A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e seu ex-sócio Alexandre Ferreira Dias Santini voltou ao centro das atenções durante a campanha presidencial de 2026. Documentos, mensagens, áudios e fotografias mantidos por Santini foram apresentados pelo PlatôBR como parte de uma apuração sobre a relação entre os dois e episódios ocorridos antes e durante o governo de Jair Bolsonaro.
Segundo a reportagem, Santini teria reunido registros capazes de lançar luz sobre episódios envolvendo a antiga sociedade dos dois em uma franquia da Kopenhagen, no Rio de Janeiro, além de relações mantidas por Flávio com empresários, advogados e lobistas durante o período em que seu pai ocupou a Presidência da República.
A publicação também relata uma disputa financeira entre os antigos sócios, que teria se intensificado a partir de 2022. Santini chegou a cobrar judicial e extrajudicialmente valores que, segundo ele, seriam referentes ao encerramento da sociedade.
A reportagem apresenta ainda mensagens nas quais Santini faz acusações sobre despesas pessoais de Flávio, encontros privados e supostas articulações envolvendo pessoas próximas ao senador. As alegações são atribuídas ao ex-sócio e aos documentos que ele afirma ter preservado.
Crise entre os antigos sócios
Flávio Bolsonaro e Alexandre Santini mantiveram uma relação de amizade por anos e foram sócios de uma loja da Kopenhagen no Rio de Janeiro. O negócio apareceu anteriormente em investigações relacionadas ao caso das chamadas rachadinhas envolvendo o então deputado estadual Flávio Bolsonaro.
De acordo com o PlatôBR, a relação entre os dois começou a se deteriorar durante a campanha eleitoral de 2022. Santini passou a cobrar valores que considerava devidos após o fim da sociedade.
A disputa teria ganhado uma dimensão pessoal quando o ex-sócio procurou Fernanda Bolsonaro, mulher de Flávio, e apresentou a ela mensagens e imagens relacionadas a encontros privados dos quais afirmou que o senador teria participado.

Segundo a reportagem, o episódio provocou uma crise no relacionamento de Flávio e Fernanda durante a campanha de Jair Bolsonaro à reeleição. Santini também teria mantido contato com Fernanda por meio do consultório odontológico dela em Brasília, utilizando as ocasiões para cobrar uma solução para a disputa financeira.
Mensagens sobre encontros privados
Entre os materiais apresentados pelo ex-sócio estão conversas por WhatsApp com uma mulher apontada na reportagem como agenciadora de garotas de programa.
As mensagens, segundo o PlatôBR, tratariam da organização de encontros privados com a participação de Flávio e outros amigos. Santini utilizava a expressão “meu filho” para se referir ao senador nas conversas reproduzidas pela publicação.
A reportagem afirma que parte das imagens teria sido registrada no Grand Hyatt, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. O material teria sido posteriormente apresentado por Santini a Fernanda Bolsonaro durante o período de crise no casamento.

Tentativas de acordo
Com o agravamento da disputa, Fernanda Bolsonaro teria tentado intermediar uma conversa entre Flávio e Santini. O ex-sócio, porém, preferiu tratar do assunto por meio de advogados. Nesse período, o escritório do advogado Willer Tomaz teria sido acionado para negociar um possível acordo financeiro entre os antigos sócios.
Em mensagem enviada a Fernanda, Santini afirmou que os advogados de Flávio haviam procurado sua defesa para tratar da questão envolvendo a loja, mas reclamou da demora na conclusão das negociações.

A cobrança ganhou novo capítulo em setembro de 2023, quando Santini enviou uma notificação extrajudicial cobrando R$ 1,4 milhão. Segundo a reportagem, ele alegava ter sofrido prejuízo com o encerramento da sociedade.
Flávio fala em “escolhas erradas”
Durante a crise, uma mensagem atribuída a Flávio Bolsonaro e enviada a Santini ganhou destaque na reportagem. No texto, o senador afirma ter se arrependido de “muitas escolhas erradas” e diz que não pretendia repetir os mesmos erros com sua família.
A mensagem foi enviada depois que Santini teria procurado Fernanda Bolsonaro para relatar episódios envolvendo o senador. O ex-sócio respondeu questionando se Flávio havia enviado a mensagem para a pessoa correta.

Rolex de R$ 305 mil
Os documentos apresentados por Santini também envolvem despesas e presentes que, segundo a reportagem, teriam sido pagos por pessoas próximas a Flávio Bolsonaro.
Um dos casos citados é a compra de um Rolex Submariner Date de ouro branco, adquirida em fevereiro de 2022 por R$ 305 mil. A nota fiscal teria sido emitida em nome do advogado Alan Belaciano, apontado como amigo de Flávio.

A reportagem afirma que mensagens e documentos reunidos por Santini indicariam que o relógio foi comprado para o senador. Também são citados gastos superiores a R$ 90 mil com equipamentos de academia destinados à residência de Flávio.
Em declaração anterior, Flávio afirmou que os equipamentos haviam sido adquiridos por um amigo como forma de “empréstimo pessoal”, que seria posteriormente pago por ele. O senador também classificou as acusações de Santini como infundadas.
A existência dos documentos sobre o Rolex e os equipamentos foi posteriormente repercutida por outros veículos.
A rede de amigos em Brasília
A reportagem também descreve a aproximação de Flávio Bolsonaro com empresários, advogados e outros interlocutores durante o governo de Jair Bolsonaro.
Entre os personagens citados está Alan Belaciano, que teria participado de encontros com pessoas interessadas em tratar de assuntos relacionados à administração federal.
O PlatôBR relata ainda a existência de uma casa no Lago Sul, em Brasília, frequentada por pessoas próximas ao senador e utilizada como ponto de encontro de empresários e advogados.

Segundo a reportagem, Santini teria conhecimento de parte dessas relações e guardado documentos referentes a pagamentos e despesas associados ao grupo.
Entre os gastos mencionados estão equipamentos para a residência de Flávio, serviços domésticos, televisão e mensalidades de academia.
Relação com Queiroz
A proximidade de Santini com o círculo de Flávio também teria incluído contato com Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador e personagem central das investigações sobre as rachadinhas. Segundo a reportagem, Queiroz recorria a Santini para encaminhar pedidos de ajuda financeira a Flávio.

Mensagens e áudios apresentados pelo ex-sócio indicariam que Queiroz buscava recursos em momentos de dificuldade financeira. A relação entre Santini, Queiroz e outros integrantes do entorno de Bolsonaro teria continuado mesmo depois do rompimento entre os antigos sócios.

Negócio de chocolates
Antes da crise entre os dois, Santini era responsável por parte da administração da loja de chocolates que mantinha em sociedade com Flávio.
A reportagem apresenta documentos que mostram o então deputado estadual participando diretamente de negociações comerciais envolvendo a franquia.
Em uma das situações relatadas, Flávio teria negociado a venda de chocolates para uma associação de funcionários do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. O pedido, segundo a publicação, envolvia cerca de R$ 50 mil em produtos.

Mensagem envolvendo Kassio Nunes Marques
Um dos episódios mais sensíveis relatados pelo PlatôBR envolve o ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo mensagens apresentadas por Santini, o ex-sócio teria acusado Flávio de intermediar junto ao ministro um processo de interesse de um cliente ligado a Alan Belaciano.
Santini teria enviado uma mensagem ao senador mencionando o contato com Kassio e afirmando que Belaciano estaria envolvido na questão.
A publicação também relata que um jantar teria sido cogitado para tratar do assunto, com participação de pessoas ligadas ao gabinete do ministro.
Não há, contudo, comprovação independente apresentada na reportagem de que Flávio tenha efetivamente interferido no processo ou de que tenha ocorrido qualquer irregularidade por parte do ministro.
Após a mensagem, Flávio teria marcado uma reunião com Santini em seu gabinete no Senado. Pouco depois, segundo o PlatôBR, o ex-sócio informou a pessoas próximas que a disputa havia sido encerrada.
Relação terminou em disputa
A trajetória da amizade entre Flávio Bolsonaro e Alexandre Santini passou, segundo a reportagem, de uma relação de proximidade para uma disputa marcada por cobranças financeiras, acusações e ameaças de divulgação de informações.
Santini chegou a afirmar, em gravações citadas pela publicação, que possuía informações capazes de causar consequências políticas para o senador. Apesar do conflito, a reportagem afirma que atualmente o ex-sócio demonstra apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.

