‘O que mais dói é a injustiça’, lamenta Dilma após afastamento

    A petista enumerou algumas bandeiras do seu mandato, acusou a oposição pelo impeachment e se defendeu do crime de responsabilidade fiscal do qual é imputada

    DF - IMPEACHMENT/DILMA/PRONUNCIAMENTO - POLÍTICA - A presidente afastada Dilma Rousseff (c) faz um pronunciamento no Palácio do Planalto, em Brasília, após ser notificada de seu afastamento pelo Senado por até 180 dias após processo de impeachment, em Brasília, nesta quinta-feira, 12. 12/05/2016 - Foto: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO

    A presidente Dilma Rousseff discursou, no final da manhã desta quinta-feira (12), após ser afastada do cargo por até 180 dias pelo Senado Federal. Com um pronunciamento magoado, a petista disse que foi injustiçada, comparou o processo de impeachment à ditadura, afirmou que “a batalha não acabou” e convocou os militantes para continuar a brigar “pela democracia, pois sempre é válido”.

    A mandatária afastada enumerou algumas bandeiras do seu mandato. “O que está em jogo não é apenas meu mandato, é o respeito às urnas, à vontade soberana do povo e à Constituição. O que está em jogo são as conquistas nos últimos 13 anos. Os ganhos das pessoas mais pobres e da classe média. Uma proteção às crianças. Os jovens chegando à universidade e escolas técnicas. A valorização do salário mínimo. A realização do sonho da casa própria. O que está em jogo é também a grande descoberta do Brasil: o pré-sal. A oportunidade de esperança de avançar sempre mais”, listou.

    Dilma acusou a oposição de ser a grande culpada pelo seu afastamento. “Desde que fui eleita, a oposição ficou inconformada, pediu recontagem dos votos, passou a conspirar pelo meu impeachment. Impediram a recuperação da economia. Com o objetivo de conquistar à força o que não conquistaram nas urnas. Sabotaram o meu governo. Venho sendo impedida de governar. Forjaram o ambiente, propício ao golpe. Quando uma presidente é cassada por um crime que não cometeu, o nome não é impeachment, é golpe”, voltou a afirmar.

    Ela também se defendeu dos crimes de responsabilidade fiscal dos quais é imputada. “Não cometi crime de responsabilidade. Não há razão para o processo de impeachment. Não tenho contas no exterior, não recebi propina, jamais compactuei com a corrupção. Juridicamente, esse processo é inconsistente, injusto e fraco, contra uma pessoa honesta e inocente. É a maior das brutalidades que podem ser cometidas por qualquer ser humano. Não existe injustiça mais devastadora do que condenar uma inocente. Deve ser o fato de, como presidente, nunca aceitar chantagem de qualquer natureza. Posso ter cometido erros, mas não crimes. Estou sendo julgada pelo que a lei me autorizou a fazer. Os atos que cometi foram legais, atos de governo. Atos idênticos foram executados pelos presidentes que me antecederam. Não era crime na época deles, não é crime agora”, disse.

    Torturada durante a ditadura militar de 1964, Dilma comparou o momento atual com o de 52 anos atrás. “Nesses anos, exerci meu mandato de forma digna e honrada. Honrei os votos que recebi. Em nome dos votos, vou lutar com todos os instrumentos legais para exercer o mandato até o fim. O destino sempre me reservou muitos desafios, muitos e grandes desafios. Eu já sofri a dor da tortura. Agora, mais uma vez, a dor, igualmente, inominável da injustiça. O que mais dói é a injustiça. Estou sendo vítima de uma farsa política e jurídica. Olho para trás e vejo o que fizemos. Olho para frente e vejo o que precisamos fazer. Já vivi muitas derrotas e já vivi grandes vitórias. Confesso que nunca imaginei que seria necessário lutar de novo contra um golpe no país”, afirmou.

    Ao final, a presidente afastada convocou os que “não aceitam o impeachment” para irem às ruas. “Tenho certeza que a população vai dizer não ao golpe. O novo povo é sábio. Há brasileiros que se impõem contra o golpe, independente de partido. Mantenham-se mobilizados, unidos e em paz. A luta pela democracia não tem data para terminar. É uma luta permanente. A luta contra o golpe é longa e pode ser vencida e nós vamos vencer. Esta vitória depende de todos nós, vamos mostrar ao mundo que há milhões de defensores da democracia em nosso país. Eu sei que muitos aqui sabem que a história é feita de luta. Sempre vale a pena lutar pela democracia. A democracia é o lado certo da história. Jamais vamos desistir”, concluiu.