Flávio é ‘usuário master’ de conta ligada a jato de Vorcaro, diz PF

    Segundo Malu Gaspar, de O Globo, e-mails do Santander indicam vínculo do senador com conta de empresa

    Foto: Reprodução/Pedro França/Ag. Senado

    O senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) figurava como usuário master de uma conta bancária da empresa Alcazar Holdings, ligada ao advogado Willer Tomaz e a uma aeronave utilizada pelo empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.

    A informação foi divulgada nesta quarta-feira (14) pela colunista Malu Gaspar, do jornal O Globo, com base em documentos identificados pela Polícia Federal (PF) durante uma investigação sobre desvios no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

    Segundo a apuração, registros de e-mails trocados entre funcionários do Santander e uma secretária de Tomaz indicam que o nome de Flávio estava associado à conta da holding até maio de 2025. O senador e o advogado negam ter compartilhado uma conta bancária e contestam a interpretação dos documentos.

    E-mails do Santander registram pedido de desvinculação

    De acordo com a reportagem, em 22 de maio de 2025, Fayla Menezes, secretária de Willer Tomaz, solicitou ao Santander a inclusão de um novo usuário no perfil master da conta da Alcazar Holdings e a retirada de contas vinculadas ao cadastro, entre elas uma identificada com o nome de Flávio Bolsonaro.

    A resposta do banco, enviada na mesma manhã, confirmou a exclusão das contas do contrato, conforme solicitado.

    E-mail de funcionária de Willer Tomaz para o banco Santander. (Foto: Reprodução)

    Em relatório, a Polícia Federal afirmou que a documentação de abertura da conta indicava Flávio como usuário master, condição que, em princípio, permitiria acesso e gerenciamento da estrutura bancária. Para os investigadores, o registro representa um elemento a ser considerado na apuração de um possível vínculo econômico ou societário com a empresa.

    A PF também destacou que a Alcazar Holdings detinha participação de 33,33% na Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa proprietária de uma das cotas de um jato executivo Embraer Legacy 650.

    Jato também foi utilizado por Daniel Vorcaro

    A aeronave, de matrícula PP-NLR, foi utilizada por Flávio Bolsonaro em uma viagem de ida e volta entre Brasília e Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, em janeiro de 2025. Na ocasião, o senador viajou acompanhado de Willer Tomaz.

    Além da empresa ligada ao advogado, outros cotistas da aeronave eram Laerte Cosentino, empresário e dono da Totvs, e a Prime You, que tinha Daniel Vorcaro entre seus sócios naquele período.

    O voo foi revelado anteriormente pela revista piauí. Na ocasião, Flávio afirmou que viajou como convidado de Tomaz, a quem considera amigo. O advogado, por sua vez, declarou não saber que a Prime You integrava a estrutura de propriedade do avião nem que a empresa tinha ligação com Vorcaro.

    A reportagem de Malu Gaspar aponta que os registros bancários acrescentam um novo elemento à apuração sobre a relação entre o senador, o advogado e a aeronave.

    Investigação também cita viagens internacionais

    Documentos extraídos do celular de Willer Tomaz também indicariam viagens internacionais realizadas com Flávio Bolsonaro e familiares, incluindo deslocamentos em jatos executivos para a Europa.

    Segundo a apuração publicada por O Globo, reservas registradas em abril e maio de 2025 incluíam o senador, sua esposa, Fernanda Bolsonaro, suas filhas, o advogado e integrantes da família dele. Uma das viagens teria como destino final Mônaco, após um trajeto inicialmente registrado entre Portugal e Nice, na França.

    Reservas de jato com Willer, Flávio Bolsonaro e familiares na Europa. (Foto: Reprodução)

    Questionado sobre os deslocamentos, Tomaz afirmou que foram viagens de lazer com as famílias, cujos integrantes embarcaram como convidados, sem pagamento ou contrapartida.

    A PF também identificou conversas entre o advogado e Flávio por meio do aplicativo Confide, descrito pelos investigadores como uma plataforma de comunicação privada com mensagens efêmeras. O número do senador aparecia entre os contatos favoritos de Tomaz.

    Reservas de jato com Willer, Flávio Bolsonaro e familiares na Europa. (Foto: Reprodução)

    Os registros, por si só, não comprovam a existência de irregularidades nas viagens ou nas relações financeiras mencionadas.

    Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam vínculo financeiro

    Em nota, a assessoria de Flávio Bolsonaro afirmou que o senador nunca manteve conta bancária cujo usuário master fosse Willer Tomaz ou alguma de suas empresas. A defesa sustenta que o próprio e-mail do Santander demonstra que a associação era indevida e que, por isso, foi solicitada a desvinculação.

    A manifestação também classificou as alegações como falsas e afirmou que a divulgação de informações durante o período eleitoral exige responsabilidade. Veja na íntegra:

    “O senador nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas. Toda e qualquer afirmação nesse sentido é falsa.

    O próprio e-mail apresentado comprova justamente que a vinculação era indevida, tanto que solicita a desvinculação. Ou seja, o pedido só reforça que qualquer possibilidade de associação existente estava errada e precisava ser corrigida.

    Essas insinuações surgem em pleno período eleitoral e exigem responsabilidade. A divulgação de Fake News é crime eleitoral e os responsáveis deverão responder na forma da lei.”

    Willer Tomaz, por sua vez, declarou manter apenas uma relação de amizade com Flávio, sem vínculo financeiro ou societário. O advogado contestou a interpretação dos documentos e afirmou que a conclusão sobre eventual participação econômica ou societária seria uma ilação.

    Tomaz também alegou que a divulgação de informações extraídas de seu celular e de sua conta no iCloud faz parte de um vazamento que, segundo ele, é criminoso e está sob investigação da Polícia Federal. Confira o posicionamento da defesa:

    “O advogado Willer Tomaz repudia as inverdades reiteradas na reportagem. Com o senador Flávio Bolsonaro mantém apenas amizade, sem nenhum vínculo financeiro ou societário.

    Os deslocamentos citados foram viagens de lazer com as famílias, que embarcaram como convidadas, sem pagamento ou contrapartida de qualquer natureza.

    Converter conjecturas em denúncias, em plena campanha eleitoral, tem o evidente propósito de interferir no pleito. A exposição de dados sigilosos de seu celular e iCloud integra o vazamento criminoso já investigado pela Polícia Federal, e os autores responderão na Justiça.”