Cid diz à PF que não testemunhou debate de Bolsonaro com cúpula militar sobre golpe

    Mauro Cid disse aos investigadores que, como não participou de toda a reunião, não saberia dizer sobre a reação dos militares

    Foto: Lula Marques/ Agência Brasil

    Em depoimento de mais de nove horas à Polícia Federal, na segunda-feira (11), o tenente-coronel Mauro Cid afirmou que não participou até o fim da reunião do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) com os comandantes das Forças Armadas em que os presentes teriam discutido um plano golpista.

    De acordo com o que Cid disse aos investigadores, as acusações à Justiça foram apresentadas naquela reunião em formato de considerandos, parte inicial de decreto que busca dar legalidade ao ato presidencial. Um dos exemplos dados por Mauro Cid de fatos que seriam elencados no texto é a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de impedir a posse de Alexandre Ramagem na direção da Polícia Federal.

    O documento, segundo a versão apresentada por Cid, não continha na sequência um decreto nem medidas antidemocráticas, como a prisão de ministros do Supremo. Cid afirmou que Bolsonaro pediu para que a segunda parte da reunião fosse somente entre ele e os então chefes militares: Freire Gomes (Exército), Almir Garnier (Marinha) e Baptista Júnior (Aeronáutica).

    Segundo relatos, foi nesse momento que o então presidente teria sondado os comandantes sobre o apoio da caserna a possíveis ações golpistas a serem realizadas diante das supostas interferências do Judiciário.

    Mauro Cid disse aos investigadores que, como não participou de toda a reunião, não saberia dizer com precisão como cada um dos chefes militares reagiu à sondagem do então chefe do Executivo. Ele reforçou, porém, que relatos repassados a ele e mensagens que circulavam nos meios militares diziam que Garnier teria colocado a Marinha à disposição de ações golpistas.

    O depoimento de Mauro Cid é sigiloso e sequer a defesa do militar tem acesso ao documento com a íntegra do que ele relatou à Polícia Federal. Advogados de outros alvos têm dito que investigadores usam os vazamentos de trechos dos depoimentos para reforçar narrativas.

    O tenente-coronel depôs pela quarta vez à Polícia Federal no âmbito da delação premiada que firmou em setembro de 2023 com a PF. A oitiva durou cerca de nove horas e, segundo relatos feitos à Folha, boa parte do tempo foi dedicada à confirmação do que Cid já havia falado aos investigadores nos encontros anteriores.

    O militar disse no depoimento de segunda que enviava mensagens com frequência para o então comandante do Exército, general Freire Gomes, enquanto Bolsonaro sondava auxiliares e aliados políticos por um apoio à ruptura democrática.

    Mauro Cid também alegou aos investigadores que reuniões apontadas como golpistas no relatório da PF que embasou a operação Tempus Veritatis eram, na verdade, encontros de amigos militares.

    No relatório, a Polícia Federal diz que, em 28 de novembro de 2022, Bolsonaro participou de reunião com outros militares com formação em forças especiais.

    Segundo mensagens trocadas entre Cid e o coronel Bernardo Romão Correa Neto, o encontro seria entre os militares que atuavam como assistentes de generais do Alto Comando do Exército.