Publicado em 27/05/2020 às 20h53.

Família impedida de sepultar idoso vai à Justiça contra barreira

Depois de percorrer 450 quilômetros, corpo de idoso vítima de Covid-19 foi enterrado à luz de lanternas de celulares

Redação
Foto: Aurelio Nunes
Foto: Aurelio Nunes

 

Aurelio Nunes – colaboração para o bahia.ba

A epopeia em que se transformou o sepultamento de Armando Carlos Mateus Barbosa da Silva está longe de encerrar os conflitos entre familiares do idoso, moradores do distrito de Campos de São João e a Prefeitura de Palmeiras.

O idoso faleceu na terça-feira (26), aos 70 anos, em Salvador, após contrair o novo coronavírus. Seu corpo foi transportado por 450 quilômetros até o jazigo da família, mas acabou sendo impedido de passar pela barreira montada na entrada do povoado, que fica em frente ao Morro do Pai Inácio, um dos cartões postais da Chapada Diamantina. Após cinco horas de idas e vindas, Armando foi enterrado no cemitério da sede do município, à luz de lanternas de telefones celulares.

“Não queremos que aquilo se repita com ninguém, muito menos conosco. A justiça é para todos”, declarou o empresário Ítalo Pinto, 32, sobrinho de Armando, que promete acionar a Prefeitura. Além de reparação por danos morais, Ítalo quer agir preventivamente: segundo ele, a tia Maria Lycia, de 73 anos, mulher de Armando, também foi contaminada pela Covid-19 e está internada em estado grave no Hospital Português, em Salvador. “Se ela vier a óbito, queremos enterrá-la em Campos de São João”, avisa.

Em nota, o prefeito de Palmeiras, Ricardo Guimarães (PSD), informou que o cemitério do povoado está passando por uma reforma e “a nossa vigilância sanitária nos informou que o sepultamento de uma pessoa com Covid-19 só poderia acontecer no chão ou a partir de uma cremação, não seria possível colocar o corpo do senhor Armando no jazigo da família, como era a vontade dos familiares”, declarou.

O prefeito disse ainda que a gestão municipal ofereceu toda a estrutura nos moldes de um sepultamento para Covid-19 e que deixou alinhado que, no futuro, a família pegaria os restos mortais do falecido e levaria para o jazigo da família no povoado de Campos do São João. “Aquilo foi mais uma intransigência de Ítalo. Ele queria medir forças com a comunidade”, declarou Guimarães ao bahia.ba.

Barreira

Na verdade, não foi a Prefeitura de Palmeiras quem impediu o sepultamento em Campos de São João, mas os próprios moradores do povoado que integram a barreira montada há mais de dois meses na entrada do distrito.

Antes mesmo da chegada do corpo, que saiu às 11h de Salvador e chegou às 17h30 na sede do município, já havia uma mobilização para impedir a entrada do carro da funerária. O estopim do levante foi um áudio enviado a um grupo de WhatsApp local atribuído ao secretário de saúde do município, Walnei de Paula, com instruções sobre o enterro.

“Pessoal, bom dia. As orientações sobre o sepultamento que vai ocorrer aí no Campos de São João… o sepultamento acontece da seguinte maneira: o corpo chega, o pessoal da infraestrutura enterra. Não tem velório, não tem despedida, não tem abraço, não tem choro, não tem nada, entendeu? Infelizmente o que prevalece neste momento é a segurança da comunidade e das pessoas que estão vivas”, disse Walnei.

Alertado para a agitação despertada pelo comunicado, Ítalo deslocou-se até Campos de São João, conversou com os integrantes da barreira, mostrou a portaria do Ministério da Saúde que permitia sepultamentos de vítimas da Covid-19 em cidades diferentes do local onde faleceram em até 24 horas após a morte, alegou que o morto estava envelopado e com o caixão lacrado. Não convenceu.

Na volta à sede do município, passou pelo povoado do Carmona, que chegou a ser cogitado como alternativa, mas que logo foi descartada. Por volta das 20h30, conseguiu a escolta de duas viaturas da Polícia Militar e retornou a Campos de São João juntamente com o carro da funerária na esperança de dar ao tio o merecido descanso. Deparou-se com um grupo ainda maior de moradores que bloqueavam a entrada do povoado tocando fogo em pneus.

“Infelizmente, a barreira é feita sem respaldo jurídico e sem conhecimento”, reclamou o sobrinho do falecido. “A barreira conta com servidores municipais da educação e com voluntários. É uma parceria da Prefeitura com a comunidade”, retrucou o prefeito.

Até o momento, Palmeiras registra dois óbitos e três casos suspeitos por coronavírus.

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