Publicado em 16/10/2019 às 11h53.

Após declarações machistas, comentarista da Jovem Pan é demitido

Após afirmar que "mulher deve tomar conta da casa, do marido e dos filhos", Daniel Campelo foi demitido nesta terça-feira (15)

André Carvalho
Foto: Reprodução/Jovem Pan News Fortaleza
Foto: Reprodução/Jovem Pan News Fortaleza

 

Após afirmar que “mulher deve tomar conta da casa, do marido e dos filhos” e que “quem não gostar, tire a calcinha e pise em cima”, o comentarista Daniel Campelo foi demitido da Rádio Jovem Pan de Fortaleza nesta terça-feira (15).

A declaração de cunho machista e misógino foi feita durante a transmissão da partida entre Ceará e Avaí, no domingo (13), e reiterada na segunda-feira (14) em programa da emissora. Antes da demissão, uma nota assinada em conjunto por coletivos populares, antifascistas e feministas de torcedores de diversos clubes repudiaram a explanação de Campelo.

O episódio que culminou com a demissão do jornalista teve início quando o narrador Gomes Faria perguntou a Campelo sobre a atuação da assistente Andrea Izaura Maffra Marcelino de Sá na partida entre Ceará e Avaí, disputada no Castelão, na capital cearense.

Faria disse que “as mulheres estão começando a tomar conta da arbitragem no futebol brasileiro” e questionou o comentarista sobre tal tendência. “Acho que mulher deve tomar conta é da casa. E do marido. E dos filhos”, respondeu o comentarista.

No dia seguinte, durante programa na emissora, Campelo foi além: “Não disse brincando, não. Repito aqui. Quem não gostar tire a calcinha e pise em cima. Não tenho nada com isso. Não dou satisfação porque é mulher”, declarou.

Ao ser rebatido pelos companheiros de bancada, o jornalista não perdeu a oportunidade de fazer mais uma afirmação machista. “Eu tenho meu ponto de vista. Negócio de mulher metida com macho dentro do estádio. Eu adoro mulher. Melhor do que uma mulher, só duas”, disse.

“Negócio de futebol não dá certo. Até para a mulher entrar em campo… O árbitro antes de o jogo começar vai no túnel dos jogadores, e os jogadores estão tomando banho. A mulher vai entrar lá como, com os jogadores todos pelados? É por isso que tem as marias-chuteiras”, completou.

A série de declarações misóginas motivou alguns coletivos de torcedores, sobretudo os ligados à luta pela maior presença feminina nos estádios, a escrever uma nota condenando a atitude do jornalista.

“Seus comentários mostram a sua incapacidade de estar à frente de qualquer comentário esportivo, incitam ainda mais o ódio contra as mulheres e colocam em risco a integridade das torcedoras e trabalhadoras presentes”, diz a nota, assinada por Movimento Toda Poderosa Corinthiana, Loucas por ti Corinthians, Corigão Antifa, Movimento Alvinegras (Corinthians), Resistência Azul Popular (Cruzeiro), Força Feminina Colorada (Internacional), Coletivo Democracia Santacruzense (Santa Cruz), Atleticaníssimas (Atlético-MG), Fluminense Antifascista, Brigada Marighella/Dandara (Vitória), Verdonnas (Palmeiras) e Boteco das Torcedoras.

“É intolerável e inconcebível assumir uma postura dessas empunhando um microfone. Não vai passar. Não aceitaremos. Diremos quantas vezes mais for necessário: o lugar da mulher é onde ela quiser”, concluiu o comunicado.

 

 

 

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Nota de repúdio ao comentarista Daniel Campelo, da Jovem Pan Fortaleza. O dicionário da língua portuguesa define a palavra retrógrado como “que anda para trás”. Essa é a unica forma de traduzir o comentarista Daniel Campelo No último fim de semana, durante a partida entre Ceará e Avaí, a presença de Andrea Maffra no trio de arbitragem foi notada pelo narrador da partida. Ao exaltar a presença das mulheres no esporte, ele perguntou a opinião do comentarista, que deu um banho de desrespeito, machismo, misoginia e ódio: “Não acho uma boa não. Acho que mulher deve tomar conta da casa, do marido e dos filhos”. Saiba você, Daniel, que em 2019 é INADMISSÍVEL tratar mulheres apenas como um “porta-sistema reprodutor”. Seus comentários mostram a sua incapacidade de estar à frente de qualquer comentário esportivo, incitam ainda mais o ódio contra as mulheres e colocam em risco a integridade das torcedoras e trabalhadoras presentes. Tão vergonhosa quanto a declaração do comentarista foi o posicionamento da rádio, que apenas lamentou o ocorrido. Sem punições, sem arrependimentos. Campelo conseguiu piorar o que já estava muito ruim, completando: “Eu não disse brincando não. E repito aqui. Quem não gostar, tire a calcinha e pise em cima.” No Brasil, uma mulher é morta a cada duas horas vítima de violência, segundo o Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV). Somente nos três primeiros meses de 2019, o número 180 recebeu quase 18 mil ligações. 18 mil pedidos de socorro. É intolerável e inconcebível assumir uma postura dessas empunhando um microfone. Não vai passar. Não aceitaremos. Diremos quantas vezes mais for necessário: o lugar da mulher é onde ela quiser. EDIT: A demissão de Campelo foi confirmada no início desta tarde pelo UOL Esportes. ASSINAM ESSA NOTA: MOVIMENTO TODA PODEROSA CORINTHIANA LOUCAS POR TI CORINTHIANS CORINGÃO ANTIFA BOTECO DAS TORCEDORAS RESISTÊNCIA AZUL POPULAR COLETIVO DEMOCRACIA CORINTHIANA FORÇA FEMININA COLORADA COLETIVO DEMOCRACIA SANTACRUZENSE MOVIMENTO ALVINEGRAS ATLETICANÍSSIMAS FLUMINENSE ANTIFASCISTA BRIGADA MARIGHELLA/DANDARA VERDONNAS Uma publicação compartilhada por Brigada Marighella (@brigada.marighella) em

A repercussão negativa do episódio fez com que o Grupo Cidade de Comunicação demitisse o comentarista da rádio. Em nota oficial, o conglomerado responsável pela emissora no Ceará afirmou lamentar e repudiar “veementemente” as declarações de Campelo.

“Respeitamos as mulheres e acreditamos no potencial feminino, inclusive pelo fato de termos uma mulher como âncora de importantes programas da emissora. Nosso compromisso é com a ética, o bom jornalismo e, sobretudo, o respeito a todos – e a todas”.

O desligamento do jornalista foi anunciado aos ouvintes da Rádio Jovem Pan pela âncora da emissora, Carla Soraya, nesta terça-feira (15).

“Me sinto orgulhosa em fazer parte dessa empresa que defende as mulheres, o papel da mulher, de todas as minorias na sociedade e já tomou medidas. A direção da empresa desligou o comentarista Daniel Campelo do quadro de esportes da emissora. Como mulher, me sinto representada por essa atitude”, afirmou, no ar.

Procurado pelo jornal O Povo para comentar a demissão, Daniel Campelo não demonstrou arrependimento. “Penso que não [foi a correta decisão do grupo em demiti-lo], até porque não ofendi a figura da mulher. Apenas emiti minha opinião contrária a arbitragem feminina ou não se pode mais dar opiniões?”, disse.

“Aguardo ‘cartas’. Estou livre e pronto para a nova emissora, até porque o que tem de solidariedade é uma grandeza. Gente dizendo que não vai mais ouvir eles lá, gente dizendo sem o Daniel não tem graça o programa e por aí vai”, provocou o jornalista, que atuava na Joven Pan desde 2003.

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