Após fim das bets, governo prepara R$ 20 bilhões para clubes e SAFs

    Projeto prevê crédito para refinanciar dívidas em até 20 anos, com regras para utilização dos recursos

    Foto: Rafael Rodrigues/EC Bahia

    O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma linha de crédito de até R$ 20 bilhões destinada à reestruturação financeira de clubes de futebol e Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs). A iniciativa ganhou força diante dos impactos esperados no setor após a proibição das casas de apostas online no Brasil.

    Batizado de Programa Nacional de Reestruturação Financeira do Futebol Profissional, o projeto pretende oferecer condições para que os clubes substituam dívidas consideradas mais caras por financiamentos com juros menores. A informação foi divulgada pelo UOL.

    Apesar do montante bilionário, a proposta não prevê repasse gratuito de dinheiro nem perdão de dívidas. Os valores utilizados terão de ser devolvidos integralmente, e os recursos somente poderão ser destinados às finalidades estabelecidas pelo programa.

    A expectativa é que a linha tenha prazo de pagamento de até 20 anos, além de dois anos de carência antes do início da quitação. As taxas seriam vinculadas às condições praticadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

    Os recursos previstos para viabilizar a iniciativa devem ter origem no superávit financeiro de 2025. O governo pretende apresentar o modelo aos clubes antes de avançar com a proposta por meio de uma Medida Provisória, que posteriormente precisará passar pelo Congresso Nacional.

    Como funcionaria o programa

    A operação dos financiamentos ficaria sob responsabilidade de instituições financeiras habilitadas. Os bancos assumiriam integralmente o risco de crédito, sem que a União funcionasse como fiadora dos clubes ou das SAFs.

    Dependendo da operação negociada, o dinheiro nem sequer precisaria passar diretamente pelas contas das equipes. Existe a possibilidade de os recursos serem destinados aos próprios credores para a quitação ou substituição das dívidas.

    A linha poderia ser utilizada para débitos trabalhistas e direitos de imagem, pendências com Receita Federal, INSS e FGTS, empréstimos bancários e dívidas cíveis. Investimentos em infraestrutura destinada às categorias de base também estariam autorizados.

    Em contrapartida, o projeto estabelece restrições para impedir que o financiamento seja transformado em verba para despesas esportivas ou operacionais comuns.

    Clubes não poderão usar dinheiro para contratar jogadores

    Os recursos do programa não poderão financiar a contratação de atletas, pagamento de salários correntes ou outras despesas rotineiras dos clubes. No caso das SAFs, a distribuição dos valores aos acionistas na forma de lucros ou dividendos também ficará proibida.

    A finalidade será exclusivamente financeira e estrutural. Portanto, mesmo que um clube tenha acesso à linha de crédito e consiga reduzir o peso de outras dívidas, não poderá retirar diretamente desse financiamento dinheiro para investir na montagem do elenco.

    O descumprimento das condições estabelecidas ou o atraso no pagamento das parcelas poderá provocar o vencimento antecipado da dívida e a exclusão do clube do programa.

    Fim das bets acelera discussão

    A elaboração da proposta ganhou força em meio à decisão do governo federal de encerrar as operações das casas de apostas online no Brasil. A Medida Provisória que proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade do setor foi assinada por Lula na última sexta-feira (25).

    A mudança preocupa os dirigentes pelo espaço que as empresas de apostas passaram a ocupar nas receitas comerciais do futebol brasileiro. Em 2025, as bets destinaram R$ 1,143 bilhão em patrocínios aos 20 clubes de maior faturamento do país.

    O montante correspondeu a aproximadamente 34% da receita de marketing acumulada por esse grupo, mostrando o peso adquirido pelo segmento na estrutura comercial das equipes.

    As consequências podem ultrapassar os contratos estampados nas camisas. Clubes também possuem receitas relacionadas a publicidade nos estádios e competições, propriedades comerciais e outros acordos ligados ao mercado de apostas.

    As discussões sobre a nova linha de crédito envolveram representantes do governo federal, da CBF e de clubes brasileiros. Caso o programa seja formalizado nos termos atualmente discutidos, os R$ 20 bilhões funcionarão como instrumento para reorganização de passivos, e não como compensação financeira direta pela receita perdida com o fim das bets.