Ativista denuncia agressividade de turistas israelenses na Bahia

    Em entrevista ao bahia.ba a coordenadora da Frente Palestina Sul da Bahia, Mariá Veiga, detalhou o ocorrido e falou sobre a presença do grupo em Itacaré

    Turistas sionistas israelenses tentaram vandalizar mural no Casarão Azul (Foto: arquivo pessoal/ Frente Palestina Sul da Bahia)

    Moradores de Itacaré relatam estar vivenciando problemas causados por turistas israelenses no município do sul da Bahia. Nesta semana, imagens de um grupo desses turistas tentando vandalizar um mural no Casarão Azul de Itacaré percorreram o Brasil e o mundo, chamando a atenção para o impacto do turismo de sionistas no litoral sul da Bahia, principalmente, em locais como Morro de São Paulo, Boipeba, Maraú, Itacaré e Ilhéus.

    Em entrevista ao bahia.ba, a coordenadora da Frente Palestina Sul da Bahia, Mariá Veiga, explicou o que aconteceu no último domingo (1º). A histórica começa há dois anos. Nascida no Rio de Janeiro e moradora de Itacaré há 20 anos, ela observou que alguns turistas passaram a ter condutas mais violentas no município.

    “Uma vez, na Rua da Pituba, eles quebraram o nariz de uma mulher quando ela pediu para não destruírem um jardim“, exemplificou a moradora de Itacaré. Mariá Veiga também citou ameaças e outras agressões ao patrimônio e a nativos de Itacaré vindas de turistas sionistas, associadas à imposição da cultura deles no território baiano.

    Apesar dos transtornos, a coordenadora afirmou que parte dos comerciantes de Itacaré, principalmente dos bares de médio padrão, defendem esses grupos. “[Sionistas isralenses] inflam o comércio no mês de março, que é baixa estação, e eles [comerciantes] acham o dinheiro necessário. Mas, a longo prazo, a presença deles está afastando outros turistas. Itacaré é uma cidade que aceita todo mundo de braços abertos, para experimentar nossa cultura e não importar e impor sua cultura. Se fosse qualquer outra nacionalidade estaríamos fazendo a mesmíssima coisa”, disse Mariá.

    A coordenadora da Frente Palestina Sul da Bahia também destacou que o município de Itacaré não está vivendo um conflito físico estabelecido, mas focado em narrativas.

    Israelenses alugam casarão azul, colocam símbolos do grupo e danificam imagem de mulher negra

    O Casarão Azul, cenário da situação de atrito entre nativos de Itacaré e sionistas que repercutiu durante a semana, chegou a ser alugado por um grupo de Israel para fazer uma espécie de centro direcionado a eles. Mariá Veiga relatou que, antes do aluguel, funcionava uma escola de música no local e que existiam pinturas representando Itacaré no imóvel.

    “Quando eles alugaram, pintaram uma pintura com o rosto de uma mulher preta de branco. Eles poderiam ter coberto de azul, da cor do casarão, mas pintaram de branco, entende?“, relatou. “Eles também botaram um banner com símbolo sionista cobrindo uma imagem do Farol da Concha, que é símbolo de Itacaré“, complementou.

    Imagens do período em que o Casarão Azul foi alugado pelos turistas sionistas. A pintura de uma mulher preta foi coberta com tinta branca e foi afixado um banner com o título “Chabad Itacaré”. Chabad é um movimento judeu ortodoxo (Foto: arquivo pessoal/Mariá Veiga)

    Após um ano ocupando o local, os turistas foram despejados pelo proprietário. De acordo com a entrevistada, um dia após a saída deles, ativistas e artistas locais fizeram uma intervenção artística no local, simultaneamente à programação da FLICARÉ (Festa Literária de Itacaré). Entre as ilustrações, estavam homenagens à Palestina – como a melancia e a frase “Do Rio ao Mar” – e aos indígenas brasileiros.

    Entre as ilustrações, estavam homenagens à Palestina – como a melancia e a frase “Do Rio ao Mar” – e aos indígenas brasileiros (Foto: arquivo pessoal/Mariá Veiga)

    Mariá Veiga contou que, após a saída dos responsáveis pela intervenção, os sionistas tentaram vandalizar o mural. “Na hora só estavam os nativos. Umas mulheres começaram a gritar, os pescadores que estavam jogando bola defenderam o mural”, disse a ativista.

    Os vídeos do momento viralizaram nas redes sociais e a ação dos estrangeiros foi criticada por políticos como o deputado estadual Hilton Coelho (PSOL) – que já havia se posicionado em um outro conflito envolvendo turistas de Israel em Itacaré – e o deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL).

    Segundo a Frente Palestina Sul da Bahia, as pinturas foram cobertas de azul posteriormente, a pedido do dono do prédio. Apesar de acatarem a demanda, ela foi questionada porque, no período em que os sionistas israelenses ocupavam o prédio, as alterações feitas por eles foram autorizadas.

    Prefeitura de Itacaré mantém isenção diante do caso e grupo de comerciantes defende presença de sionistas

    Mariá Veiga relatou que tentou contato com o MP-BA (Ministério Público da Bahia), com a Prefeitura de Itacaré e com os entes policiais, mas não obteve sucesso.

    A Prefeitura de Itacaré publicou, na quinta-feira (5), uma nota pública em que manteve a isenção diante do caso. No texto, a gestão municipal defendeu “a liberdade de expressão, o respeito às diferenças e à convivência pacífica”. Além disso, a prefeitura declarou que não tem relação com a ocupação ou desocupação do imóvel e desdobramentos relacionados a isso.

    “Eventuais divergências devem ser solucionadas pelos próprios interessados e quando necessários pelas autoridades legalmente competentes“. Sobre atos de violência e intimidação, a Prefeitura de Itacaré repudiou a situação disse que a resolução cabe a autoridades policiais e ao poder judiciário.

    Por fim, a Prefeitura de Itacaré disse que “O conflito entre Israel e Palestina é uma questão internacional, cujo mérito não cabe ao ente intranacional – município – tecer posicionamentos institucionais, que cabe privativamente ao Ministérios das Relações Exteriores. Itacaré é uma cidade reconhecida por sua hospitalidade, diversidade cultural e vocação turística, um das principais atividades econômicas do município e importante fonte de emprego e renda para a população. Brasileiros e estrangeiros de todas as nacionalidades, culturas e religiões são igualmente bem-vindos, sendo indispensável o respeito às leis brasileiras, à cultura local, ao patrimônio e às normas de convivência”.

    A coordenadora da Frente Palestina Sul da Bahia também relatou que, com a repercussão dos vídeos e a visibilidade internacional do caso, ela vem recebendo tanto ameaças quanto denúncias anônimas. “Alguns funcionários do comércio denunciaram anonimamente para mim porque estão com medo de falar abertamente”, revelou.

    Quanto às ameaças, Mariá Veiga relatou que, só nesta sexta-feira (6), registrou dois B.Os (Boletins de Ocorrência) relacionados a ameaças.

    Em contato com a Polícia Civil, a entidade relatou que ainda não havia registrado queixa referente ao caso envolvendo o Casarão Azul, mas que registrou um caso de desacato no dia 14 de março de 2026, no bairro Pituba.

    De acordo com a ocorrência, houve conflitos entre dois grupos de pessoas durante uma manifestação. Uma guarnição da Polícia Militar interveio no momento em que três homens resistiram à abordagem policial. Três Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs) foram lavrados contra os homens, que foram ouvidos e liberados.

    O bahia.ba também tentou contato com o MP-BA e com a PM (Polícia Militar), mas, até o momento, não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestação.

    O que é sionismo?

    Na sua origem, o sionismo é um movimento político nacionalista que a autodeterminação do povo judeu e a existência de um Estado nacional soberano e independente na Palestina, considerada por muitos a “terra prometida” dos judeus. O movimento deu corpo à criação do estado de Israel em 1947.

    O termo sionismo faz referência ao Monte Sião, nome de uma das colinas de Jerusalém.

    Especialistas das ciências sociais apontam que o movimento tem diversas correntes e os críticos analisam que, apesar de o povo judeu ter vivido séculos de perseguição, o sionismo e o discurso de orgulho israelense são usados para promover atos colonialistas e racistas no Oriente Médio e ao redor do mundo.