, diz Mastrobuono. E também o Ministério Público, pois o quadro é objeto de um mandado de busca e apreensão. Perdem os herdeiros e perde a sociedade, que talvez nunca mais veja o quadro concreto de Volpi como ele o concebeu nos anos 1950.