Publicado em 21/01/2020 às 16h49.

Abraji: denúncia do MPF contra Greenwald viola a liberdade de imprensa

"Tem como único propósito constranger o profissional", diz associação, em nota

Redação
Foto: Arquivo Pessoal/Facebook
Foto: Arquivo Pessoal/Facebook

 

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) definiu a denúncia feita pelo Ministério Público Federal (MPF) ao jornalista Glenn Greenwald como uma violação à liberdade de imprensa, que “tem como único propósito constranger o profissional”.

A denúncia do MPF foi apresentada na manhã desta terça-feira (21), que acusa o jornalista e mais seis pessoas de associação criminosa e participação ativa na quebra de sigilo de conversas de autoridades brasileiras investigadas na Operação Spoofing.

“A denúncia contra Glenn Greenwald é baseada em uma interpretação distorcida das conversas do jornalista com sua então fonte. Tem como único propósito constranger o profissional, como o texto da denúncia deixa ver: por duas vezes, o procurador refere-se a Greenwald com o termo jornalista entre aspas, como se ele não se qualificasse como tal – e como se coubesse a um membro do MPF definir quem é ou não jornalista. É um absurdo que o Ministério Público Federal abuse de suas funções para perseguir um jornalista e, assim, violar o direito dos brasileiros de viver em um país com imprensa livre e capaz de expor desvios de agentes públicos. A Abraji repudia a denúncia e apela à Justiça Federal para que a rejeite, em respeito não apenas à Constituição, mas à lógica”, diz a nota.

O procurador citado é Wellington Divino Marques de Oliveira, que assina a denúncia. Na ação, Oliveira diz que Glenn aconselhou Luiz Molição, um dos envolvidos no hackeamento de aplicativos de mensagens, a apagar arquivos “para dificultar as investigações e reduzir a possibilidade de responsabilização penal”. Os diálogos apresentados como provas não confirmam as acusações do promotor.

“Em um deles, Greenwald responde a uma preocupação expressa por Molição sobre o que fazer com o material que havia enviado ao Intercept e que seria publicado na série de reportagens Vaza Jato. O jornalista apenas diz que já armazenou as mensagens em local seguro, que não vê necessidade de o grupo manter os arquivos e manifesta preocupação em proteger a identidade do grupo de Molição como fonte das reportagens. Greenwald não sugere, orienta ou ordena a destruição do material”, defende a Abraji, acrescentando trechos das mensagens entre Glenn e o hacker.

E acrescenta: “O procurador afirma também que Greenwald sabia que Molição e o grupo ainda estavam interceptando conversas privadas, quando conversaram. Mais uma vez, o diálogo transcrito não confirma a acusação.  Molição pergunta se deve salvar mensagens que já estão em seu equipamento, por medo de que após a publicação das reportagens do Intercept elas sejam apagadas por seus autores. Por mais de uma vez, o acusado diz que se tratam de conversas antigas. Em momento algum, afirma que o material ainda está sendo captado”

A Polícia Federal, ao investigar o caso, não encontrou indícios de que Glenn Greenwald tivesse envolvimento nos crimes. A conclusão está em relatório da PF de dezembro de 2019.