A relação entre o eleitorado lulista e o grupo político de ACM Neto (União Brasil) pode ser um dos fatores decisivos na reta final da disputa pelo Governo da Bahia. É o que avalia o professor e cientista político Claudio André, entrevistado pelo bahia.ba para analisar o comportamento do eleitor baiano e os efeitos da polarização nacional sobre a eleição estadual.
Para o especialista, a ausência de um palanque presidencial unificado no campo oposicionista cria uma situação particularmente complexa para ACM Neto, que declarou apoio a Ronaldo Caiado (PSD) para a Presidência, enquanto o PL baiano, liderado por João Roma, mantém apoio a Flávio Bolsonaro (PL).
“Essa é uma grande questão, talvez a grande base analítica que a gente tem que se debruçar para os próximos anos, porque me parece que a gente tem sinais contraditórios que as urnas definirão.”
Segundo Claudio André, a configuração atual precisa ser comparada com o cenário de 2022 e com a mudança no perfil ideológico do eleitorado de oposição ao PT.
“Se a gente olhar o cenário de 2022 para 2026, há uma clara inclinação bolsonarista no perfil ideológico do eleitorado e na construção das lideranças de oposição ao PT.”
“O eleitorado está mais ideológico”
Na avaliação do cientista político, lideranças do campo de oposição ao PT passaram, nos últimos anos, a conviver com uma presença mais forte do bolsonarismo entre seus eleitores e aliados.
Claudio André cita o prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), como exemplo desse ambiente político e lembra manifestações públicas de proximidade com o grupo Bolsonaro.
“O prefeito Bruno Reis cansa de declarar que admira Flávio Bolsonaro. Ele até deu uma entrevista recente em que perguntaram qual a palavra que define Flávio, e ele disse ‘garra’.”
Para o cientista político, essa realidade cria uma questão estratégica para ACM Neto diante de um eleitorado baiano que, historicamente, apresenta forte identificação com Lula.
“Então, a composição, melhor dizendo, também se a gente olhar ACM Neto, ele não deu nenhum sinal de afago, de aceno, de aproximação ao eleitorado lulista.”
O desafio de dialogar com o eleitor de Lula
Claudio André avalia que o grupo de ACM Neto poderia ter adotado uma postura mais crítica ao governo Jerônimo Rodrigues (PT), mas sem necessariamente romper o diálogo com políticas associadas ao governo federal.
“Várias movimentações, várias políticas públicas que o presidente Lula moveu nesse terceiro mandato não foram suficientes para o próprio ACM Neto dizer: ‘Não, mas essa política é interessante, poderia ser melhor’, fazendo ali uma mea-culpa.”
Para ele, essa postura poderia representar uma oposição menos alinhada à polarização nacional. “Uma oposição muito mais inteligente e construtiva.”
O cientista político também recupera movimentos políticos anteriores de ACM Neto para sustentar sua interpretação sobre a construção do campo oposicionista na Bahia.
“Quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente, lá em 2018, o prefeito ACM Neto correu no seu segundo mandato para trazer o PSL para a base governista da Prefeitura de Salvador.”
Claudio André cita ainda a nomeação de Alberto Pimentel para a administração municipal como parte daquele processo político.
“Aquele time já era exatamente de não deixar criar uma alternativa mais à direita. E isso, inclusive, levou, na minha visão, ao rompimento entre ele e João Roma, no cenário de 2022.”
“A construção para 2026 foi toda para bloquear uma campanha bolsonarista”
Na leitura do cientista político, o desenho político de ACM Neto para 2026 buscou evitar que a candidatura ao Governo da Bahia fosse diretamente identificada com o bolsonarismo.
“A construção dada para 2026 foi toda para bloquear uma campanha bolsonarista. Eu falo bolsonarista do ponto de vista político-partidário.”
A estratégia, segundo ele, teria uma segunda dimensão: disputar o eleitorado lulista que apresenta críticas ao governo Jerônimo.
“E, no âmbito da opinião pública, pensar a estratégia de diálogo com esse eleitorado lulista que tinha um viés de reprovação, de crítica ao governador Jerônimo Rodrigues.”
O desenho, para Claudio André, produz uma campanha com elementos distintos: de um lado, a tentativa de dialogar com eleitores que votam em Lula; de outro, a presença de aliados e setores identificados com a direita.
“É um cenário claramente de que ele tem o eleitorado evangélico, o eleitorado ligado a pautas importantes, mais à direita, e uma chapa que ele se prepara, na minha visão, para, no segundo turno, se houver no Brasil, claramente entrar no palanque de Flávio Bolsonaro. Eu não vejo outra alternativa.”
A afirmação é uma avaliação do entrevistado sobre um eventual cenário futuro, e não uma declaração de ACM Neto. Atualmente, Neto declarou apoio a Ronaldo Caiado para presidente, enquanto João Roma afirmou apoio a Flávio Bolsonaro.
Saúde e segurança no centro da disputa
Claudio André também relaciona essa estratégia ao discurso construído por ACM Neto durante a campanha estadual, especialmente em temas como saúde e segurança pública. “Ele se esconde ali no âmbito desse eleitor lulista, e a grande estratégia para até domingo é exatamente qual diálogo será feito com esse eleitorado que é inclinado a ser mais ideológico.”
Para o cientista político, existe uma parcela do eleitorado que mantém uma relação mais pragmática com Lula, independentemente da polarização nacional. “Uma parte do eleitorado é mais pragmática porque reconhece o presidente Lula como um grande presidente para a Bahia. Essa é a realidade.”
“O PT foi muito bem votado para governador e para presidente”
Claudio André afirma que o comportamento histórico do eleitorado baiano reforça a importância da associação entre as disputas estadual e presidencial. “Se a gente pegar – e eu tenho esses dados, de votação em todos os territórios de identidade de 2002 a 2022 -, o PT foi muito bem votado para governador e para presidente.”
Na avaliação dele, os resultados históricos apontam para uma certa estabilidade na maneira como parte do eleitorado baiano relaciona as duas eleições. “Então, você tem uma estabilidade no comportamento eleitoral dos baianos.”
Ao mesmo tempo, o cientista político reconhece que existe um elemento capaz de alterar essa lógica: a avaliação do governo Jerônimo Rodrigues. “No entanto, há esse ruído em torno da avaliação do governador Jerônimo Rodrigues.”
ACM Neto tenta transformar eleição em plebiscito sobre Jerônimo
Na avaliação de Claudio André, a estratégia de ACM Neto passa por transformar a disputa estadual em uma espécie de avaliação direta da administração de Jerônimo.
“Me parece que ACM Neto força uma eleição plebiscitária com o eleitorado lulista, dentro dessa lógica de que ele tem condições de resolver políticas públicas muito importantes para o eleitorado, sobretudo saúde e segurança pública.”
O cientista político relaciona essa estratégia ao próprio slogan utilizado por ACM Neto na campanha. “Isso inclusive influenciou o seu slogan, a sua marca: ‘Mudança’.”
A campanha de ACM Neto apresentou o slogan “Mudança com Segurança” na convenção que oficializou sua candidatura.
A disputa pelo eleitor lulista
Para Claudio André, portanto, a questão central dos últimos dias de campanha não está apenas na disputa entre esquerda e direita, mas na capacidade de cada candidatura de conversar com um eleitorado que pode separar o voto presidencial do estadual. “Então, eu penso que é essa reta final que vai demarcar quem é que vai falar mais alto com o eleitor lulista na Bahia.”
A avaliação ocorre em um momento em que Lula mantém vantagem sobre Flávio Bolsonaro nas pesquisas presidenciais realizadas na Bahia. Na Real Time Big Data divulgada em 28 de setembro, Lula tinha 61% contra 24% de Flávio no primeiro turno; em um cenário de segundo turno, o petista aparecia com 64% contra 28%.
É justamente nesse eleitorado que Claudio André identifica uma das principais disputas da reta final para o Governo da Bahia: de um lado, Jerônimo Rodrigues buscando fortalecer a associação com Lula; de outro, ACM Neto tentando ampliar sua votação entre eleitores que apoiam o presidente, mas demonstram críticas à gestão estadual. “Essa é a grande questão que a gente deve observar nessa reta final.”
Veja entrevista completa:

