O presidente Jair Bolsonaro voltou a recomendar a leitura do livro “A verdade sufocada – A história que esquerda não quer que o Brasil conheça”, do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, durante entrevista concedida à imprensa em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, nesta segunda-feira (28).
O livro do notório torturador do regime militar brasileiro, morto em 2015 sem jamais ter sido preso – ainda que condenado pela Justiça em segunda instância -, é citado constantemente pelo presidente da República e foi recomendado por ele no final de setembro a uma “professora esquerdista” de um apoiador.
Valendo-se de informações imprecisas, o chefe do Executivo brasileiro pediu aos jornalistas que lessem a obra do militar para que soubessem “a verdade” sobre “o que aconteceu de 64 a 85” no Brasil – a declaração do presidente, sobre o “modus operantis” da esquerda, se deu em resposta a uma jornalista que o questionou sobre a nova onda de esquerda que atinge a América do Sul, cuja mais recente expressão foi a eleição de Alberto Fernández na Argentina.
“A esquerda nunca morreu desde 22. Vocês da imprensa nunca trataram com a devida atenção o que aconteceu de 64 a 85. Tem que saber a verdade. O livro de Carlos Alberto Brilhante Ustra é um livro com fatos. Leiam aquilo para ver o que aconteceu”, afirmou o presidente, frisando que Cuba “e outros países de esquerda no passado” financiavam a luta armada no Brasil.
Questionado pela mesma repórter se não eram os empresários que financiavam os grupos guerrilheiros de combate ao regime militar, Bolsonaro disse que, na verdade, estes tinham “amizade com o Regime na época”. O presidente, então citou o caso do assassinato do empresário dinamarquês naturalizado brasileiro Albert Hening Boilesen pelos grupos Ação Libertadora Nacional (ALN) e o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) em 1971.
Para Bolsonaro, Boilesen foi morto simplesmente por “fornecer quentinhas ao DOI-Codi”, órgão subordinado ao Exército em cujas dependências, em São Paulo, eram praticadas sessões de tortura por parte dos militares contra opositores do regime militar.
De acordo com o documentário “Cidadão Boilsen”, de Chaim Litewski, no entanto, o dinamarquês era um dos grandes entusiastas da Operação Bandeirante (Oban), organização criada pelo Exército para investigar e reprimir grupos da esquerda armada e que foi financiada por empresários vinculados à Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
“Ele pessoalmente frequentava a Operação Bandeirante, ia ver os presos e assistia a sessões de tortura”, afirma no documentário o historiador Jacob Gorender. Outras fontes afirmam, no filme, que o empresário teria, inclusive, importado dos Estados Unidos um instrumento de tortura que soltava descargas elétricas, que foi apelidado de “pianola Boilesen”.
Já Carlos Alberto Brilhante Ustra – classificado por Bolsonaro como “o terror de Dilma Rousseff” – foi responsável por 47 sequestros e homicídios e 502 desaparecimentos durante a ditadura militar brasileira, segundo o relatório Direito à Memória e à Verdade e um levantamento do projeto Brasil Nunca Mais, respectivamente.
O relatório final da Comissão da Verdade, documento oficial do Estado brasileiro sobre o período, incluiu o general reformado do Exército como uma das 377 pessoas responsáveis diretas ou indiretas pela prática de tortura e assassinatos durante a ditadura militar.
A recente exaltação do presidente ao torturador, repleta, portanto, de afirmações vagas, foi postada por ele em seu Twitter com a legenda “Quando o assunto incomoda a esquerda, ela rapidamente muda de assunto”.
Quando o assunto incomoda a imprensa, …. ela rapidamente muda de assunto. pic.twitter.com/g5ALKt878o
— Jair M. Bolsonaro (@jairbolsonaro) October 28, 2019

