Brumadinho e Sobradinho, a semelhança que é pouco mais que mera coincidência

    Brumadinho é uma coisa, Sobradinho é outra, mas o jornalista é o mesmo e a interpretação também. A mãe de Schvartsman não estava lá

    Foto: divulgação/Corpo de Bombeiros de Minas Gerais
    Foto: divulgação/Corpo de Bombeiros de Minas Gerais

     

    Fábio Schvartsman, presidente da Vale do Rio Doce, a dona da Barragem de Brumadinho, que matou 166 e deixou outros 155 desaparecidos (até agora), produziu a pérola da tragédia: disse que a Vale é uma joia brasileira e não deveria ser condenada ‘por um acidente’. Mais:

    — A Vale humildemente reconhece que, seja lá o que vinha fazendo, não funcionou.

    Singelo, não? Remonta aos anos 70, quando o governo implantava a Barragem de Sobradinho, hoje o maior lago artificial do mundo. O projeto forçou o realocamento de quatro cidades, Remanso, Casa Nova, Pilão Arcado e Sento Sé, com a imensa gritaria dos realocados por conta das baixas indenizações.

    Dom José

    Fomos entrevistar o presidente da Chesf, Eunápio Peltier de Queiroz. Ele com a palavra:

    — Às vezes fico na dúvida: é justo sacrificar 80 mil pessoas (as populações das quatro cidades na época) em benefício de 20 milhões de nordestinos? E concluo: é.

    Dom José Rodrigues, bispo de Juazeiro, o arauto dos revoltados, voz tão mansa quanto contundente, com a palavra:

    — Dr. Eunápio fala isso porque a família dele não está entre as 80 mil.

    — O senhor está querendo dizer que ele fala assim porque a mãe dele não está lá.

    — A interpretação é do nobre jornalista.

    Brumadinho é uma coisa, Sobradinho é outra, mas o jornalista é o mesmo e a interpretação também. A mãe de Schvartsman não estava lá.