Jornalista, apaixonado por comunicação e cultura, pós-graduando em Jornalismo Contemporâneo e Digital. Atualmente integra as redações do Bahia.ba e do BNews, escrevendo principalmente sobre entretenimento, mas transitando também por outras editorias. Com passagens pelos portais Salvador Entretenimento e Voz da Cidade, tem experiência em reportagem, assessoria e Social Media.
Publicado em 31/10/2025 às 15h25.
‘Dia do Saci’ e o folclore brasileiro resistem à invasão do Halloween
Enquanto o Halloween ganha força nas ruas e nas redes, especialistas defendem o resgate de símbolos nacionais como forma de preservar a identidade cultural
Edgar Luz

Enquanto vitrines, escolas e redes sociais se enchem de abóboras, fantasias e teias de aranha para celebrar o Halloween, uma outra data genuinamente brasileira também é lembrada neste 31 de outubro: o Dia do Saci-Pererê. Criada oficialmente em 2003, a celebração tem como objetivo valorizar o folclore nacional e estimular o reconhecimento da cultura popular brasileira, em contraponto à forte influência norte-americana que acompanha o Dia das Bruxas.
A proposta de instituir o Dia do Saci surgiu em São Paulo, a partir da Lei nº 11.669, como uma forma de resistência cultural. A ideia era criar uma alternativa à celebração estrangeira que, ao longo dos anos, conquistou crianças, escolas e o comércio brasileiro. A data acabou se transformando também em um símbolo de identidade nacional, uma tentativa de reafirmar que o Brasil possui seus próprios mitos, histórias e personagens mágicos.
O Saci-Pererê, figura central desse movimento, é um dos personagens mais emblemáticos do folclore brasileiro. Descrito como um menino negro, de uma perna só, com um gorro vermelho e um cachimbo, o Saci é conhecido por suas travessuras, gargalhadas e esperteza. No entanto, a origem dessa imagem está profundamente ligada ao contexto colonial e à maneira como as culturas africanas e indígenas foram representadas na literatura e no imaginário nacional.
Segundo o cientista social, mestre em Antropologia e doutorando em Estudos Étnicos e Africanos, Lucas Barbosa Lima, a criação do personagem reflete uma leitura racista das elites brancas durante o período colonial:
“A figura do Saci, descrita na literatura brasileira, tem suas raízes ainda no período colonial. Segundo a literatura, o Saci resulta da leitura racista que os brancos empregavam para inferiorizar as pessoas negras e criar uma caricatura da cultura africana e indígena”, explica.
Enquanto o Saci emergia como uma representação distorcida da cultura popular, o Halloween, que hoje domina o imaginário das festas de 31 de outubro, tem uma trajetória bem diferente.
Lucas destaca ainda que o Dia das Bruxas chegou ao continente americano bem mais tarde, por influência da imigração europeia:
“O Halloween é um pouco mais recente na América, surge devido à influência da imigração irlandesa para os Estados Unidos. Com o tempo, foi incorporado e se tornou uma grande festa cultural ligada ao capitalismo”, observa o pesquisador.
A comparação entre as duas celebrações revela muito mais do que uma simples diferença de datas ou costumes. Por trás delas estão duas visões de mundo distintas: uma marcada pela ancestralidade e resistência dos povos africanos e indígenas, e outra pautada pelo consumo e pela indústria cultural global.
Nas últimas décadas, o movimento negro e educadores comprometidos com uma pedagogia antirracista têm se empenhado em ressignificar o Saci, transformando-o de caricatura a símbolo de resistência e sabedoria popular.
“O Saci foi criado para representar de forma racista elementos culturais africanos e indígenas. Hoje, o movimento negro e pedagogos e pedagogas com compromisso antirracista e com consciência crítica ressignificaram a imagem do Saci. Entendemos que o Saci pode vir a ser a representação simbólica de uma figura que carrega a astúcia, a mandinga e a ancestralidade”, destaca Lucas Barbosa Lima.
Esse processo de ressignificação também ocorre dentro das escolas, onde cada vez mais professores tentam conciliar o encantamento das crianças pelo Halloween com o ensino do folclore brasileiro. Oficinas, contações de histórias e festivais culturais têm usado o Saci e outros personagens — como a Cuca, o Curupira e o Boitatá — como instrumentos para fortalecer a identidade nacional e estimular o interesse das novas gerações pela cultura popular.
Mas, como ressalta o cientista social, a valorização do folclore brasileiro não deve se restringir à data comemorativa.
“Hoje, não basta apenas celebrar o Dia do Saci. Precisamos tecer um fomento aos aspectos folclóricos da cultura brasileira com uma perspectiva de estimular os elementos culturais brasileiros — mas, sobretudo, de enxergá-los como positivos. Precisamos valorizar os aspectos culturais que singularizam nossa cultura, com as manifestações que são genuinamente brasileiras”, afirma.
A defesa de Lucas vai ao encontro de um debate mais amplo sobre o lugar do Brasil no próprio imaginário coletivo. Em uma cultura onde símbolos estrangeiros dominam as telas e o mercado, celebrar o Saci se torna um ato político e pedagógico, um gesto de reconhecimento da diversidade que compõe o país.
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